O CONCÍLIO VATICANO II E A RUPTURA

COM O MAGISTÉRIO TRADICIONAL

 

Juan Valdivieso V.

    

     Ouve-se constantemente que o Concílio Vaticano II seguiu a mesma linha dos concílios anteriores, que a única diferença é o seu caráter propriamente pastoral, e por isso deve ser interpretado dentro da continuidade do Magistério.


Vaticano II: ruptura com o Magistério tradicional da Igreja

     O que, na realidade, não acontece, porque aqueles que dizem interpretá-lo segundo a referida “continuidade” acabam por aceitar todos os erros e desvios que surgiram desse mesmo Concílio. Ademais, essa continuidade nem existe.

     Entre os propósitos deste blog está o de denunciar os enganos, e este é o maior de todos, a impostura religiosa mais descarada que se possa imaginar. É com a maior dor de alma que o dizemos. Cremos que por fidelidade à fé católica devemos resistir e não ficarmos como observadores passivos diante dessa verdadeira Paixão que está sofrendo a Igreja.

     Não vamos aqui fazer uma análise doutrinária do Concílio, que seria muito extensa; somente vamos citar importantes personagens eclesiásticos que confirmam que o Vaticano II rompeu com Tradição da Igreja, como veremos a seguir.

     A ruptura, afirmada por expoentes da corrente progressista


Fr. Ratzinger e Fr. Congar, expoentes da corrente progressista no Concílio

     O conhecido teólogo progressista Hans Küng afirmou: “Comparado com a época tridentina da Contra-Reforma, o Concílio Vaticano II representa, em suas características fundamentais, um giro de 180 graus. É uma nova Igreja, a que nasceu depois do Concílio Vaticano II.”[1]

     E outro célebre teólogo contemporâneo, Yves Congar, um dos “cérebros” do Concílio Vaticano II, admitiu que: “não podemos negar que tal texto [Declaração conciliar sobre a liberdade religiosa] diz materialmente coisas distintas do Syllabus de 1864 e, inclusive, quase o contrário das proposições 15 e 77 a 79 desse documento.”[2] E, em outra parte, diz que no Vaticano II “a Igreja teve pacificamente sua Revolução de Outubro”[3], em referência ao Outubro vermelho que provocou a queda do império dos czares na Rússia.

     O Cardeal Leo Jozef Suenens, Arcebispo de Bruxelas, afirmou que o Concílio “marca o fim tanto da época tridentina como da era do Concílio Vaticano I. Ele é a Revolução Francesa na Igreja.”[4]

     Karl Rahner sustentou que o significado histórico-teológico do Concílio supõe uma ruptura com a tradição da Igreja tão grande, que só é comparável à do início da Igreja primitiva, quando, segundo ele, os discípulos de Jesus com suas iniciativas romperam a continuidade com os ensinamentos de Jesus.[5] Afirmou Rahner: Hoje começamos a viver em uma época de ruptura, tão grande como a que houve na passagem da era judaico-cristã para a era pagã-cristã.”[6]

     E o famoso Pe. Marie-Dominique Chenu, de grande importância para a redação de textos conciliares, escreveu que na História da Igreja o Concílio significa um corte em sua continuidade de quase 1500 anos, pois encerrou a “era constantiniana” do catolicismo.[7] Ademais, o mesmo grupo de teólogos implicitamente condenados pela Encíclica Humani Generis em 1950, é o mesmo que foi promovido na década de sessenta pelas novas autoridades.[8]

     O atual Bento XVI, quando Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, referindo-se à Constituição Conciliar “Gaudium et Spes” (em conexão com os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões do mundo), afirmou que constitui "uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de contra-Syllabus. (...) Contentemo-nos em constatar que o texto exerce um papel de um contra-Syllabus na medida em que ele representa uma tentativa de reconciliação oficial da Igreja com o mundo, tal como se tornou após 1789”.[9] Neste contexto, “a Igreja”, especialmente a partir dos Papas “Pio IX e Pio X”, “adotou” uma “atitude unilateral” com o mundo moderno, uma “relação obsoleta com o Estado”, que os fatos e o Concílio “corrigiram”.[10]

     É importante esclarecer que a frase acima é imprecisa, pois não foi a partir de Pio IX que a Igreja adotou o que Bento XVI chamou de “atitude unilateral” frente ao mundo moderno, mas que esta foi uma postura coerente com a verdade revelada, e por isso mesmo todos os papas, desde o início da Revolução Francesa até Pio XII, a mantiveram integralmente.

     Poderíamos continuar com muitas outras citações, porém cremos que estas são suficientes para constatar que efetivamente houve uma ruptura do Vaticano II com o Magistério tradicional da Igreja. Por isso mesmo, podemos afirmar que esse Concílio não seguiu as luzes do Espírito Santo, pois Deus não pode contradizer-se.

     O III Segredo de Fátima e a crise da Igreja

     O autêntico texto do Terceiro Segredo de Fátima, com a mensagem que a Santíssima Virgem transmitiu em 1917, e que por expresso pedido dela mesma deveria ter sido publicado em 1960, não será que adverte sobre essa grande ruptura com a Tradição da Igreja, que causou tão grandes estragos na fé, como conseqüência desse Concílio? Não será que por isso até agora não foi revelado?

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     NOTAS:

 

    [1] Citado por Sinke Guimarães, Átila, Animus Delendi (The Desire to Destroy)”, Tradition in Action, Los Angeles, California, 2001, p. 61.

    [2] Yves Congar, “La Crise de L'Église”, Paris, Cerf, 1977, p. 54.

    [3] Yves Congar, Le Concile au jour le jour - Deuxième session (Paris, Cerf, 1964), p. 115.

    [4] A. Schifferle, Marcel Lefebvre – Ärgemis und Besinnung – Fragen an das Traditionsver-ständnis der Kirche (Kevelaer: Butzon & Bercker, 1983), p. 190, nota de rodapé 579.

    [5] Karl Rahner, Theologische Grundinterpretation des II. Vatikanischen Konzils”, em Schriften zur Theologie”, vol. XIV, Einsiedeln 1980, pp. 287-302.

    [6] Idem, p. 297.

    [7] Cf. Marie-Dominique Chenu, La fin de l'ère constantinienne, in DUBOIS-DUMEE, J.-P. ET AL. - Un concile pour notre temps. Journees d'etudes des informations catoliques internationales. (=Rencontres 62). Editions du Cerf, Paris, 1961, pp. 59-87.

    [8] Cf. Philippe Levillain, La mécanique politique du Vatican II, (Paris: Beauchesne, 1975), p. 77.

    [9] J. Ratzinger, Les principes de la théologie catholique - Esquisse et materiaux, Tequi, Paris, 1985, pp. 426 ss.

    [10] Idem, ibidem.

 

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     Fonte:  El Concilio Vaticano II y la ruptura con el Magisterio

     Tradução para o português: André F. Falleiro Garcia.

     Versão em inglês: Vatican II Broke with the Magisterium   

 

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