PAZ LITÚRGICA OU "APARTHEID" LITÚRGICO?

 

André F. Falleiro Garcia

    

     Um documento inédito acaba de ser divulgado pelo movimento francês Paix Liturgique, de linha “Ecclesia Dei”. Foi elaborado por um especialista na questão tradicionalista, Mons. Thierry Jordan, na época (1998) bispo de Pontoise, hoje bispo de Reims.


Mons. Jordan, Bispo de Reims

      Destinado ao conjunto da Conferência dos bispos franceses, teve o seguinte título: “Ecclesia Dei adflicta:   dez anos depois. Um enfoque canônico.”[1]     Na ótica de Paix Liturgique, o documento explicitou e oficializou a política de discriminação religiosa adotada pelo episcopado francês desde o lançamento da Carta Apostólica “Ecclesia Dei”, por João Paulo II, sob forma de “motu proprio”, em 2 de julho de 1988.     

     Os tradicionalistas franceses do Paix Liturgique — que também aderiram aos termos do novo regulamento litúrgico estabelecido pelo “motu proprio” de Bento XVI — constatam consternados um agravamento no tratamento rigoroso que recebem do episcopado e do clero. Por não se colocarem em “plena comunhão” com os bispos e os padres progressistas, eles se sentem vítimas de uma “cultura do desprezo” e se consideram submetidos a um cruel “apartheid” litúrgico.

     Uma estratégia pastoral contraditória

     Na raiz desse tratamento severo, estaria um enfoque canônico. O documento de Mons. Thierry Jordan reconheceu que esses tradicionalistas não poderiam ser enquadrados como cismáticos segundo o cânon 751 do Código Canônico em vigor, já que não recusaram a submissão ao Soberano Pontífice. Conforme o cânon, cisma é a “recusa de submissão ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja a ele submetidos”.   

   Mas Mons. Jordan levantou a suspeita de que não haveria, da parte desses tradicionalistas que aceitaram o regime da Carta Apostólica “Ecclesia Dei”, uma comunhão plena com o episcopado francês, o que remeteria ao mesmo cânon, que considera tal comportamento como igualmente cismático. A crítica sistemática à missa nova, aos bispos e à Igreja conciliar, que haveria nesses meios, não constituiria “um sinal positivo de comunhão”.

     Ademais, o documento de Mons. Jordan censurou nesses tradicionalistas a formação de uma “corrente eclesial praticamente autônoma” em relação ao episcopado. Tal corrente, que se bastaria a si própria, e à qual faltaria a “comunhão eclesial orgânica”, seria suspeita de cisma.

     Essa estratégia pastoral, vigente até hoje, causa perplexidade, porque faz lembrar o clima psicológico da época da Revolução Francesa, quando esteve em vigor a Lei dos Suspeitos. Basta a suspeita da “existência de comportamentos de coloração cismática” para que o episcopado desencadeie os rigores da repressão. Até a falta da “comunhão afetiva” se tornou motivo para a exclusão desses tradicionalistas. Em época de ecumenismo exacerbado, o rigor dos bispos franceses tem se revelado extremo em relação a esses católicos que se submeteram às normas litúrgicas emanadas de Roma.

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     O tradicionalismo "moderado", posição precária e transitória

     Qual a atitude desses católicos franceses de linha “Ecclesia Dei”, representados pelo movimento Paix Liturgique? Eles lamentam que os bispos exijam uma “comunhão afetiva” unilateral, pois não se percebem respeitados e amados enquanto ligados à prática litúrgica tradicionalista autorizada por Roma. Para eles, o documento de Mons. Jordan comprova que o episcopado decidiu não fazer nada para a aplicação dos regulamentos litúrgicos que autorizam a celebração da missa tridentina, além de bloquear sistematicamente a desejada marcha para a reconciliação e a paz litúrgica. Consideram que há um inexplicável plano concebido pelos bispos franceses contra a liturgia tradicional, que vem sendo aplicado há mais de trinta anos.

Missa tridentina na igreja Santa Joana D'Arc em Reims.

Os tradicionalistas "moderados" recebem um minimum do Episcopado, uma missa tridentina semanal ou apenas mensal.

     O que pensar dessa atitude? Percebe-se na psicologia desses católicos de linha “Ecclesia Dei” uma propensão para entrar em composição com o progressismo, desde que lhes seja assegurada a assistência dominical à liturgia tridentina. Para obter a reconciliação e a paz litúrgica, aceitam o pluralismo litúrgico. Não se trata, porém, do nobre desejo de alcançar a paz mediante a preservação integral da doutrina católica. Buscam a paz litúrgica resultante da mentalidade irenista, infelizmente arraigada nesses adeptos da coexistência pacífica entre a missa tridentina e a missa nova.[2] A verdadeira paz não pode ser obtida através da aceitação simultânea de ritos litúrgicos fundados em orientação teológica oposta e inconciliável.

     Para não enfrentar uma polêmica doutrinária com o bispo local e a Santa Sé, ou simplesmente por comodismo, ou por alguma outra razão, esses católicos, que preferiram se beneficiar da celebração autorizada da missa tridentina, não quiseram se colocar em atitude de resistência em matéria litúrgica em relação ao Vaticano e ao Episcopado francês. Não quiseram reivindicar a missa tridentina de forma exclusiva e excludente. Acostumaram-se a lamentar os “estratagemas indignos” que bispos franceses utilizam contra eles há trinta anos.

     Um cruel processo de desgaste psicológico tem sido sistematicamente aplicado nesses católicos franceses. De um lado, se eles pedem individualmente ao seu bispo a celebração da missa tradicional segundo o rito extraordinário, esta não lhes é concedida porque eles nada representam. De outro lado, se pedem em conjunto com dezenas ou centenas de famílias, também não lhes é concedida porque estariam fazendo supostamente uma pressão intolerável sobre os bispos. Se recorrem à Comissão “Ecclesia Dei”, também não são atendidos, porque ela então considera que eles se recusaram a reconhecer a autoridade de seus bispos.

     Tornaram-se, infelizmente, vítimas de um processo psicológico que alternou a pressão da severidade com a descompressão da amenidade. Para o processo de descompressão se mobilizou o Vaticano. Tanto João Paulo II quanto Bento XVI apareceram, aos olhos desses católicos iludidos, como sendo os protetores de sua justa causa. Alguns raros discursos papais, algumas poucas melhoras obtidas através da Comissão “Ecclesia Dei” reavivaram simpatias, renovaram esperanças e preservaram o prestígio pontifício. Para o processo de pressão se movimentaram os bispos e o clero progressista. O resultado final foi a produção de um grande descontentamento e enorme frustração.

     Normalmente, esse processo psicológico levaria esses tradicionalistas, numa primeira etapa, a uma atitude de inércia e resignação, fazendo-os a desistir da celebração tridentina. Numa segunda etapa, passariam da passividade para a busca da “comunhão eclesial orgânica”. Na etapa final desse processo, estariam transformados em progressistas convictos. Mas, o que seria previsível não aconteceu, esse processo não chegou ao seu termo.

     O que está acontecendo atualmente, nas bases desse movimento tradicionalista francês compromissado, é que estão ficando cansadas da perseguiçao dos bispos, então abandonam seu compromisso com a Comissão Ecclesia Dei, e entram no estado de resistência. Eles caminham em direção a outros grupos, também considerados "cismáticos" pelo Episcopado francês, que não assinaram o protocolo de adesão da Comissão Ecclesia Dei.

     Assim, o fruto mais palpável do regime do “apartheid” litúrgico tem sido o aumento do número de católicos que aderiram ao estado de resistência em matéria litúrgica. É importante notar que na França — como em outros lugares — a posição do tradicionalismo moderado está ficando cada vez mais precária e insustentável.

 

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    [1] Lettre 133, 14 de agosto de 2008. PaixLiturgique.com

    [2] Irenista, da palavra irenismo. Consideramos o irenismo não com o sentido do amor temperante à verdadeira paz, mas como o amor desregrado a uma paz obtida a qualquer preço, à custa dos princípios, dos direitos adquiridos etc.

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     English version: Liturgical Peace or Liturgical Apartheid?

     

 

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