Santo Antonio María Claret

 

A ESPIRITUALIDADE COMBATIVA DE SANTO ANTONIO MARÍA CLARET

 

André F. Falleiro Garcia

 

     Santo Antonio María Claret (1807-1870), fundador da Congregação Missionária dos Filhos do Coração Imaculado de Maria (claretianos), Arcebispo de Santiago de Cuba, confessor e conselheiro da Rainha Isabel II da Espanha, foi canonizado em 1950 por Pio XII.

     Lutador incansável, de extrema eficácia na ação, não portou armas bélicas nem usou tribuna política para a conquista da opinião pública. Orador eloqüente, comoveu multidões imensas em suas pregações. Caráter forte, ilustrou com seu próprio exemplo o caminho reto do soldado de Cristo. Atuou exclusivamente no plano espiritual e cultural. Muito antes de Lênin tomar o poder na Rússia, o missionário espanhol empreendeu com êxito a luta contra-revolucionária no campo que mais tarde Antonio Gramsci, ao escrever os famosos "Cadernos do Cárcere", considerou como decisivo: a conquista das opiniões e das mentalidades em matéria religiosa e cultural para o domínio hegemônico da sociedade.

     Não apenas teve o dom da palavra. Seus escritos complementaram a pregação. “Como apóstolo da pena, o padre Claret não teve rival em sua época, talvez até mesmo em toda a Europa”[1]. “Escritos em um estilo funcional e originalíssimo, vivaz e muito direto, seus livros e folhetos alcançaram uma popularidade imensa”[2].

     Recebeu da Santa Sé o título de Missionário Apostólico. Recristianizou em 7 anos, de 1840 a 1948, a Catalunha. O efeito de sua ação foi assim avaliado por Jaime Brossa, dirigente anarquista e diretor do El Diluvio: "Se não houvesse existido o padre Claret, a Catalunha teria compreendido a mensagem da revolução" [3]. Não apenas junto às massas populares foi notável o êxito da atuação desse zeloso homem de Deus. Na capital, atuou nos salões da Corte e nos círculos de grande influência política e social. Reconheceu-o Jaime Brossa: “Sua residência em Madri, quando mais tarde foi nomeado confessor de Isabel II, foi uma verdadeira catástrofe para o movimento revolucionário espanhol” [4].

     Depois de mudar radicalmente o aspecto religioso da Catalunha, fez a mesma coisa nas Canárias e, pouco depois, em Cuba. No Concílio Vaticano I, teve atuação destacada como ferrenho defensor da infalibilidade pontifícia.

     O Caminho Reto foi sua obra mais popular da Espanha, impressos cerca de dois milhões de exemplares. Claret não a concebeu como antologia de orações e devoções, e sim, manual de formação cristã e orientação para a vida no lar e na sociedade. O anarquista Jaime Brossa teve que confessar: “Nós não soubemos elaborar nenhum Caminho Reto[5]. Um século depois, os socialistas espanhóis do PSOE, é lamentável reconhecer, souberam fazer uma revolução cultural e anticristã assombrosa, que anestesiou almas e modificou costumes e instituições.

     Quando houve uma reforma no Senado espanhol, em 1857, foram promovidos à categoria de senadores todos os arcebispos. Claret, porém, fiel ao princípio de “não meter-se em política”, declinou do cargo e recusou-se a tomar parte nas disputas político-partidárias. O anarquista Brossa comparou a atuação do filósofo, teólogo e político Jaime Balmes, que viveu na primeira metade no século XIX, e a de Claret em Madri. Chegou à conclusão de que “o trabalho de Balmes no terreno político havia sido uma magnífica preparação estratégica para a ação do padre Claret, porém, a influência do missionário foi muito mais decisiva, precisamente porque não se envolveu com política”[6].


Vivemos tempos de diálogo e colaboração entre católicos e socialistas, protagonizados pelo Cardeal Rouco Varela e o presidente Zapatero

     A Espanha precisa redescobrir a espiritualidade combativa que caracterizou a santidade claretiana. O ambiente religioso espanhol hoje em dia está contaminado pelo "diálogo" relativista, e também pelo ecumenismo. Infelizmente desde as últimas décadas do século XX não surgiu nas fileiras do Episcopado espanhol um novo Claret capaz de conter e vencer a investida revolucionária. O cardeal-Arcebispo de Madrid, Antonio María Rouco Varela, recentemente eleito presidente da Conferência Episcopal Espanhola, explicou que “o caminho de nosso tempo" é o "diálogo" [7]. E propôs "colaboração leal" à segunda legislatura do governo espanhol socialista de José Luis Rodríguez Zapatero, elevando ao mesmo tempo sua voz em defesa dos direitos da pessoa humana, explicou L’Osservatore Romano[8].

     Em tempos em que os direitos de Deus são relegados e os direitos humanos são lembrados a toda hora, em que a autoridade eclesiástica se empenha no diálogo e na colaboração com os socialistas, o exemplo de Santo Antonio María Claret reaviva a noção da militância católica e aponta o verdadeiro sentido da vida interior.

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         NOTAS:

     

        [1] BRUNET, M., Atualidade do Padre Claret, Vic, 1953, p. 22. Apud Autobiografia de Santo Antonio Maria Claret. Edição espanhola publicada em SAN ANTONIO MARIA CLARET, Escritos autobiográficos, preparada por José Maria Viñas e Jesus Bermejo, BAC, Madri, 1981. Edição traduzida para o português.

        [2] Ibidem, p. 25.

        [3] Ibidem, p. 39.   

        [4] Ibidem, p. 41.

        [5] Ibidem, p. 40.

        [6] Ibidem, sem indicação da página.

        [7] “Diálogo” y “laicidad positiva” son el camino de nuestro tiempo, explica Cardenal Rouco.

        [8] Agência de notícias Zenit, 11/03/2008, Relações Zapatero-Igreja: colaboração leal e presença incisiva.

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    O EXTRAORDINÁRIO SENSO DA LUTA EM SANTO ANTONIO MARÍA CLARET

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

         Analisando esta foto, nota-se que na fisionomia deste varão não entrou a mão nem a imaginação de nenhum pintor. Foto sem subterfúgios, de um homem sem subterfúgios. Diante dela, podemos perguntar: é esta a idéia que temos de um santo? Absolutamente não, o que me leva à conclusão de que formamos uma concepção incompleta de santidade, pois trata-se de um santo: Santo Antonio Maria Claret.

         Por que não se tem a idéia de que é um santo? Toda a fisionomia dele não leva a marca da estética: o formato do rosto, perfeitamente comum; as sobrancelhas dão idéia de uma personalidade forte; o enorme nariz parece ter passado por uma explosão nasal; lábios grossos; boca sem um traçado bem definido e orelhas grandes. Entretanto, homem com alto senso de dignidade e extraordinário senso da luta!

         A linha geral da fisionomia revela uma firmeza indomável. Os olhos manifestam uma inquebrantável determinação da vontade, e parecem dizer: “Eu vou de qualquer jeito, e não tenho medo das conseqüências! O que devo fazer, faço! O que eu disse, mantenho!”.

         Observando seu olhar, não é difícil perceber que, a par de tanta firmeza, ele tem uma bondade e uma doçura incontestáveis. No fundo do olhar, sobretudo do lado direito, nota-se juntamente com a doçura uma firmeza resolvida a ir até o martírio. Não tem hesitações, entregou tudo e está disposto a enfrentar qualquer dificuldade que apareça.

         É um homem movido por alto senso do dever, fundado nas mais elevadas concepções religiosas e metafísicas, profundamente persuadido de que assume a posição certa; de que professa e ensina a Religião verdadeira; de que é um ministro de Deus, e ensina a doutrina imutável e eterna da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. A atitude dele é a de quem crê nisso até o fundo da alma e tem certeza daquilo que crê. Está disposto a qualquer coisa para pregar, defender e manter essa doutrina, de acordo com seu lema: “A Dios orando y con el mazo dando” (A Deus orando e golpeando o inimigo).

         A consciência dele é um lago tranqüilo de água cristalina. É um exemplo de vida sobrenatural, um apóstolo transbordante de vida interior. E porque transbordante dessa vida, homem para o qual não há barreiras. Quando encontra obstáculos insuperáveis, levanta os olhos para Deus e faz uma prece.

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         Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 9 de outubro de 1987. Sem revisão do autor.

         Publicado na revista Catolicismo de outubro/2009 com o título Apóstolo transbordante de vida interior.

     

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