DESCONCERTANTES DECLARAÇÕES PAPAIS NA JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE

 

Juan Valdivieso Vicuña

 

     A Jornada Mundial da Juventude que se realizou na Austrália foi marcada por inúmeras atitudes e pronunciamentos de Bento XVI no sentido ecumênico, ecologista e tribalista. Esse conjunto de pronunciamentos seria suficiente para sepultar definitivamente a legenda midiática do papa “ultra conservador”.

Bento XVI, o papa ecologista e tribalista

     Não obstante a grande cobertura realizada pelos jornalistas e fotógrafos que acompanharam o evento, com a circulação de fotos e documentários que mostraram para todo o mundo o papa verde, tribalista e ecumênico, a legenda midiática do suposto conservadorismo ratzingeriano permaneceu intacta.      

     A evidente contradição entre o mito e a realidade, que seria própria a causar desconcerto e perplexidade na opinião pública católica, instalou-se infelizmente na mentalidade confusa, caótica e relativista de incontáveis católicos. 


O ato inter-confessional na cripta da catedral
 Um desses acontecimentos capazes de produzir grande poluição mental, incomparavelmente pior que a contaminação atmosférica porque põe em risco a fé, foi o discurso papal perante representantes de diversas “confissões cristãs”. A agência de notícias CNA informou que Bento XVI na manhã de 18 de julho, sexta-feira, reuniu-se com quinze líderes de diversas "confissões cristãs" (anglicanos, sírios ortodoxos, católicos maronitas, ortodoxos da Índia, chineses metodistas e luteranos) na Cripta da Catedral de Santa Maria em Sydney.[1]     

     As palavras do Pontífice nessa ocasião foram surpreendentes: “Devemos precaver-nos contra toda a tentação de considerar a doutrina como fonte de divisão e, consequentemente, como impedimento daquilo que parece ser a tarefa mais urgente e imediata: melhorar o mundo onde vivemos.”[2]

     Isto é desconcertante, já que Bento XVI se apresenta como sendo o papa que combate o relativismo de nossos tempos. Como se pode entender que ele considere que seja uma tentação o ver a verdade como fonte de divisão? Entre verdade e erro, bem e mal, há uma divisão profunda e inconciliável. A verdade não divide os que a aceitam, mas os une, e os libera do pecado e do erro: “Veritas liberavit vos”. Tal é o ensinamento dos Evangelhos e, portanto, de Nosso Senhor Jesus Cristo, da doutrina dos Doutores da Igreja e dos Papas. A verdade só é fonte de divisão para os que a rejeitam e se recusam a aceitar a doutrina tradicional católica. Sabemos que para melhorarmos o mundo em que vivemos, devemos antes de tudo nos submeter à única verdade, a verdade revelada por Deus e ensinada pela Santa Igreja Católica.

     O Papa disse também que “O caminho do ecumenismo visa em definitivo chegar à celebração comum da Eucaristia ... embora haja ainda obstáculos a superar, podemos estar certos de que uma Eucaristia comum há de um dia selar a nossa decisão de nos amarmos e servirmos uns aos outros”. Este é um ponto em que há novamente um evidente relativismo: “uma comum Eucaristia”. Pois todo católico sabe que o que ensina a Santa Igreja sobre a Eucaristia é absolutamente diferente do que crêem os protestantes, e que a matéria dogmática católica não é negociável.

     Uma Eucaristia comum, aceita pelos católicos e por todas as “confissões cristãs”; uma missa comum, mescla da missa tridentina e da missa nova promulgada por Paulo VI. Tais são os objetivos que os papas conciliares buscam realizar. O modo para alcançá-los é o diálogo irenístico [3] que, através de suas múltiplas formas e etapas, conduz logicamente ao relativismo doutrinário. O resultado final desse processo, no plano litúrgico e doutrinal, seria a instauração do rito comum da nova religião mundial. Com isso, as portas do inferno prevaleceriam sobre a Santa Igreja Católica.[4]

     Mas não são apenas as barreiras doutrinárias que são demolidas nesse sinistro processo, também as barreiras psicológicas tendem a desaparecer: as clássicas categorias criadas pelo senso católico — apóstata, herege, cismático — são substituídas por uma visão idílica do interlocutor não católico, que não é mais visto como contaminado pelo erro, mas como supostamente cheio de dons espirituais.


O Cardeal de Honduras afirmou que a JMJ "não é um Woodstock católico sem drogas nem álcool, como alguns dizem".

     Nesse sentido, as palavras de Bento XVI en Sydney: “Por este motivo, o diálogo ecumênico avança não só mediante um intercâmbio de idéias, mas também partilhando dons que nos enriquecem mutuamente (cf. Ut unum sint, 28.57). .... A abertura de nós mesmos para aceitarmos dons espirituais de outros cristãos estimula a nossa capacidade de receber a luz da verdade que vem do Espírito Santo. .... Confio que o Espírito Santo abra os nossos olhos para verem os dons espirituais dos outros ...”.

     Todas essas declarações de Bento XVI, na linha da encíclica “Ut unum sint” de João Paulo II, constituem um verdadeiro escândalo, ferem nossa fé e sensibilidade de católicos, e nos obrigam a manter em face delas uma postura de resistência, porque entram em total confronto com verdades ensinadas pela doutrina tradicional da Igreja.

     Por fim, citamos algumas proposições heréticas que contrariam a doutrina de que não existe salvação fora da Igreja Católica, e por isso foram condenadas pelo Papa Pio IX.[5]

 

"Todo homem é livre para abraçar e professar a religião que, guiado por sua luz da razão, considerar como verdadeira." (Denz. 1715)

"Os homens podem encontrar no culto de qualquer religião o caminho da salvação eterna e alcançar a eterna salvação." (Denz. 1716)

"Pelo menos se pode ter fundadas esperanças sobre a eterna salvação de todos aqueles que não se encontram de modo algum na verdadeira Igreja de Cristo." (Denz. 1717)

"O protestantismo não é senão uma forma diversa da mesma verdadeira religião cristã, e nele, do mesmo modo que na Igreja Católica, se pode agradar a Deus." (Denz. 1718) [6]

 

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     NOTAS:

 

    [1] http://www.catholicnewsagency.com/new.php?n=13290

    [2] http://www.zenit.org/article-19071?l=portuguese

    [3] Irenístico, da palavra “irenismo”. Aqui a aplicamos não no sentido de amor temperante à verdadeira paz, mas como o amor desregrado a uma paz obtida a qualquer preço, à custa dos princípios, dos direitos adquiridos etc. Em suma, de uma paz não autêntica, mas falsa. O Papa Pio XII, advertiu na encíclica “Humani Generis” de 12/8/1950, sobre os graves perigos que essa falsa paz traz consigo.

    [4] Sabemos que Deus não permitiria que essa situação chegasse a se realizar por inteiro, pois é verdade de Fé que "as portas do inferno não prevalecerão contra Ela", conforme a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo (Mat. XVI, 18).

    [5] Denz.: DENZINGER, EL MAGISTERIO DE LA IGLESIA, Manual de los Símbolos, Definiciones y Declaraciones de la Iglesia en Materia de Fe y Costumbres. Herder, 1963.

 

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     * Editor do site El Cruzado

     Tradução para o português: André F. Falleiro Garcia.

         

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