A "SÍNDROME DO POBRE PAPA BENTO"

 

Marian T. Horvat, Ph. D. *     

 

As reclamações judaicas feitas na Terra Santa foram uma cortina de fumaça para desviar a atenção dos católicos em relação às atitudes ecumênicas chocantes e escandalosas do Papa Bento XVI

 

     Surpreendi-me ao saber que minha amiga Jan foi afetada pela síndrome do “Pobre Papa Bento”, que está atingindo alguns círculos católicos depois da recente visita papal à Terra Santa.

     “Não foi terrível a forma como o Santo Padre foi incomodado por dizer que ‘milhões de judeus’ foram assassinados, em vez de ‘seis milhões de judeus’, quando visitou Yad Vashem?”, perguntou-me Jan. “E você viu como foi censurado por não pedir desculpas na oração que depositou no Muro das Lamentações? E depois os rabinos judeus ficaram furiosos porque não mencionou os nazistas, e não pediu perdão por sua participação em um grupo juvenil nazista”.


Bento prestou homenagem aos judeus no Yad Vashem, o memorial do Holocausto

     Minha cara Jan, não se deixe enganar! Esta cortina de fumaça de acusações judaicas é para desviar a atenção das verdadeiras razões pelas quais os católicos devem ficar surpresos e escandalizados pelas ações do Papa Bento. Quem deve ser responsabilizado não são principalmente os judeus ou os meios de comunicação, mas o próprio Bento XVI.

     De fato, a homenagem que voluntariamente prestou aos judeus no monumento judaico, foi mais chocante para os católicos do que possa ter sido qualquer suposto erro aritmético para os judeus.

     Para um Papa, o ter rezado nos restos do Templo judaico foi em si mesmo uma grave ofensa a Deus.

     Com efeito, Bento realizou o mesmo tipo de ações – e muito mais – que as que João Paulo II fez em 2000 na sua viagem à Terra Santa. Do mesmo modo que João Paulo II, entrou em lugares de falso culto e elogiou religiões falsas, pregando uma unidade maçônica entre as religiões em lugar do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

     A recente “peregrinação pela paz” de Bento se baseou na mesma falsa premissa da unidade: que as três religiões monoteístas que pretendem adorar o mesmo Deus são legítimas e constituem meios para alcançar a salvação. Em toda a parte, suas ações enviaram aos católicos a errônea mensagem de que não há necessidade de que os judeus, os muçulmanos ou os cismáticos se convertam à única e verdadeira Fé. Eles só necessitariam unir-se em torno de objetivos humanitários, sem mencionar Nosso Senhor Jesus Cristo.

     Em todos os lugares o Papa cantou a canção de uma religião mundial, na qual as diferenças doutrinais seriam deixadas de lado para que as pessoas de diferentes credos possam “viver juntos em profundo respeito, estima e apreço”. [1]

     Ações verdadeiramente chocantes

 

Papas conciliares prestam homenagem aos judeus onde Deus puniu-os pela morte de Jesus Cristo

         Não é preciso procurar muito para encontrar exemplos de ações verdadeiramente chocantes de Bento XVI na Terra Santa, Jan. Posso lhe apresentar alguns deles.

     Deve ser deplorável para os católicos ouvir o Papa referir-se à Mesquita de Al-Hussein como “esplêndida” – “uma jóia que se destaca em toda a superfície da terra”. Ele está falando de um falso lugar de adoração no qual Nosso Senhor é rejeitado e injuriado e o falso deus de Maomé é adorado. Nos tempos da Cristandade, os papas promoviam expedições para retomar aquelas construções e novamente consagrá-las ao Deus verdadeiro.

     Não deveriam os católicos ficar chocados ao ver o Sumo Pontífice tirando seus sapatos para entrar na Cúpula da Rocha e mostrar profundo respeito pela religião muçulmana, chamando a mesquita de “lugar sagrado”?

      Não deveriam sentir-se ofendidos já que o Vigário de Cristo fez uma oração sem nenhuma referência a Nosso Senhor Jesus  depositando-a no Muro das Lamentações?

 

     Estou pasmo por ver que os católicos mais tradicionais não sentiram repulsa pela nauseante cena que ocorreu dentro da Basílica da Anunciação em Nazaré, quando, ao final de um encontro inter-religioso, Bento XVI jubilosamente juntou suas mãos com a de um rabino e de um líder religioso druso e cantou “Shalom, Shalom”.[2]

Bento une as mãos com um rabino e um druso para pedir uma paz sem Cristo

     Qualquer destas ações deveria ter sido suficiente para provocar a indignação de católicos fiéis à Tradição e ao Magistério perene da Igreja. Mas despertaram poucas críticas. Ao contrário, em uma notável virada nos acontecimentos, estamos vendo católicos tradicionalistas, manipulados pelo progressismo, fabricarem desculpas para Bento XVI.

     Muitos tradicionalistas, que viram claramente que as ações de João Paulo II na Terra Santa se opunham ao ensino perene da Igreja Católica, estão agora obnubilados pela cortina de fumaça dessas falsas acusações judaicas. Repentinamente perderam sua visão e não conseguem ver que Bento XVI repete as mesmas ações de seu predecessor, leva adiante a mesma mensagem inter-religiosa, deixa de lado Nosso Senhor Jesus Cristo, e implicitamente afirma que não é necessária a conversão à Fé Católica para alcançar a salvação eterna. Só me resta esperar que o efeito dessa cortina de fumaça não seja de longa duração.

     Destruindo o caráter missionário e militante da Igreja

     Na Declaração de Resistência que tive a honra de ser um dos signatários no ano 2000, nos opomos precisamente ao ecumenismo conciliar e ao diálogo inter-religioso que negam a unidade e a integridade da Fé Católica. Para ilustrar o objetável comportamento de João Paulo II, publicamos suas fotos inserindo uma oração no Muro das Lamentações e recebendo rabinos e muftis, cenas recentemente repetidas por seu sucessor.

     Nas páginas 22-24 do livro We Resist You to the Face, no qual publicamos a supracitada Declaração (que sugiro que você leia, Jan), demonstramos as graves conseqüências do ecumenismo conciliar e do diálogo. Permita-me fazer uma breve rememoração, Jan, para que você compreenda que nossas objeções não são arbitrárias ou baseadas em alguma animosidade pessoal.

     O que João Paulo II e Bento XVI promoveram em sua visita à Terra Santa foi o pluralismo teológico, uma noção segundo a qual não existe apenas uma Fé, uma única Revelação e uma interpretação dela como a Igreja Católica sempre ensinou. Suas ações implicam em que judeus e muçulmanos também poder ter suas próprias “revelações” e legítimas interpretações. Esta noção nega a unidade da Fé Católica e a própria integridade da Igreja.


O rabino Yona Metzger revelou a decisão de Bento de que os católicos devem cessar as missões para converter judeus

     Esta prática do ecumenismo também destrói o caráter militante da Igreja Católica. O pressuposto do ecumenismo é que o mal e o erro não existem mais. E que ninguém mais é realmente mal-intencionado. Os progressistas afirmam que tão logo sejam os vários pontos de vista bem explanados, as diferenças podem ser resolvidas. Isto equivale a dizer que não há mais inimigos da Igreja e que já não é necessário lutar em sua defesa. Na Terra Santa, as palavras e ações de Bento XVI não só negaram o glorioso passado militante da Igreja, como também indicaram que a Igreja militante morreu.

     O caráter missionário da Igreja tampouco teria razão de existir. Já não é necessário converter os cismáticos, hereges, pagãos e judeus. De fato, vimos Bento XVI ouvir cortesmente como o Grão Rabino Yona Metzger, atrevidamente, lhe agradeceu por encerrar a atividade missionária da Igreja com os judeus. O Papa confirmou com seu silêncio que as palavras do rabino eram verdadeiras.

     Ao invés de buscar a conversão, a Igreja Conciliar encarrega-se de unificar as várias confissões religiosas, adulterando a verdadeira característica missionária apostólica da Igreja. Por essa razão, os católicos que percebem a renúncia das características militantes e missionárias da Igreja, têm o dever de resistir a essas ações que se opõem ao Magistério perene. Este foi o pressuposto da Declaração de Resistência – que foi válida com relação às ações de João Paulo II, mas também se aplica às de Bento XVI.

     Se desejos fossem cavalos...

     Ao dar as boas-vindas a Bento XVI como um “peregrino da paz”, o príncipe da Jordânia Gazhi bin Talal elogiou-o por fazer do “diálogo inter-religioso e intra-religioso uma das prioridades de seu pontificado”.[3] É difícil entender por que alguns católicos tradicionalistas não podem ver o que inclusive um muçulmano reconhece claramente – que Bento está continuando e inclusive ampliando o falso ecumenismo de seus predecessores.

     Por que os tradicionalistas detestam admitir que o atual Pontífice prossegue a política progressista de seu predecessor? Por causa de certas permissões que ele concedeu para a celebração da missa tridentina e o “levantamento das excomunhões” dos bispos da SSPX, alguns o consideram como um Papa perseguido e manipulado pelos progressistas do Vaticano. Diga o que você quiser sobre Bento, mas não pretenda que ele seja uma marionete. Ele leva à frente a revolução progressista porque está comprometido com ela.

     Ele mesmo declarou seu pleno compromisso com as reformas do Concílio Vaticano II imediatamente após ser elevado ao Papado.[4] E repetiu-o muitas vezes desde então. De fato, afirmou de forma inequívoca aos rabinos em seu primeiro dia em Israel, na sede do Grande Rabinado: “Hoje tenho a oportunidade de repetir que a Igreja Católica está irrevogavelmente comprometida com o caminho escolhido no Concílio Vaticano II para uma genuína e duradoura reconciliação entre cristãos e judeus”.

     Se ele fez umas poucas e discutíveis concessões aos tradicionalistas, não será sem um preço, e esse custo é a aceitação do Concílio Vaticano II.

     Sim, Jan, alguns desejam que Bento XVI seja um tradicionalista oculto, secretamente anelando restaurar a Cristandade e a Santa Igreja. E o desejam tanto que selecionam seus textos e publicam suas ações, para isso ser dessa maneira. Mas apesar desses artifícios, isso não é assim. Recordo uma canção popular infantil, “se os desejos fossem cavalos, os mendigos cavalgariam, e se os nabos fossem relógios, quanto a mim, eu usaria um...”.

     Não devemos abandonar nossa sólida posição de resistência. De outro modo, baseados em falsas esperanças e sonhos infundados, nós podemos ficar reduzidos a carregar os nabos das reformas do Vaticano II.

 

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     NOTAS:

 

    [1] Discurso de Bento XVI aos representantes do diálogo inter-religioso no Centro Nossa Senhora de Jerusalém, em 11 de maio de 2009.

    [2] Os drusos constituem uma comunidade religiosa autônoma localizada principalmente no Oriente Médio. Sua religião mesclou elementos do Islã, filosofia grega, gnose e do cristianismo. Por volta do ano 1000, consideraram seu chefe, Hakim, como sendo Deus encarnado, e aguardam seu retorno no final dos tempos.

    [3] Saudação do Príncipe Ghazi Muhammad bin Talal ao Papa Bento XVI por ocasião de sua visita à Mesquita Rei Hussein em Amman, Jordânia, 9 de maio de 2009.   

    [4] Primeira Mensagem de Sua Santidade Bento XVI, no final da Celebração Eucarística com os membros do Colégio de Cardeais na Capela Sistina. Vatican online, 20 de abril de 2005.

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     Artigo da coluna "Conversas com Jan" publicado em Tradition In Action com o título: The ‘Poor Pope Benedict’ Syndrome

     Tradução: André F. Falleiro Garcia

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