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Comentário Prévio

 

André F. Falleiro Garcia

 

     O padre jesuíta chileno Luis García-Huidobro enviou um texto polêmico ao prestigioso jornal El Mercurio, de Santiago do Chile, que foi publicado com destaque na Seção de Cartas do mesmo. Seu teor causou consternação e provocou escândalo entre os católicos.

     Com efeito, o sacerdote, em "Direita e direitos", considerou "muito importante" que nas fileiras da direita Luis Larraín tenha "reclamado direitos para os homossexuais', e que tenha "reivindicado um modo de ser da direita de acordo com os novos tempos": direita liberal, nos chamados "temas de valores". Para o jesuíta "isto sem dúvida constitui um marco histórico na luta pelas reivindicações de direitos vulnerados em nosso país".

     Afirmou o jesuíta chileno: "Os homossexuais têm a oportunidade de estarem presentes em todas as classes sociais, instituições e grupos de poder. O reconhecimento de seus direitos tem bom prognóstico. Sem embargo, isto não ocorre com outros grupos que sofrem lesão de seus direitos no Chile: os mapuches (direito ao território e à autodeterminação), os peruanos (direito de que a força de trabalho circule pelo mundo como circulam os capitais), .... os estudantes de colégios públicos (direito de não serem excluídos na seleção universitária) e toda uma longa lista de grupos sociais com direitos vulnerados cujos argumentos não são ouvidos."

     Conclui o sacerdote: "o grande passo no respeito ao próximo será dado quando os direitos forem reconhecidos pela mera força dos argumentos", e não por razões de oportunismo eleitoreiro.

     O jurista católico Julio Alvear refutou as falácias do sacerdote chileno na matéria também publicada na Seção de Cartas do mesmo jornal El Mercurio, com o título Piñera y los “progres”. Com certeza interessa ao público brasileiro conhecer seus argumentos, apresentados a seguir.

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Chile: Piñera e os progressistas

 

Julio Alvear Téllez

    Versión en Español

 

     Senhor Diretor:

 

     O padre Luis García-Huidobro, S.J., da Companhia de Jesus, em carta publicada terça-feira, investe contra a candidatura de Sebastián Piñera (que sem dúvida é o mais capaz dos candidatos) e a direita em geral, imputando-lhes toda sorte de malefícios éticos e políticos. Creio que o tema merece ser exorcizado.

     1. É sumamente importante distinguir entre homossexualidade e ideologia gay. Ambas as coisas não coincidem. Há homossexuais que não se sentem representados pela ideologia gay, e há heterossexuais que a impulsionam por adesão às idéias progressistas. A ideologia gay, sob o pretexto de lutar pelos direitos das minorias, pretende fazer engenharia social e moral, insere-se em conhecidas correntes filosóficas, articula agressivos lobbies e conta com um grande arsenal propagandístico na mídia. O exemplo norte-americano é paradigmático. Seus seguidores não são "sem-posses", como pretende o padre García-Huidobro, senão que manejam enormes recursos financeiros. Há tempos deixaram de serem vítimas. Inverteram-se os papéis e agora têm pretensões de dominação sobre os que não pensam como eles, inclusive nas organizações internacionais.

     2. O padre confunde o "liberal" com o "progressista". Dizer que a direita chilena não é liberal é um contra-senso genético. É a esquerda que não é liberal; diante da ausência de um eleitorado marxista, recriou-se na cosmogonia "progressista". Pedir para a direita avançar para o progressismo, para ficar bem com os paroquianos progressistas, é convocá-la para a antropofagia e o suicídio. Mau conselho. Os que têm "idéias avançadas" só avalizam as direitas complexadas e derrotistas, que pedem perdão por existirem.

     3. Não conheço o modelo de racionalidade que o padre García-Huidobro manipula. Dizer que os que não acompanham a agenda do progressismo em matérias morais não têm argumentos racionais, é incorrer na falácia de criar um adversário de papel. Há de existir algo racional nos argumentos dos "reacionários". Claro, para isso é preciso se dar ao incômodo de conhecê-los. Apesar de tudo eles triunfaram em todas as consultas populares que, por exemplo, foram convocadas nos Estados Unidos. A última, a de número trinta e um, de 3 de novembro deste ano, foi realizada no Estado de Maine, uma das regiões mais permissivas do país. O povo disse não para a lei do "casamento gay" (como é chamado) que havia sido promulgada em maio. Seria útil para todos — inclusive para os assessores de Piñera — inteirar-se de suas razões.

     4. Não compreendo como um membro da benemérita companhia de Jesus, na qualidade de sacerdote, pode fazer completa abstração dos ensinamentos de Roma. Para quê? Para seguir piamente os ensinamentos do politicamente correto... Deus nos livre deste tipo de piedade.

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     Publicado em El Mercurio em 03/12/09, com o título Piñera y los “progres” .

     Tradução: André F. Falleiro Garcia.

 

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Piñera y los “progres”

 

Julio Alvear Téllez

 

     Señor Director:

     El padre Luis García-Huidobro, S.J. de la Compañía de Jesús, en carta publicada el martes, las emprende contra la candidatura de Sebastián Piñera (que sin duda es el más capaz de los candidatos) y la derecha en general, imputándoles no sé qué suerte de maleficios éticos y políticos. Creo que el tema merece más de un exorcismo.

     1.- Es sumamente importante distinguir entre homosexualidad e ideología gay. Ambas cosas no coinciden. Hay homosexuales que no se sienten representados por la ideología gay, y hay heterosexuales que la impulsan por adhesión a las ideas “progres”. La ideología gay, bajo el pretexto de luchar por los derechos de las minorías, pretende hacer ingeniería social y moral, se inserta en conocidas corrientes filosóficas, articula agresivos lobbies y cuenta con un gran arsenal propagandista en los medios. El ejemplo norteamericano es paradigmático. Sus seguidores no son “desposeídos”, como quiere el padre García-Huidobro, sino que manejan ingentes recursos financieros. Dejaron hace tiempo de ser víctimas. Se han invertido los papeles y ahora tienen pretensiones de dominación sobre los que no piensan como ellos, incluso en las organizaciones internacionales.

     2.- El padre confunde lo “liberal” con lo “progre”. Decir que la derecha chilena no es liberal es un contrasentido genético. Es la izquierda la que no es liberal, y a falta de electorado marxista, se ha reinventado en la cosmogonía llamada progresista. Pedir que la derecha dé el paso hacia el progresismo, para quedar bien con la feligresía progre, es convocarla a la antropofagia y al suicidio. Mal consejo. La progresía sólo avala a las derechas acomplejadas y perdedoras, esas que piden perdón por existir.

     3.- No conozco el modelo de racionalidad que maneja el padre García-Huidobro. Decir que quienes no comparten la agenda del progresismo en materias morales no tienen argumentos racionales es incurrir en la falacia de crear un adversario de paja. Algo de racionalidad habrá en los argumentos de los “reaccionarios”. Claro, para ello hay que tomarse la molestia de conocerlos. Mal que mal han triunfado en todas las consultas populares que, por ejemplo, se han convocado en los EE.UU. La última, la número treinta y uno, del 3 de noviembre recién pasado, en el Estado de Maine, una de las regiones más permisivas de la Unión. El pueblo dijo no a la ley de matrimonio gay (llamémosle así) que había sido promulgada en mayo. Sería útil para todos —también para los asesores de los spots de Piñera— enterarse de sus razones.

     4.- No comprendo cómo un miembro de la benemérita Compañía de Jesús, en su calidad de sacerdote, pueda hacer completa abstracción de las enseñanzas de Roma. ¿Para qué? Para seguir píamente las enseñanzas de lo políticamente correcto. Dios nos libre de este tipo de piedad.

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     Postado en El Mercurio. Jueves 03 de Diciembre de 2009. Piñera y los “progres” .

 

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