JORNAL DO VATICANO

ELOGIA CALVINO

 

Lyle J. Arnold, Jr. *     

 

     Em 03/07/09 o jornal vaticano L'Osservatore Romano (OR) elogiou João Calvino, o arquiinimigo do Catolicismo, que, segundo as palavras de Gregório XVI na encíclica Inter praecipuas, "ousando atacar a imutável doutrina da fé com uma quase incrível variedade de erros, tudo fazia para enganar a mente dos fiéis com perversas explicações das Sagradas Escrituras." [1]

Em vez de confirmar os católicos na fé, o L'Osservatore elogiou a heresia calvinista

     O artigo do OR, intitulado "O reformador que desencarnou a Encarnação", foi escrito por Alain Besançon, escritor, jornalista e professor, membro da Academia Francesa de Ciências Sociais e Políticas. Nos Estados Unidos, ele ensinou em Columbia, Rochester, Princenton e outras universidades.

     Atualmente, entre outras ocupações, Besançon também é o correspondente para a França do OR.

     A razão de seu artigo é explicada no título secundário que antecede o principal: "500 anos depois de seu nascimento, Plêiade publica as obras de Calvino". Plêiade é talvez a mais prestigiosa casa editorial francesa, que seleciona cuidadosamente os clássicos que publica. Besançon se aproveita do lançamento do livro para fazer a apologia do líder protestante.

     Apresentamos a seguir a tradução dos principais trechos publicados pela edição italiana do OR.

  • Penso nos homens que fizeram com que um segmento da humanidade se afastasse de seu habitual caminho histórico, que tiveram força para lhe dar uma nova direção. Não vejo senão dois: Rousseau, que transformou o século XIX e, mais ainda, Calvino. Precisamente por que ele foi extraordinário, nós ainda não temos um volume sobre Calvino nas mais renomadas coleções dos clássicos da França... Vejam! Calvino finalmente está na Plêiade.
  • Quero refutar alguns dos mais comuns preconceitos [sobre ele]. Embora ele não quisesse que a Mãe de Deus fosse objeto de pregação, honrou-a firmemente e creu em sua perpétua virgindade, Ele conservou dois sacramentos, Batismo e a Ceia.
  • Ao contrário do que freqüentemente é dito, ele acreditou na presença real, embora não tenha admitido o conceito católico de Transubstanciação. Ele aderiu aos dois princípios da justificação pela fé— sola fidei, sola gratia — e a soberania da Bíblia — sola scriptura.
  • Ele não podia suportar o conjunto de tudo que estava acumulado nas igrejas de seu tempo — demasiadas imagens para serem veneradas, duvidosas relíquias para serem veneradas — que via, com razão, como uma adesão à idolatria. Enquanto promovia uma profunda purificação nos templos, removia a densa pastagem das tradições dogmáticas e eliminava o vasto caos das devoções populares. Creio que ele não queria mudar o dogma da Encarnação ... Ele desenvolveu-o de maneira mais abstrata, enfatizou-o, intelectualizou-o. Ele desencarnou a Encarnação. Nos seus Institutos da Religião Cristã explica isto de maneira geométrica.
  • Fazendo-o, ele se inseriu na grande corrente que chama para um relacionamento individual com Deus, surgida no começo do século XIV e que ainda hoje continua a existir. Pregou o individualismo, um relacionamento pessoal com Deus, com a sociedade, o Estado e a lei: Calvino estava em sintonia com a modernidade antes de seu tempo.
  • Fundou um sistema eclesiástico fundado na sociedade civil e ao mesmo tempo independente dela. ... A organização calvinista foi uma genial criação. ...
  • Calvino lutou em todas as frentes. Sobretudo contra os papistas, mas também contra os “nicodemistas” (aqueles que buscavam um compromisso com Roma) e os Batista.
  • Sabe-se que ele queria ser sepultado em um simples e discreto lugar. Hoje não conhecemos o exato local de seu túmulo (como Moisés), no cemitério de Genebra.

João Calvino fundou um Estado religioso de cunho policialesco

     Estes excertos mostram claramente que Besançon fez uma apologia da seita calvinista, procurando fazer com que o calvinismo seja aceitável pelos católicos. O jornal vaticano não ofereceu apenas algumas poucas palavras de elogio de Calvino: "ele foi extraordinário" — como a mídia norte-americana relatou. O elogio feito é muito mais grave e vai muito mais longe. Uma completa visão calvinista do mundo foi apresentada como "genial" por Besançon e aprovada pelo OR.

     Interpretações parciais, mentiras históricas, amputações dogmáticas, crimes morais, errôneas concepções sociais e políticas do Estado e da Igreja foram justificadas pelo órgão da Santa Sé, que supostamente deveria nos dizer a verdade e nos confirmar na fé. Que imensa inversão de papéis estamos presenciando!

     Quero destacar que os elogios a Calvino feitos pelo OR são indiscutíveis, excluindo qualquer possibilidade de que as palavras tenham sido consideradas fora de seu contexto.

     Dissecando o calvinismo

     O Calvinismo é um ramo do culto Zwingliano, e não do luteranismo, como muita gente pensa. O reformador suíço Ulrich Zwinglio esteve à esquerda da doutrina, da liturgia e estética de Lutero, despojando todas as igrejas da arte e da música. Foi morto numa batalha, quando chefiou em 1531 seus soldados contra os cantões católicos.


Os calvinistas destruíram imagens e outros ornamentos das igrejas, obra similar à reforma litúrgica de Paulo VI

     Jean Cauvin, também conhecido como John Calvin, foi um advogado  francês que apostatou do catolicismo no começo do século XVI. Trabalhou exaustivamente em Genebra para estabelecer seu credo calvinista e ali fundar um Estado religioso policial, onde utilizou duras penalidades, espionagem, e sanções religiosas para o cumprimento de severo código religioso. [2]

     Eis alguns dos principais pontos da teologia calvinista:

  • A inadmissibilidade da graça;
  • A predestinação absoluta decretada por Deus para algumas pessoas, independente de qualquer mérito ou demérito. Deus destina segundo sua eleição as pessoas para o inferno ou o paraíso; por isso as obras dos predestinados à beatitude — ainda que más — são consideradas boas por Ele, enquanto as obras dos futuros condenados são desqualificadas.
  • A Igreja dirige o Estado.
  • O calvinismo vai tão longe que chega a comprometer Deus com o pecado, já que se Ele destina uma alma ao inferno, também força a alma a pecar para merecer o inferno. [3]

     Este é o sistema da heresia religiosa que o L'Osservatore Romano elogiou.

     Seria uma tentativa de enganar-se a si próprio pensar que Bento XVI não adere a esse tributo à heresia. Pois é público e notório que L'Osservatore Romano segue as orientações do Secretário de Estado, o Cardeal Tarcísio Bertone, que é a mão direita do Papa. Ademais, esta é a mesma orientação que Bento XVI seguiu durante sua vida: uma aproximação muito amistosa em relação ao protestantismo.

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     NOTAS:

    [1] Papa Gregório XVI, Inter praecipuas n. 4, 8 de Maio de 1844.  

    [2] William J. Whalen, Separated Brethren (Milwaukee: Bruce Pub., 1958), pp. 48-49.

    [3] Parente, Piolanti, Garofalo, Dictionary of Dogmatic Theology (Milwaukee: Bruce Pub., 1951), p. 37.

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     * Lyle J. Arnold, Jr. publicou o artigo Vatican Paper Defends Calvinism no site Tradition In Action.

    Tradução: André F. Falleiro Garcia.

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