O SÍNODO ECUMÊNICO SEM PRECEDENTES DE BENTO XVI *

 

John Vennari

 

Bento XVI abriu o Sínodo na basílica São Paulo Extramuros

     O Sínodo, centrado nas Escrituras, é intitulado “A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”. Foi aberto em 5 de outubro, com término previsto para 26 de outubro. É considerado um dos maiores eventos do Ano Paulino.

     Será o primeiro Sínodo não realizado no Vaticano, mas na basílica São Paulo Extramuros, para enfatizar, sem dúvida, o aspecto ecumênico. De fato, São Paulo Extramuros tornou-se uma “basílica ecumênica” devido à recente história de marcantes eventos ecumênicos ali realizados.

Basílica São Paulo Extramuros

     Foi em São Paulo Extramuros que o Papa João XXIII primeiro anunciou o Concílio Vaticano II em 1959. Na mesma basílica, Paulo VI, em 4 de dezembro de 1965, celebrou uma “Liturgia da Palavra” especial, para os protestantes que participaram do Concílio como observadores.

     No mesmo local João Paulo II anunciou seus planos para o encontro inter-religioso de Assis, realizado em 1986. E onde também o mesmo Papa abriu a Porta Santa em 2000, para o Ano Santo do novo milênio, juntamente com o Patriarca cismático de Constantinopla e o Arcebispo anglicano de Cantuária.    

     Em São Paulo Extramuros todos os anos é realizada a liturgia de encerramento da Semana de Orações para a Unidade dos Cristãos, um antigo evento católico que se tornou ecumênico desde o Vaticano II, agora realizado em conjunto com o Conselho Mundial das Igrejas.   


O Sínodo reúne 52 cardeais e mais de 250 bispos

     O primeiro Motu Proprio de Bento XVI, a respeito da estrutura canônica de São Paulo Extramuros, foi promulgado em 31 de maio de 2005. Neste documento, o Papa celebrou a memória da Basílica enquanto lugar de acontecimentos ecumênicos e estimulou mais iniciativas nessa linha para o futuro.

     Em 21 de janeiro deste ano, o Serviço de Informações do Vaticano confirmou que, como parte das comemorações do Ano Paulino, São Paulo Extramuros abriria uma capela ecumênica onde membros de várias seitas não católicas poderiam realizar seus atos litúrgicos.[1]

     Ao anunciar o Ano Paulino, Bento XVI afirmou em 28 de junho de 2007 que as celebrações seriam caracterizadas por uma “dimensão ecumênica”.[2] O Sínodo de Outubro comprova essas suas palavras e sua conexão com as inovações adotadas no Concílio Vaticano II.


Ao lado de Bento XVI, o Patriarca cismático, que no Sínodo fará uma preleção aos presentes

     Em 18 de outubro, fazendo parte da programação do Sínodo, o Papa Bento XVI e o Patriarca cismático Bartolomeu I presidirão o canto das Vésperas. Cada um fará uma preleção a respeito das Escrituras, com uma especial referência ao Ano Paulino.

     Será a primeira vez que um Patriarca cismático discursa em um Sínodo católico. O Arcebispo Nikola Eterovic, secretário geral do Sínodo dos Bispos, explicou que "o Patriarca trará as saudações das Igrejas Ortodoxas a quem foi o  Apóstolo das Nações antes de ir a Roma onde sofreu o martírio”.

     O Sínodo também recepcionará outros membros da Igreja Ortodoxa cismática, como também membros de várias seitas protestantes. Informa a agência Asia News que “representantes do Patriarcado de Constantinopla estarão presentes juntamente com outros dos Patriarcados de Moscou, Sérvia e Romênia, da Igreja Ortodoxa da Grécia e da Igreja Apostólica da Armênia, como também da Comunhão Anglicana, da Federação Mundial Luterana, da Igreja dos Discípulos de Cristo e do Conselho Mundial das Igrejas”.[3]     


O rabino Cohen discursa durante o Sínodo: os judeus "não podem esquecer nem perdoar" que Pio XII não os tenha ajudado

     Num ato ecumênico inédito, um rabino fez uma preleção no Sínodo. Em 6 de outubro, o Rabino Chefe de Haifa (Israel), Shear Yashuv Cohen, perante a assembléia mostrou como o povo judeu lê e interpreta a Sagrada Escritura – uma leitura do Antigo Testamento sem relação com Jesus Cristo. Entretanto, Asia News comemorou: “Será a primeira vez que um rabino, um não cristão, discursa perante o Sínodo dos Bispos”.


Após proferir seus insultos, Cohen foi cumprimentado por Bento XVI

     Estarão presentes no Sínodo outros convidados especiais, como o Rev. A. Miller Milloy, secretário geral das Sociedades Bíblicas Unidas, e o Irmão Alois, prior da Comunidade de Taizé. O Sínodo terá uma dimensão ecumênica sem precedentes. 

     S. Maximilian Kolbe descreveu corretamente o ecumenismo como o inimigo de Nossa Senhora. Disse que “Não há maior inimigo da Imaculada e de sua Milícia que o ecumenismo atual, contra o qual todo Cavaleiro de sua Milícia deve não apenas lutar, mas também neutralizar através de ações diametralmente opostas, para finalmente destruí-lo”.[4]

     Nosso Senhor deu aos Apóstolos a missão de “ir e ensinar a todas as nações”, para trazer todos os povos para a única e verdadeira Igreja que ele fundou. O ecumenismo é o oposto disso. Como o eminente teólogo Pe. Edward Hanahoe lamentou, hoje o ecumenismo obtém como resultado “perpetuar o estado de separação, servindo muito mais para conservar as pessoas fora da Igreja do que para trazê-las para ela”.[5]

     É um ensinamento imodificável da Igreja. Ela ensina que qualquer contato com membros das falsas religiões só pode ter um único propósito: converter os não católicos para a Igreja Católica, fora da qual não há salvação. Este foi o claro ensinamento que Pio XII em 1949 deixou contido na Instrução sobre o Movimento Ecumênico, doutrina que é conforme com o perene Magistério multissecular da Igreja. Nesse documento, Pio XII asseverou que “A verdadeira união só pode resultar do retorno dos dissidentes para a única verdadeira Igreja de Cristo”. No entanto, a mistura heterogênea de falsas religiões que será visível no Sínodo representa um ecumenismo que também o Papa Pio XI condenou como uma falsa unidade “completamente oposta à única Igreja de Cristo”.[6]

     Bento XVI afirma estar agindo de acordo com a “hermenêutica da continuidade” que sustenta que o Vaticano II não constitui uma ruptura com o passado. Ao mesmo tempo, ele toma iniciativas sem precedentes que não têm continuidade com nada na história da Igreja, e que foram condenadas por todos os Papas anteriores ao Concílio Vaticano II. Lamentavelmente, essa nova “hermenêutica da continuidade” somente favorece aqueles que estão a ponto de abandonar o princípio da não-contradição.[7]

     Como eu afirmei anteriormente em outro artigo, essa “hermenêutica da continuidade” de Bento XVI pouco tem a ver com o restabelecimento da Tradição. Não passa de uma tentativa fracassada de uma “nova síntese” entre vários aspectos da Tradição católica e o liberalismo do Vaticano II. O principal propósito dele, a meu ver, não é o de resgatar a Tradição, mas o de salvar o Vaticano II, esse desastroso Concílio através do qual ele construiu toda a sua carreira eclesiástica.[8]

     De fato, a inteira noção de um “Sínodo de Bispos” é uma aplicação direta da doutrina da colegialidade do Concílio Vaticano II. Nunca antes na história da Igreja vimos bispos do mundo inteiro reunidos a cada dois ou três anos em Roma, por um mês, para discutir exaustivamente determinado tema. Os Sínodos foram convocados em raras ocasiões, mas agora eles fazem parte de uma permanente estrutura “colegial” da Igreja. E o que é mais importante, eles têm sido utilizados para impulsionar a implementação do Vaticano II no mundo.[9]

     O atual Sínodo representa um avanço da revolução conciliar. Agora, rabinos e patriarcas cismáticos prelecionam para os bispos. Vários não-católicos foram convidados para participarem dele. Seus aspectos ecumênicos garantem a perpetuação do ecumenismo liberal dentro da Igreja, em detrimento da Tradição. Incentiva bispos diocesanos a patrocinarem aventuras semelhantes, como conferências conjuntas sobre temas religiosos com cismáticos, protestantes e rabinos. Católicos preocupados que se queixem dessas atividades serão rejeitados pelos tribunais eclesiásticos. O bispo justificará suas ações com o pretexto de que ele apenas seguiu as diretrizes do “conservador” Papa Bento XVI.

     É um escândalo! Simplesmente não há outra palavra! Devemos nos admirar que o mundo pareça estar caindo aos pedaços? Por que Deus parece estar retirando suas graças? O que podemos esperar quando líderes católicos tomam iniciativas públicas que sempre foram corretamente denunciadas como graves pecados contra o Primeiro Mandamento?


O Cardeal Mercier apontou qual foi a causa mais profunda da I Guerra Mundial

      Em 1918, o Cardeal Mercier, belga, escreveu uma carta pastoral intitulada "A Lição dos Acontecimentos", na qual ele disse que a I Guerra Mundial, mais do que qualquer outra coisa, foi um castigo para os estados e governos que colocaram a verdadeira Igreja de Jesus no mesmo nível dos falsos credos.

     Disse ele: “Em nome do Evangelho, e à luz das Encíclicas dos quatro últimos Papas, Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII e Pio X, eu não hesito em afirmar que essa indiferença diante da religião, que coloca no mesmo nível a religião de origem divina com as religiões inventadas pelo homem para incluí-las no mesmo ceticismo, é a blasfêmia que atrai o castigo para a sociedade, mais do que os pecados individuais e familiares”.[10]

     O Cardeal Mercier ressaltou que a I Guerra Mundial foi o castigo para os governos que colocaram no mesmo nível as falsas religiões com o catolicismo. Não é muito pior que isso seja feito por autoridades eclesiásticas que efetivamente concedem legitimidade para as falsas religiões dentro das paredes da segunda maior basílica romana, só superada pela Basílica de São Pedro?     

     Tudo isso é mais do que suficiente para se dizer “basta”! Os católicos afligidos devem robustecer a sua resistência a esse erro, corretamente condenado por S. Maximilian Kolbe como “inimigo da Imaculada”. O ecumenismo atual é a manifestação do modernismo e do indiferentismo religioso. É um erro central do catolicismo liberal. Não há desculpa para o católico que o defenda ou que de alguma maneira dele participe.

     _________

 

     NOTAS:

 

    [1] Para documentação sobre tudo o que foi dito a respeito de São Paulo Extramuros, ver “Ecumenical Chapel at St. Paul Outside-the-Walls”, fev. 2008, Catholic Family News. Online at: www.cfnews.org/EcuChapel.htm. 

    [2] “The Holy Father Proclaims a Year Dedicated to St. Paul”, Vatican Information Service, June 28, 2007. 

    [3] “Synod: 253 Bishops from around the World but none from China,” Asia News, October 3, 2008.

    [4] Entry of Diary dated April 23, 1933. Cited from Fr. Karl Stehlin, The Immaculata Our Ideal (Warsaw: Te Deum, 2005), p.37.

    [5] One Fold: Essays and Documents to Commemorate the Golden Jubilee of the Chair of Unity Octave, 1908-1958, ed. by Edward F. Hanahoe and Titus F. Cranny (Graymoor: Chair of Unity Apostolate, 1959), p. 121.

    [6] Mortalium Animos, Papa Pio XI, 1928.

    [7] Princípio da não contradição: uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista.

    [8] Isto é largamente discutido em “A Key to Benedict XVI: The Oath Against Modernism vs. the Hermeneutic of Continuity.”. Ver www.cfnews.org/Herm.htm.

    [9] É o que ouvi, definido por Pe. Kenneth Boyak, que trabalhou com a USCCB (United States Conference of Catholics Bishops). Eu abordo mais profundamente a noção do Sínodo e sua relação com o Vaticano II em “Catholicism Dissolved, the New Evangelization”, uma série de quatro artigos publicada em CFN, outubro/1988 até janeiro/1999. Para informações, contate cfnjv@localnet.com 

    [10] Citação tirada de The Kingship of Christ and Organised Naturalism pelo Padre Denis Fahey (Regina Publications, June, 1943), p.36. Notas de rodapé tal como foram citadas na Carta Pastoral do Cardeal Mercier, 1918, The Lesson of Events (ênfase minha). Ver também "The Schismatic Orthodox and Conversion" [ www.cfnews.org/Ortho-convert.htm] que inclui o ensinamento de S. Pio X sobre a necessidade dos “ortodoxos” se converterem para se salvarem.

 

     _________

 

     * Benedict’s Unprecedented Ecumenical Synod

 

     Tradução: André F. Falleiro Garcia    

 

     _________

 

     Artigos relacionados com a crise e autodemolição da Igreja:

 

_________