O RABINO QUE REJEITA CRISTO PODE DAR LIÇÕES À VERDADEIRA IGREJA DE CRISTO?

 

A evanescença da Fé

 

Julio Alvear Téllez

 

Bento XVI, na sua luta contra o relativismo, convidou um rabino para dar lições aos cardeais e bispos...

     Não são as finanças internacionais e seus especuladores imorais os acontecimentos mais graves da hora presente. Preocupam-me mais as notícias que chegam de Roma.

     O espiritual tem sobre o econômico uma supremacia tão grande, que nos equivocaríamos se puséssemos nossa atenção unicamente nos avatares do capitalismo selvagem que nos consome.

     Quais são essas notícias? Bento XVI convidou o Grande Rabino de Haifa, She’ar Yishuv Cohen, a intervir no Sínodo que reúne em Roma os mais altos representantes da Igreja Católica. Cohen, que é membro da comissão mista Israel-Vaticano, discursou, no segundo dia do evento, 6 de outubro, perante 52 cardeais e mais de 200 bispos, com ampla repercussão na imprensa internacional.


O rabino Cohen, ombro a ombro com os bispos

     Sobre o que falou o Grande Rabino? Sobre o tema que havia sido convidado a tratar: dissertar sobre a importância da Tora [1] para o povo judeu.

     O Pe. Frederico Lombardi, diretor da sala de imprensa do Vaticano, afirmou que se trata de um convite “natural e lógico”, tendo em conta que o Sínodo está dedicado à Bíblia e ao Antigo Testamento, única parte das Escrituras que ambas as religiões compartilham.

     Por sua vez, o Grande Rabino asseverou, numa entrevista para a agência de notícias norte-americana Catholic News Service, que “este convite traz consigo uma mensagem de amor, coexistência e paz”.

     Ademais, afirmou: “vejo nele uma espécie de declaração, por parte da Igreja, da continuação da política e da doutrina que estabeleceram os papas João XXIII e João Paulo II” em relação ao povo judeu.

     Não obstante haver se referido à “mensagem de amor, coexistência e paz”, o Grande Rabino deu para a sua participação no evento o caráter de amplificador das acusações lançadas contra a memória do último Papa pré-conciliar, Pio XII. Cohen manifestou abertamente sua oposição à eventual beatificação do papa Pio XII, acusando-o de não haver levantado a voz a favor dos judeus durante o holocausto, acrescentando que “não esquecemos e não perdoamos”.

     A intervenção do rabino no evento causou perplexidade e confusão para o meu espírito. Eis, a seguir, as razões.

     A nova interpretação da Bíblia nega Cristo como Messias


Edição Vulgata da Bíblia. A noção tradicional que os fiéis possuem da Bíblia seria substituída por um enfoque judaizante

     1) Em primeiro lugar, sabemos que um Sínodo de bispos não é um encontro acadêmico. De acordo com o cânon 342 do Código de Direito Canônico em vigor, tem como missão ajudar o Sumo Pontífice a realizar sua tarefa de governo da Igreja universal. Temos que supor, portanto, que a presença de um Grande Rabino em um Sínodo católico possui um significado muito mais transcendente do que o de informar sobre os costumes de leitura judaicos.

     Eu penso que a presença do rabino nessa assembléia foi completamente supérflua. Todo membro do Sínodo certamente conhece a importância do Antigo Testamento. Os católicos sempre reconheceram seu significado, e nos últimos cem anos, desde a fundação do Instituto Bíblico Pontifício por São Pio X, tem havido estudo especializados nessa matéria.

     Talvez a verdadeira razão para a presença de Cohen no Sínodo tenha sido dada pelo rabino David Rosen, Diretor Internacional de Assuntos Religiosos do Comitê Judaico-Americano, que afirmou que o atual Sínodo tem como meta reformular a posição da Igreja a respeito de como apresentar o Antigo Testamento para os católicos. Se assim for, estaremos diante de uma verdadeira aberração, pois um Antigo Testamento que não seja entendido como promessa e pré-figura de Jesus Cristo, Deus e Redentor nosso, não é um Antigo Testamento compatível com o cristianismo.

     A inconcebível leitura da Bíblia à luz do Talmud


O Talmude numa versão antiga

     2) Em segundo lugar, as atuais autoridades da Igreja não podem desconhecer que o judaísmo lê a Tora à luz do Talmude,[2] de modo que os elementos comuns com o Antigo Testamento cristão são manifestamente irrelevantes.

     Por isso nossa fé católica nos ensina — e isso não pode ser modificado — que enquanto os adeptos do judaísmo não voltarem seus corações para Jesus Cristo (2 Cor. 3, 15), único Salvador, tais leituras da Tora realizadas em Roma, frente à Cátedra de Pedro, constituem por si mesmas — vou ser diplomático — uma afronta a Nosso Senhor e uma ofensa à identidade católica. Porque “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6).

     A Igreja, não a sinagoga, tem o mandato de interpretar as Escrituras


O Cardeal Kasper posa com o Talmud, junto com o rabino Zebulun Charlop, em março de 2006. O processo de autodemolição, sob o aspecto bíblico, não começou neste Sínodo.

     3) Mas vamos mais fundo no assunto. Com honestidade devemos perguntar: que lição sobre as Escrituras Santas pode dar à própria Igreja de Cristo, guardiã dessas Escrituras, quem não crê em Cristo?

     Deixo colocada a pergunta com toda a sua força expressiva, pois a resposta se encontra nas mesmas Escrituras, cuja interpretação autêntica foi entregue à Igreja e não à incredulidade: nos Evangelhos (Mt. 8, 1-12; 21, 33-46; Lc. 2, 34; 21, 24; Jo. 8, 21-24 e 33-59; 10, 24-33; 11, 48-50; 12, 37-50), nos Atos dos Apóstolos (Act. 13, 44-52), nas cartas paulinas (Rom. 2, 3, 9, 11; Ef. 2; 1 Tes. 2, 15 e 16; Gal. 3, 26 e 4, 28) e no Apocalipse (2, 8-10). Os textos que cito não são exaustivos, mas têm a vantagem de haver sido comentados no mesmo sentido pelos Santos Padres e Doutores da Igreja através dos séculos.

     Nosso Senhor lamenta a recusa em relação a sua divina Pessoa, por grande parte dos chefes religiosos do povo judeu ao longo da história, com estas comovedoras palavras: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como a galhinha reúne os seus pintainhos debaixo das asas, e não quisestes! Vossa casa ficará deserta, porque na verdade vos digo que não me vereis mais até que digais: Bendito aquele que vem em nome do Senhor” (Mt. 23, 37-39).

     E o apóstolo São João, o discípulo amado, adverte: “Quem é mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o Anticristo, que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho não tem o Pai. Todo aquele que proclama o Filho tem também o Pai.” (I Jo 2, 22-23).

     O ecumenismo conciliar foi longe demais...

     4) Quem ama o dom da fé cristã não pode confraternizar com as demais religiões como se fosse assunto de opinião subjetiva. Somos, suponho, membros do corpo místico de Cristo, não discípulos de filosofias como as de Spinoza ou Locke, pregoeiros da máxima de que “todas as religiões são iguais” (ainda que este último apresente restrições) adotada pela atual democracia liberal. Na prática, a filosofia liberal — e seu filho religioso, o chamado “ecumenismo” — vem minando o catolicismo desde o Concílio Vaticano II. Seus frutos são evidentes, ainda que não se reconheça sua paternidade.  

     De fato, no Sínodo que comentamos, depois que o rabino falou, o relator geral da assembléia, Cardeal Marc Ouellet, iniciou os trabalhos, destacando que apesar da renovação de que foi objeto a homilia no Concílio (sic), a qualidade das homilias nas missas atuais é tão preocupante que vem provocando o abandono do fiéis da Igreja católica em diversas partes do mundo.   

     Por sua vez, o Cardeal Philippe Barbarin, Arcebispo de Lyon, acrescentou que partes importantes das Escrituras são silenciadas para não entrar em conflito com o ambiente dominante dentro da Igreja.  


O cristão não pode se envergonhar de Cristo diante dos judeus

       Nenhum diálogo com a religião judaica pode justificar que um de seus representantes compareça a um Sínodo da Igreja fundada por Jesus Cristo para nos dar lições sobre as Escrituras. As ânsias ecumênicas pós-conciliares foram longe demais, até provocarem a implosão das muralhas sacrossantas de nossa Igreja. É a luz da fé, o “lumen fidei” — que temos que amar mais do que o nosso bolso, o Evangelho nos diz que devemos amar mais do que nossa própria vida — o que está sendo continuamente prejudicado e diminuído.  

     Não, Sr. Rabino Cohen. Saiba que apesar de ter sido convidado para um Sínodo de nossa Igreja por suas mais altas autoridades, ainda há católicos que lhe dizem de maneira clara e categórica, na linguagem não transacional da Fé: não há meio-termo entre confessar e negar que Jesus é o Filho de Deus, que morreu na Cruz por nossos pecados, diante de quem devem os joelhos se dobrar. "Se nesta geração adúltera e pecadora alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os seus santos anjos” (Mc, 8, 38).

     Lamentamos que, na prática, apesar de algumas louváveis declarações anti-relativistas do atual Pontífice, na prática ele tenha esquecido Leão XIII, que, na encíclica Immortale Dei, estabeleceu o dever social de prestar a Deus o culto da verdadeira religião.[3] Também foram esquecidas as palavras de Pio XI, que em Quas Primas [4] proclamou a realeza de Cristo sobre a criação, em particular sobre as sociedades humanas. Digo "na prática", porque não há dúvida de que a Igreja está sendo hoje demolida não só por seus adversários externos, mas também e principalmente pela ação de muitos de seus próprios pastores.

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     NOTAS

     [1] Tora: o Pentateuco, que reúne os cinco livros do Antigo Testamento escritos por Moisés.

     [2] Talmude: é um registro escrito das discussões rabínicas que surgiu após a diáspora, sobre o Antigo Testamento, os costumes, a ética e a história do judaísmo.

    [3] ASS 18 (1885-2886), nº 3 e 17, pp.163-164 e 174.

    [4] AAS 17 (1925), n. 8 e 20, p. 601 e 609.

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     * Julio Alvear Téllez, Editor do blog La Reacción Católica.

     — Tradução para o português: André F. Falleiro Garcia.

     — English version: A Rabbi Who Rejects Christ Lectures the Church of Christ    

 

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