CONVIVENDO COM O ABISMO

 

Jorge Zamora E. *

 

     Quando observei pela primeira vez esta fotografia, senti uma impressão fortíssima. Foi tomada no piso 69 do Rockefeller Center, em 1932, por Charles C. Ebbets, e se intitula "Almoço no topo de um arranha-céu".

"Almoço no topo de um arranha-céu"

     O que primeiro impressiona é a sensação de altura, quase 70 andares! Chama a atenção a exposição desses homens a um perigo fatal: um movimento em falso, uma rajada de vento, uma pequena distração e enfrentarão inevitavelmente a morte.

     Mas estão muito tranqüilos. Parecem haver perdido a noção do alto risco. A cena desafia o bom senso ao apresentar um binômio bizarro: sumo perigo, suma despreocupação.

     De fato, não parecem estar preocupados com a situação de extremo perigo em que estão. Mais ainda, tudo parece transcorrer normalmente, é como um dia a mais na vida de cada um deles. Um, acende o cigarro ao companheiro; outro, conversa com o amigo ao seu lado e até gira o tronco para poderem conversar com mais comodidade. Outro deles lê um jornal. Distensão, relaxamento, normalidade, calma. Quase todos conversam, todos desfrutam o horário de almoço com tranqüilidade e amenidade... à borda do precipício.

     Ninguém pode negar que esse grupo de operários se acostumou a viver à beira do abismo, a observar o perigo de morte e a tragédia sem ter a reação natural do instinto de conservação. Sorrindo, lendo, fumando. Vivem sobre uma linha tênue que divide o terreno das possibilidades hipotéticas mais atrozes e a realidade docemente plácida... à beira do precipício.

     As eleições e a opinião pública norte-americana

     Essa fotografia do grupo de trabalhadores na construção do Rockefeller Center reflete a mentalidade otimista muito difundida nos Estados Unidos e demais nações ocidentais.

     Explico-me. Os Estados Unidos acabam de eleger seu presidente, o responsável pela condução dos destinos do país. Mas fizeram isso sem ter uma clara noção de quem é realmente Barack Hussein Obama. E sem saber o que opinar a respeito dos grandes temas éticos, que são os que em definitivo traçam, como numa tela, o perfil moral da nação.

     Ninguém, em última análise, sabe dizer com certeza qual é o conteúdo real de seu pensamento político mais profundo e o que alimenta as suas convicções pessoais mais íntimas.

     O que sabemos sobre o presidente-eleito

     "A primeira coisa que farei como presidente será firmar o Ato de Livre Escolha" (Freedom of Choice Act), disse Obama em seu discurso em julho de 2007 perante os advogados pró-abortistas que se manifestavam preocupados com o aumento da legislação estadual pró-vida [1]. A legislação do Ato de Livre Escolha é apoiada por Obama e por outros 18 senadores que procuram impor essa terrível legislação criminosa e antinatural nos Estados Unidos. Esta legislação prevê sanções legais cíveis e penais contra aqueles que se oponham à demoníaca prática do aborto em qualquer estado do país.


Obama: "A primeira coisa que farei..."

     Apesar disso, Obama apoiou, a partir de 2005, políticas e iniciativas que sob o rótulo do "direito de escolher" promovem práticas de educação sexual (conceito moderno usado para inculcar a sexualidade sem as normas morais católicas para os jovens) e de planificação familiar (incentivo ao uso de anticoncepcionais, de "pílulas do dia seguinte", do aborto etc.).[2]

     As esperanças dos otimistas que previam uma agenda política centrista se esfumaçaram. A recente nomeação de Rham Emanuel como Chefe de Gabinete é apenas um sinal das "mudanças" que virão para a política governamental norte-americana. De fato, esse político congressista, de Illinois, é conhecido por sempre haver votado a favor do aborto em todas as suas formas (como Obama),[3] e sempre manifestado uma postural radical e intransigente nessa matéria. Tais antecedentes pressagiam apenas tragédia para os "Santos Inocentes" abortados que morrerão nas mãos do novo governo "democrático" norte-americano.

     Se Obama cumprir a sua promessa de campanha ("A primeira coisa que farei como presidente será firmar o Ato de Livre Escolha"), a unidade nacional em torno do presidente-eleito se romperá imediatamente. O que acontecerá então com os otimistas?

     O que a Conferência Episcopal norte-americana (USCCB) não disse

     A justiça manda reconhecer que um grupo de bispos norte-americanos, fiéis a sua vocação e atuando à altura dos acontecimentos, apontou para os católicos a posição que deveriam tomar, nas recentes eleições, frente ao drama do aborto.[4]

     Isto posto, e dada a gravidade do assunto, é preciso ir ao ponto mais importante: o que disse a esse respeito a Conferência Episcopal norte-americana? Como alertou os católicos sobre o perigo de uma eleição que poderia levar ao poder tal grupo de candidatos abortistas radicais?


Congratulações enviadas pelo Cardeal Francis George

     "É uma volta a 1932", disse o Cardeal Francis George, de Chicago, Presidente da USCCB, referindo-se à eleição na qual o candidato democrata Franklin D. Roosevelt venceu por maioria esmagadora o Presidente republicano Herbert Hoover, depois da quebra da Bolsa de 1929, o que contribuiu para a Grande Depressão. "Os eleitores americanos deram uma guinada para outro partido".[5] Nem uma palavra sobre o que verdadeiramente estava em jogo!

     Por fim, encontrei uma carta de felicitação, datada de 5 de novembro, que reproduzo na íntegra, extraída do site oficial da USCCB:

     Estimado presidente-eleito Obama,

     Dirijo-me a vós na qualidade de presidente da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos, para expressar nossos cumprimentos por sua histórica eleição como Presidente dos Estados Unidos da América. O povo de nosso país confiou-lhe uma grande responsabilidade. Como bispos católicos, nós lhe oferecemos nossas orações, para que Deus lhe dê fortaleza e sabedoria diante dos futuros desafios.

     Nosso país enfrenta numerosas incertezas. Rezamos para que use o poder que o seu ofício lhe confere para enfrentá-las, tendo a preocupação de defender especialmente os mais vulneráveis entre nós, e superar as divisões em nosso país e no mundo. Estamos prontos para colaborar convosco na defesa e apoio da vida e da dignidade de cada pessoa humana.

     Que Deus vos abençoe e ao vice-presidente-eleito Biden, agora que se preparam para assumir suas respectivas responsabilidades ao serviço de nosso país e de seus cidadãos.

     Atenciosamente,

     Francis Cardeal George, OMI

     Arcebispo de Chicago

     Presidente

          Perplexo, não encontrei nada que pudesse se equiparar a uma exortação apostólica ou a um apelo a não assassinar as inocentes criaturas que morrerão (e que estão morrendo enquanto este artigo está sendo lido) em clínicas abortistas. Somente um débil "Estamos prontos para colaborar convosco na defesa e apoio da vida e da dignidade de cada pessoa humana", argumento tímido e ambíguo que afasta a possibilidade de uma incompatibilidade entre o ensinamento da Igreja e o candidato que adota a ideologia abortista.

     O resultado do silêncio da USCCB

     Revisemos os dados do centro independente de investigação, "Pew Forum on Religious an Public Life"[6]: 54% dos católicos votaram em um candidato de ideologia anticatólica. O apoio dos católicos foi maior para o candidato democrata Obama do que para Kerry ou Gore no passado.

     O que teria se passado se a máxima autoridade religiosa para o mundo católico, a USCCB, tivesse guiado o rebanho nessa matéria? Certamente o resultado teria sido diverso.


O apoio católico fez a diferença e elegeu Obama

     Só depois das eleições, consumado o trágico absurdo de um candidato abortista apoiado pelos católicos, a USCCB saiu a público para resgatar seu prestígio moral que se desvanecia por causa de sua inexplicável omissão. A USCCB se referiu à unidade nacional como "impossível" se o novo governo pressionar com políticas abortistas. É tão oportuno como alertar a polícia por um assalto que um grupo de delinqüentes planejou... uma semana depois de realizado o crime![7]

     As palavras do Papa Pio XI, verdadeiras hoje e sempre

     "O primeiro e mais óbvio dom de amor do sacerdote ao mundo, é servir-lhe a verdade, a verdade toda inteira; desmascarar e refutar o erro, qualquer que seja a sua forma ou seu disfarce. A renúncia a isto seria não apenas uma traição a Deus e à vossa santa vocação, mas também um delito no que se refere ao verdadeiro bem-estar de vosso povo e de vossa pátria." (Encíclica Mit Brenender Sorge, 14 de março de 1937, § 36)

     As desconcertantes declarações papais

     Diante do claro ensinamento de Pio XI, é difícil compreender as declarações de Sua Santidade Bento XVI a respeito da eleição norte-americana. Se a primeira coisa que fará Obama será fortalecer a agenda abortista, e nesse sentido já nomeou a um conhecido congressista pró-aborto como Chefe de Gabinete, que podemos pensar a propósito das palavras de congratulações enviadas por Bento XVI a Obama?

Calorosas felicitações de Bento XVI

     A mídia informou que o Papa Bento XVI enviou um telegrama ao presidente-eleito Barack Obama em 5 de novembro, cumprimentando-o e oferecendo suas orações para ajudá-lo em suas grandes responsabilidades, pedindo que ele se comprometa na tarefa de "construir um mundo de paz, solidariedade e justiça".[8]

     Surpreso, apenas consigo perguntar: que espécie de "paz, solidariedade e justiça" podem ser encontradas numa agenda pró-abortista?

     As declarações do Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Fr. Frederico Lombardi, aumentaram minha surpresa: "O cargo de Presidente dos Estados Unidos é da maior e mais alta responsabilidade, não apenas perante o seu país, mas também diante do mundo, dado o peso que têm os Estados Unidos em todos os campos no panorama mundial. (...) Os fiéis rezam para que Deus o ilumine e o assista em sua enorme responsabilidade".[9]

     À vista dessas declarações, fica claro que essa é a posição oficial do Vaticano a respeito da eleição de um candidato profundamente comprometido com a causa do aborto nos Estados Unidos. Oh dor!

     A omissão do Vaticano sobre matérias tão importantes é desconcertante. Máxime quando sabemos que Sua Santidade ataca o relativismo moral, mas ao mesmo tempo, mediante o seu silêncio, permite o avanço do aborto.

     Otimismo à beira do abismo

     Como na primeira foto deste artigo, os otimistas que apoiaram Obama (diretamente ou por omissão) conduziram a nação à borda do abismo, se considerarmos que a degradação moral mais radical está a um passo de ser legalizada. Com toda a naturalidade começaram a conviver com a catástrofe, como aqueles operários no Rockefeller Center.

     O povo norte-americano fez uma aposta imprudente: apostou num desconhecido, esquerdista e abortista,[10] com o silêncio cúmplice da alta hierarquia eclesiástica norte-americana e com a não-condenação e posteriores felicitações da parte do Vaticano. Os otimistas norte-americanos — e de outras nações ocidentais — parecem estar, como na fotografia do arranha-céu, desfrutando o horário do lanche e descanso. Talvez caiam, talvez não...

     Diante desse cenário, podem ser feitas as seguintes perguntas: para que extremos de depravação moral pode cair a sociedade norte-americana se for conduzida pelo pérfido programa anunciado por Obama? Que responsabilidade terá então a USCCB, pelo seu silêncio desconcertante, seguido das congratulações ao recém-eleito presidente?

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     NOTAS:

     1 — Life Site News:

http://www.lifesitenews.com/ldn/2008/jun/08061010.html 

     2 - Pro Choice America:

http://www.prochoiceamerica.org/assets/files/obama_or_mccain.pdf

     3 - Life Site News, ibidem.

     4 - Human Life International, http://www.hli.org/sl_2008-10-31.html

     5 - http://www.usccb.org/advent/index2w.shtml

Site oficial da USCCB. Procurar “elections”. Questions at bishops' press conference focus on U.S. election results.

     6 -  http://pewforum.org/docs/?DocID=367

     7 - Ibidem.

     8 - ACI PRENSA http://www.aciprensa.com/noticia.php?n=23308

     9 - http://www.radiovaticana.org/spa/Articolo.asp?c=242652

     10 - Desde 2005 Obama votou em 13 ocasiões a favor do aborto e dos supostos "direitos" reprodutivos, segundo informa a fundação pró-abortista NARAL:

http://www.prochoiceamerica.org/assets/files/obama-fact-sheet.pdf

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     Publicação original em castelhano: http://www.elcruzado.org/

     * Editor do site El Cruzado

    Tradução para o português: André F. Falleiro Garcia 

 

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