Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face

"Na minha infância sonhei combater nos campos de batalha. Quando comecei a aprender a história da França, o relato dos feitos de Joana d'Arc me encantava; sentia em meu coração o desejo e a coragem de imitá-los"

(Santa Teresinha do Menino Jesus)

 

A PEQUENA VIA DE UMA GRANDE SANTA

 

Renato Cabral Pessanha

 

     São encantadores o olhar luminoso e a naturalidade suave e cativante que emana da fisionomia de Santa Teresinha do Menino Jesus. O segredo dessa alma, tão impregnada do sobrenatural, que a elevou à santidade, é a doutrina espiritual que ficou conhecida como Pequena Via. Nada melhor para reavivar nossa própria vida espiritual do que seguir seus passos nesse singelo caminho.

     Ao contrário da impressão de infantilidade rasa que se espalhou a respeito da personalidade dessa santa francesa, a Igreja quis louvar a profundidade de seu pensamento ao declará-la Doutora. Tornou-se Doutora sem sair da via dos pequenos e fracos. Pode alguém doutorar-se em fraqueza e pequenez? Pode. Ela nos ensinou essa ciência.

    Ao sentir-se frágil e incapaz de ficar sem dormir e sem comer, como alguns gigantes da vida espiritual, ela descobriu outra grandeza: a dos desejos. No Antigo Testamento Deus se agradou de Daniel porque era homem de grandes desejos. Acontece que os bons desejos são plantados pelo próprio Deus. Então, ela tirou a conclusão: se Deus colocou em minha alma esses desejos, é porque Ele mesmo irá realizá-los.

     Confiança! E assim anexou aos desejos imensos outra virtude sem limites: a confiança inabalável de que Deus não pode faltar à Sua promessa. E o fundamento na Escritura para reforçar essa certeza infalível ela encontrou no trecho em que Jesus assevera que quem não se tornar pequeno como uma criança não entrará no Reino dos Céus.

     Para que então tomar ares de teólogo auto-suficiente, confiante em suas próprias luzes? Essa é uma atitude perigosa, orgulhosa, pedante. Mais vale garantir o Céu, comportando-se como aqueles pequeninos que não vacilavam em correr para os braços de Jesus, entregando-se totalmente a Ele, beijando-O sem nenhum medo.

     Além da humildade, mais uma lição extraiu do tesouro saído da boca da própria Sabedoria. Abandonar-se. Não escolher nem pedir sofrimentos. Aceitar com alegria tudo que Deus mandar, só para Lhe dar prazer.

     Mas isso não prejudica a inteligência? Não. Já doente, uma irmã observou para a Santa: você é como um bebê. E ela, tomando um ar sério, respondeu: “Mas sou um bebê que reflete muito”.

     Nessa escola, o ordinário é feito de modo extraordinário e o natural dá a vez ao sobrenatural. Um remédio que é tomado sem fazer careta, um copo d’água no verão que só se toma depois de rezar três Ave-Marias, as pernas que nunca se cruzam na igreja, o sorriso amigo para aquela pessoa que é a mais antipática, o bom dia que se dá quando mais se sofre... A relação de coisas pequenas feitas alegremente para dar prazer ao bom Deus é infinita.

     Pode custar um martírio. Mesmo sem sangue, não é menor martírio. É o martírio do coração. E nisso ela foi grande mestra. E como tudo era muito simples e oculto, as outras carmelitas pouco davam por ela. Julgavam-na imperfeita, medíocre, sem valor.

     Outro fundamento que Teresinha encontrou na Escritura foi o de São Paulo: o grande Apóstolo oferecia a Cristo Jesus a própria fraqueza, para que Ele fizesse resplandecer nela a Sua força. Esse é um dos mais maravilhosos paradoxos da santidade cristã. Quanto mais nos sentimos fracos e não confiamos em nossas próprias forças, tanto mais brilha em nós a força da graça divina. Jesus se inclina com muito maior misericórdia sobre os doentes e aleijados do que sobre os sadios. É como age qualquer mãe amorosa. É o sentido daquela belíssima frase do Precônio Pascal: “Ó feliz culpa!” Então podemos nos considerar felizes por sermos culpados? Sim, porque foi a culpa que atraiu o Salvador à Terra. Ó bendita misericórdia! Ó suprema caridade! Para salvar as ovelhas transviadas o Cordeiro foi imolado.

     Se compreendêssemos bem essas sublimes realidades, morreríamos de amor. Como aconteceu com Santa Teresinha. Ao preferir ser pequena, cresceu tanto que se tornou a "maior santa dos tempos modernos", segundo São Pio X. E a cada lance da doença, a cada golfada de sangue que saía de seus pulmões tuberculosos, oferecia seus sofrimentos pela conversão dos pecadores. Tornou-se Padroeira Universal das Missões. Nem mais nem menos.

     «Quereria percorrer a terra, pregar o teu nome, implantar no solo infiel a tua cruz gloriosa, mas, ó meu Bem Amado!, uma missão só não me bastaria. Quereria, ao mesmo tempo, anunciar o Evangelho nas cinco partes do mundo e até nas ilhas mais longínquas. Quereria ser missionário, não apenas durante alguns anos, mas quereria tê-lo sido desde a criação do mundo até à consumação dos séculos. Mas quereria, sobretudo, ó meu Bem Amado Salvador, derramar o meu sangue por Ti, até à última gota». (Santa Teresa do Menino Jesus. História de uma Alma, B, 3r).

     No leito de morte, a pequena santa exclamou profeticamente: "Sinto que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o bom Deus como eu O amo, de dar a minha pequena via às almas".

     Em seus últimos momentos, cercados de dores e provações, mais uma delicadeza de sua parte: havia pedido a Deus que não a deixasse morrer tarde da noite, para não perturbar o repouso noturno no convento. Partiu para a eternidade por volta das sete horas da noite, com apenas 24 anos. Logo desceria sobre a Terra uma chuva de rosas e graças.

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     Renato Cabral Pessanha é artista plástico, desenvolve técnicas variadas, inclusive arte sacra, seus trabalhos podem ser avaliados em Baluarte.

 

 

 

 

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