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CONFERÊNCIA DE COPENHAGUE, O EVENTO DE WINDSOR E A RELIGIÃO VERDE |
André F. Falleiro Garcia
Mega evento
em Copenhague
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Os olhos do mundo neste momento estão voltados para Copenhague, na Dinamarca, onde se realiza de 7 a 18 de dezembro de 2009 a 15ª Conferência sobre Mudanças Climáticas (COP 15) promovida pelas Nações Unidas.
O evento deve reunir mais de 15 mil participantes, entre delegações oficiais, ONGs e imprensa. Seu objetivo é a promoção de um "acordo global de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa". Nos primeiros seis dias as delegações dos 193 países assistem reuniões técnicas; depois entregam os resultados aos seus ministros de Estado que chegam no dia 12; ao final, comparecem 110 chefes de Estado e de Governo que podem selar um acordo climático global.
Criou-se suspense em torno do sucesso dessa iniciativa. Observadores consideram como possível ou até provável que a conferência fracasse, devido à falta de acordo entre a China (que se recusa a melhorar sua oferta de corte de emissões do gás CO2) e os Estados Unidos (que não querem financiar a redução chinesa), o que pode impedir um resultado final vinculante a respeito dessas emissões. Caso isto aconteça, será um fracasso aparente, dado o avanço assombroso, constante e profundo da revolução verde nos últimos vinte anos.

Eco-ecumenismo em Windsor: procissão dos delegados em torno do castelo
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Cinco semanas antes da Conferência reunida em Copenhague um grande passo foi dado. As nove maiores crenças mundiais firmaram os chamados Compromissos de Windsor (The Windsor Commitments). Comprometeram-se como parceiras do movimento ecologista as religiões que, juntas, reúnem 85 por cento da população mundial.
Os nove credos que se reuniram em Windsor foram os seguintes: Bahaísmo, Budismo, Cristianismo, Daoísmo, Hinduísmo, Islamismo, Judaísmo, Sikhismo e Xintoísmo.
Os Compromissos de Windsor ocupam um volume de quase duzentas páginas, intitulado "Muitos Céus, Uma Terra. Compromissos da Fé para a vida do planeta". Com pompa e circunstância, foram firmados pelos representantes das religiões no Castelo de Windsor, num evento promovido pela Alliance of Religions and Conservation (ARC) e pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP).
O Evento de Windsor, como tem sido chamado, realizou-se de 2 a 4 de novembro de 2009. O Príncipe Philip (Duque de Edimburgo, marido da Rainha Elizabeth), como presidente da ARC, promoveu o evento principal, e o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, o jantar especial. Ambos no encerramento fizeram a entrega solene dos certificados aos participantes.[1]
Paralelo com a ECO-92: amálgama entre religiões e ideologias
Para melhor avaliar a importância desses eventos, é oportuno cotejá-los com a ECO-92. Realizou-se no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também chamada Cúpula da Terra, de 3 a 14 de junho de 1992. Participaram delegações oficiais de 176 países, e compareceram às sessões finais 114 chefes de Estado e de Governo. E o Foro Global, conjunto de eventos e conferências que estiveram a cargo das ONGs, ocorreu no Parque do Flamengo e no Centro de Convenções do Hotel Glória. Calcula-se que compareceram 18.500 representantes de 7.946 ONGs referentes a 174 países.
Foi a maior reunião de governantes da História. Provocou repercussões profundas na vida das nações e dos indivíduos. Ambos os eventos — a Cúpula da Terra e o Foro Global — receberam enorme cobertura midiática. Marcaram o início da Revolução Verde. Comparados os números de Copenhague com os do Rio de Janeiro, percebe-se certa superação em 2009. Em 1992 os governantes, as ONGs e os gurus estiveram separados em eventos distintos; em 2009, as religiões receberam tratamento diferenciado em Windsor. A meu ver, neste ano o punctum saliens foi o destaque dado ao aspecto místico dessa revolução.
Viu-se na ECO-92 uma amálgama entre o verde e o vermelho — o chamado eco-socialismo. Notou-se também uma permeação entre ideologia e religião. No campo católico, a Teologia da Libertação reciclou-se ao se abrir para as questões ambientais. O ex-sacerdote franciscano Leonardo Boff lançara o livro "Ecologia da Libertação" e participou ativamente do Foro Global das ONGs. A Comissão Pastoral da Terra compareceu e propôs uma leitura "eco-teológica" da realidade social e a realização de uma reforma agrária radical. A Ordem Franciscana, através da ONG "Família Franciscana", propôs em conferência de imprensa uma "new Eco-theology", considerada pelo Superior da Ordem, Pe. Hermann Schalück OFM, como uma adaptação necessária à Teologia da Libertação.
Nessa ocasião, Frei Betto juntamente com Leonardo Boff, o senador Darcy Ribeiro, o arquiteto comunista Oscar Niemeyer e o jornalista Barbosa Lima da Associação Brasileira de Imprensa, promoveram uma homenagem ao ditador Fidel Castro ("Granma Internacional", 21/06/1992). Cabe ainda lembrar a presença, no Parque do Flamengo, do então presidente da CNBB, D. Luciano Mendes de Almeida, e de D. Hélder Câmara, o conhecido "Arcebispo Vermelho", e outros religiosos e leigos católicos.[2]
A presença católica em Windsor
Na ECO-92 se destacaram as notabilidades do progressismo católico adepto da Teologia da Libertação. Ao Evento de Windsor compareceram membros do establishment eclesiástico. Segundo a lista oficial de delegados [3], estiveram presentes:
— o Núncio Apostólico da Santa Sé no Reino Unido, Arcebispo Faustino Sainz Muñoz, ver sua foto no Evento Windsor;
— o Bispo Auxiliar da Diocese de Westminster, John Arnold; também Capelão da Casa Pontifícia desde 2003; representou a Conferência Episcopal da Inglaterra e Gales;
— Frei Michael Higgins, OFM, Ministro Geral da Terceira Ordem Regular de S. Francisco, Presidente da Conferência da Família Franciscana;
— Frei Michael Holman, SJ, Provincial Superior dos Jesuítas na Inglaterra;
— Frei Roberto Jaramillo, Superior Regional dos Jesuítas da Região Amazônica;
— Mons. Camille Zaidan, do rito católico maronita, Líbano (foto).
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O Núncio Apostólico da Santa Sé no Reino Unido, Arcebispo Faustino Sainz Muñoz (1)
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O Bispo Auxiliar da Diocese de Westminster, John Arnold, com o Príncipe Philip (2)
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Frei Michael Higgins, OFM, Ministro Geral da Ordem Terceira Franciscana, com Ban Ki-moon (3)
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Frei Michael Holman, SJ, Provincial Superior dos Jesuítas na Inglaterra, ao lado do Príncipe Philip (4)
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Sob teto eclesiástico realiza-se a articulação da Revolução Social com a Revolução Verde no Brasil
Por mais que a importância dos altos prelados e religiosos de Windsor impressione, é preciso atentar para o que se passa concretamente nos ambientes religiosos nacionais. Com esses elementos informativos se pode montar um quadro de conjunto das tremendas mudanças que estão em curso por toda a parte.
No Brasil, a CNBB debateu previamente a questão ambiental no Simpósio Internacional "Mudanças Climáticas e Justiça Social" realizado de 8 a 10 de junho deste ano em Brasília, que organizou juntamente com a Obra Episcopal Católica Alemã Misereor e outras entidades. [4]
Sob o teto eclesiástico, realizou-se a articulação da Revolução Social com a Revolução Verde. No rol das demais entidades parceiras que organizaram o evento percebe-se nitidamente a amálgama entre o verde e o vermelho (eco-socialismo) e o comuno-tribalismo católico: CPT, Cimi, MST, Via Campesia & Cia. [5]
Dentre os debatedores estavam "representantes de indígenas, pescadores, quilombolas, atingidos por barragens, populações afetadas pelas enchentes no Norte e Nordeste e pela seca na região sul". Note-se que o termo representante é um eufemismo, que dissimula a realidade: dentre os debatedores estavam os agentes promotores da revolução eco-socialista.
Após o Simpósio Internacional, seus participantes enviaram em 10/06/2009 uma Carta-Aberta ao Presidente Lula, na qual afirmam: "Temos a certeza de que o Sr. Presidente da República não se curvará às pressões do poder econômico e escutará o clamor que brota do seio da Mãe-Terra, dos povos da floresta e de todos os que se empenham pela sustentabilidade do planeta."[6]
É incrível como a CNBB sente-se à vontade para promover, sem nenhuma inibição, o culto neopagão da Mãe-Terra! E exibe, vaidosa, seus inúmeros tentáculos rubro-verdes que firmam a Carta-Aberta.[7]
Iniciada a Conferência de Copenhague, as redes integrantes do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social convocaram seus membros para organizar manifestações no Brasil. Divulgaram a nota "Salvar a terra para salvar a vida. Copenhague: é preciso avançar já!"[8]. Sob o teto eclesiástico foram montadas as estratégias de ação; agora é preciso que saiam à luta, conquistem os espaços da Sociedade e influenciem o Estado, no esquema gramscista. Com efeito, diz a nota: “No conjunto, o que se deseja é que sejam multiplicadas iniciativas que mobilizem as pessoas a acompanharem a Conferência de Copenhague, já preparando para pressionar por políticas públicas que efetivamente mudem o rumo de nosso desenvolvimento”.[9]
O que essas redes desejam é a substituição do modelo econômico capitalista pelo desenvolvimento sustentável eco-socialista: “Em lugar de um insustentável crescimento econômico constante e centrado na apropriação privada dos bens e do lucro, que exige crescimento constante do consumo das mercadorias de interesse dos empresários, seja buscado um desenvolvimento centrado na vida e na convivência com a Terra, tanto no campo como nas cidades”. "...é absurdo continuar teimando em produzir energia a partir de grandes barragens e usinas hidroelétricas, que causam tantos danos ambientais e sociais; pior ainda, é absurdo aumentar o número e o tamanho de usinas termoelétricas (a gás, diesel, carvão) e nucleares. É absurdo também insistir na produção de agrocombustíveis quando se sabe que isso, junto com todo o agronegócio, é fonte responsável por mais da metade da emissão, no Brasil, dos gases que provocam aquecimento do Planeta."[10]
O leitor desatento, numa primeira leitura, talvez não relacione esse novo modelo sócio-econômico de desenvolvimento com o ideal anárquico-tribalista. Para reforçar e explicitar ainda mais o sentido das metas eco-socialistas, a nota acrescenta: "A Terra já não suporta o consumismo existente; não suporta, então, a produção voltada para o crescimento constante do lucro, reforçado pelo Programa da Aceleração do Crescimento, e que exige a criação de necessidades artificiais na população que tem acesso ao mercado capitalista. A mudança a ser realizada só recuperará a convivência amorosa com a Terra se atingir o modo de produzir, de consumir, de pensar; isto é, se alcançar o modo de ser. É urgente reeducar-se para uma vida simples para todas as pessoas, que pratica e vive a partir de uma economia do suficiente, que seja solidária e ecologicamente sustentável." [11]
Quer dizer, além da mudança do paradigma de modelo econômico capitalista, essa revolução quer mudar o modo de pensar e de ser, para reeducar para uma vida simples, solidária, ecológica. Em uma palavra: reeducar para a vida numa taba socialista.
O alarmismo ecológico, arma da guerra psicológica revolucionária
Para a reeducação ou conscientização ecológica são utilizadas técnicas da Revolução Cultural, que realizam a mudança dos modos de ser e de pensar. Emprega-se também a manipulação das mentes mediante o alarmismo psicológico. Como empurrar as massas incrédulas e desinteressadas para essa utopia? Exagerando o perigo de uma catástrofe ecológica universal e a necessidade de salvação da vida da Mãe-Terra, a "nossa casa comum". Para essa tarefa concorre evidentemente outra importante parceira: a grande mídia. A orquestração midiática internacional difunde o alarmismo sobre a destruição do planeta Terra numa operação de guerra psicológica de proporções mundiais. Neste aspecto, sem dúvida Copenhague superou a ECO-92. Como uma repercussão disso, difundiu-se hoje a Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Celebração do Dia Mundial da Paz: "Se quiseres cultivar a paz, conserva a Criação". [12]
O Pontífice justifica a escolha desse tema para a sua Mensagem: "O respeito pela Criação reveste-se de grande importância, designadamente porque «a Criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus» e a sua salvaguarda torna-se hoje essencial para a convivência pacífica da humanidade. Com efeito, se são numerosos os perigos que ameaçam a paz e o autêntico desenvolvimento humano integral, devido à desumanidade do homem para com o seu semelhante – guerras, conflitos internacionais e regionais, actos terroristas e violações dos direitos humanos –, não são menos preocupantes os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu. Por isso, é indispensável que a humanidade renove e reforce «aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho».
As metas e a estratégia de ação da revolução eco-socialista apresentadas no Evento de Windsor
Cotejados os eventos desta ECO-2009 com a ECO-92, ressaltado o papel primordial reservado às religiões para a conquista de espaços em prol da Revolução Verde e visto em pormenores o elucidativo caso brasileiro, torna-se mais fácil compreender as linhas gerais da articulação revolucionária gizadas no Castelo de Windsor. Isto será abordado em outro artigo.
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Notas:
[1] Cf. o site oficial do "Evento Windsor". 
[2] Cf. Enigmas, perplejidades e interrogaciones en torno de la ECO-92. 
[3] Cf. Delegate List. 
[4] Cf. CNBB debate mudanças climáticas em Simpósio Internacional. 
[5] Entidas parceiras: Caritas Internacional, Comissão da Amazônia da CNBB, Comissão Água e Meio Ambiente da CNBB, Universidade Católica de Brasília, Conferência dos Religiosos do Brasil, Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Indigenista Missionário (Cimi), FASE CAIS, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Via Campesina. 
[6] Cf. Simpósio Internacional sobre Mudanças Climáticas e Justiça Social envia carta aberta ao Presidente Lula. 
[7] Subscrevem a Carta-Aberta: Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, Comissão Episcopal para a Amazônia e Comissão Água e Meio Ambiente da CNBB; Misereor; Caritas Brasileira; Pastorais Sociais – CNBB; Conselho Nacional de Igrejas Cristãs; Coordenadoria Ecumênica e Serviço; Comissão Pastoral da Terra; Conferência dos Religiosos do Brasil; Conselho Indigenista Missionário; Via Campesina; Movimento de Atingidos por Barragens; Movimento de Mulheres Camponesas; Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra; Movimento Nacional dos Pescadores; Movimento de Pequenos Agricultores; Movimento de Educação de Base; Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional; Conselho Pastoral dos Pescadores; Universidade Católica de Brasília; Articulação Nacional das Pescadoras; Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais; Centro Cultural de Brasília; Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais. 
[8] Cf. Fórum Mudanças Climáticas de olho na Conferência de Copenhague. A íntegra da nota "Salvar a terra para salvar a vida. Copenhague: é preciso avançar já!"
pode ser vista ao se exibir o código-fonte dessa página. 
[9] Idem. Ibidem. 
[10] Idem. Ibidem.
[11] Idem. Ibidem.
[12] Cf. Bento XVI: Se quiseres cultivar a paz, conserva a Criação. Os destaques em negrito são meus. Já me pronunciei a respeito da introdução do ambientalismo ou ecologismo na pastoral papal em artigo publicado em Sacralidade: Cavalgando sobre a onda da ecologia. O ambientalismo católico ou ecologismo católico — como o socialismo católico e o comunismo católico — é uma grave deturpação da doutrina católica, a merecer a censura papal, e não a aprovação. 
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