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NOVENA DE NATAL: PANTEÍSMO, MST E LUTA DE CLASSES

 

Klauber Cristofen Pires    

 

Novena de Natal do IPAR
Novena de Natal do IPAR - Instituto de Pastoral  Regional (Belém/PA)

     Da mesma forma que fiz com uma Bíblia comunista, desta vez trago a público a cartilha usada  para as novenas no lar em 2009, preparada pelo IPAR - Instituto de Pastoral  Regional (Belém/PA).

     Tive conhecimento dela por participar de uma das reuniões, como as que anualmente fazemos em nosso prédio. Desconheço o alcance desta edição, e suponho que deva estar circunscrita ao estado do Pará ou à Amazônia. Todavia, não descuido de que em outras regiões não ocorra semelhante usurpação da doutrina e da fé católicas.

     Tratar deste assunto é constrangedor, porque não estamos lidando diretamente com os salafrários que intentam, como os cupins, comer o miolo da Igreja, preservando-lha, no entanto, a casca. No meu prédio, estas reuniões são conduzidas por bondosas senhoras, conhecidas nossas e pessoas realmente dispostas a fazer o bem. Mesmo com todo o tato, no entanto, inegavelmente a minha intervenção produziu um mal-estar, sobretudo àquela pessoa encarregada de ser a animadora.

     Minha esposa, ao retornar para casa, chegou a me perguntar se eu via algum resultado ou diferença após a minha exposição. Ainda não sei. Porém,  tenho que os alimentos, roupinhas e brinquedos que estas pessoas levam às pessoas carentes são bens temporários, que os próprios destinatários esquecem cedo, quando não enxergam isto tudo com um sentimento de oportunismo ou de humilhação. Afinal, têm sido ensinados a odiar: em suas cabeças deturpadas pela teologia da libertação e pela pregação marxista gramsciana  onipresente, as pessoas que praticam a caridade são vistas como aquelas que procuram expiar parte da culpa que sentem por explorar e oprimir, e o fazem por meio de atos exteriores e hipócritas tal como doar parte do que roubaram. Cumpre-lhes, portanto, aceitar estes bens não com gratidão, mas como um resgate ou uma indenização, antes de matar seus benfeitores. Em via inversa, o mal que se traz é permanente, e isto não difere se é levado por almas benevolentes ou conscientemente malévolas, como se verá a seguir.

     A Introdução ao Panteísmo

     O panteísmo é a crença de que a divindade se encontra no universo, i.e., espalhada pela natureza. É a crença dos hippies, a grosso modo. Melifluamente, elementos nos textos incitam os católicos a enxergar a natureza como "mãe", a água como "irmã", e assim por diante, aproveitando-se de uma onda ambientalista de uma forma quase tão natural que a certo ponto fica realmente difícil convencer-lhes de que foram inseridos de forma propositada com a finalidade de esvaziar a doutrina cristã.

No 1º Encontro, a introdução traz a seguinte exortação:

Animador/a: Natal, um convite à vida. Lentamente, vamos convidar tudo o que tem vida no universo para vir louvar a Deus conosco! Após cada pessoa falar todos/as diremos bem bonito: Viva a vida!

 Leitor/a 1: O sol e a lua,

Todos/as: Viva Vida!

Leitor/a 2: A água e a terra,

Todos/As: Viva a Vida!

     Os elementos acima apresentados são, inegavelmente obras de Deus.  Porém, são desprovidos de vida. Atribuir vida ao sol, à lua, à água e à terra é conferir-lhes um status de entidades merecedoras de devoção.

No 2º encontro:

Leitor/a 1: Precisamos urgentemente de uma nova consciência, uma nova atitude em relação à terra, à água, ao ar.

Leitor/a 2: Precisamos urgentemente de uma nova mística, de uma nova espiritualidade, de um novo encantamento pela vida. (...)

Leitor/a 2: Precisamos restabelecer um relacionamento de ternura com a mãe terra e com a irmã água, para que nosso Natal seja um hino à vida.

     As palavras do animador que precedem estas falas criticam o Natal como uma "ocasião de consumo exagerado" e constata que "temos mais precursores de morte do que de vida". Este comentário é até sadio quando nos convidamos, como cristãos, a dar mais importância ao significado do Natal do que com os preparativos e troca de presentes  ou, em outras palavras, a não desmerecer o principal por causa do acessório. Contudo, não é este o caminho que se pretende seguir: o culto aqui é outro: criticar o regime de propriedade privada de produção para induzir os participantes à devoção por uma metafísica ecológica. Isto é confessado descaradamente pela primeira fala do leitor 2: "precisamos de uma nova mística, de uma nova espiritualidade...".

No 3º Encontro, a água é celebrada como geradora de vida:

Animador/a: Hoje iniciamos nossa novena bebendo um copo de água. A água é a maior fonte de vida. Ela gera e protege a vida(..).

(...)

Animador/a: Esta é a nossa vocação e missão. Gerar e proteger a vida, cuidar e proteger a água que é geradora de vida(...).

Canto: Planeta Água (nº 13) ou outro à escolha (nota do articulista: "Planeta Água", de  Guilherme Arantes". Vide também nota de fim de texto)

(...)

Animador/a: No encontro de hoje queremos rezar com duas pessoas, José e Maria, que, a exemplo da água, foram fontes que geraram e protegeram a vida (...)

(...)

Animador/a (fazendo perguntas): 2 - Que relação pode haver entre a água, fonte de vida, e José e Maria?

(...)

(Louvor)

Grupo 1: Das maravilhas que saíram das mãos do Criador, a irmã água é a mais preciosa (...)

     É muito claro a qualquer pessoa de médio conhecimento que a água não gera vida nenhuma, mas apenas a propicia, aliás, assim como o ar e os alimentos, e até mesmo a temperatura, a pressão e a gravidade. Agradecer a Deus pela água que nos propicia a vida é um ato cristão, mas isto é radicalmente diferente de chamar a água de "irmã", como se um ente consciente fosse, e alegar que ela "gera" a vida.

     Agora imagine a dificuldade que um cristão há de sofrer quando confrontado com uma pergunta do tipo acima:  "- que relação há entre a  água, fonte de vida, e José e Maria? "Na verdade, não há dificuldade nenhuma: não há absolutamente nenhuma relação. Porém, nisto mesmo consiste um ar de mistério que intimida as pessoas mais sérias e excita as mais "viajoras". É o trabalho dos prestidigitadores.

     A subliminar justificação do MST:

     O 4º encontro quase escapa, mas ainda assim, traz, na palavra do animador a seguinte declaração:

Animador/a: Os pastores são as Testemunhas do nascimento. Trata-se de gente considerada rude, violenta, marginal, que invadia com os rebanhos as propriedades alheias. "Lucas colocas esses "marginais" como "as "testemunhas". Que dizer que, a partir de agora, os pobres, os marginalizados, os pecadores são convidados a integrar a comunidade dos filhos amados de Deus. (os grifos são deste articulista).

     Observe o leitor como os elaboradores deste manual de guerrilha ideológica inserem o MST no contexto de forma que os presentes aos encontros sejam preparados sutilmente para aceitar a idéia de que o MST não é senão um movimento formado por pessoas rudes, isto, é, sem instrução. Obviamente, aqueles pastores da antiguidade não eram necessariamente violentos e nem marginais, e o trânsito de rebanhos sempre foi uma tradição, sem que significasse invasão de propriedade. Esta parte, claro, foi encaixada de forma proposital.  Ademais, rude era todo o povo, sendo que apenas uns poucos tinham instrução.

     Ódio ao Capitalismo

     O 5º encontro traz a água perto da fervura. É hora de declarar o ódio ao mercado e ao agronegócio:

     Animador/a: (...) Somos convocados a defender a vida tão ameaçada por este sistema de morte que prioriza o lucro em detrimento da dignidade humana (...)

     (...)

     Leitor/a 1: Nos dias de hoje, somos convocados por Deus para defender a vida dos povos da floresta, pois os grandes projetos só beneficiam os grandes grupos econômicos enquanto o povo que vive nas florestas empobrece a cada dia.

     Leitor/ 2: A nossa floresta é vítima de um desmatamento desenfreado, pois o plantio da soja e outras monoculturas, a extração de madeiras tornaram-se objeto de comércio e de lucro, deixando os pequenos agricultores com a "sobra".

  II- SABOREANDO A VIDA E A PALAVRA

     Leitor/a 1: Uma sábia senhora do interior da Amazônia, sentada na porta de sua casa (o que durante muito tempo era tradição nas cidades amazônicas), começou a contar uma estória para seu netinho:

     Leitor/a 2: meu filho, aqui tinha tudo, do bom e do melhor: frutas, muito açaí, farinha, as pessoas brincavam na rua, passavam e davam bom dia, todo mundo era compadre e comadre um do outro, todos aparentados. A gente era feliz e não sabia. Hoje, ninguém fala um com o outro, as frutas estão sendo levadas para fora, nosso açaí tá indo pro estrangeiro; é um matando o outro. Não sei onde vamos parar.

        O agronegócio, tão próspero na região centro-oeste, fato debitável aos "terríveis governos militares", proporcionou alimento de qualidade e em gigantesca quantidade para o Brasil e para o mundo; tem sido o salvador permanente da balança comercial brasileira pelos últimos trinta ou quarenta anos; as capitais daquela região exibem os melhores índices de infra-estrutura e de qualidade de vida e fomentaram uma complexa teia de relações comerciais e industriais, com geração de milhares de empregos de alto nível. Tudo isto, que salta aos olhos de qualquer pessoa honesta, inexiste para os panfleteiros da teologia da libertação. O que empobrece a população nortista é o agronegócio, que mal tem a chance de existir por aqui.

     A "sábia" senhora também deveria se lembrar da mortalidade infantil no seu tempo de criança. Tudo do bom e do melhor? A região norte não produz cereais nem frutas, salvo aquelas silvestres a que a pretensa sábia se referia, talvez por estarem presentes no quintal de seus pais. Todavia, mantidas as condições de produção do seu tempo, suas frutas não atenderiam nem sequer a uma ínfima parcela da população. Hoje temos praticamente de tudo nos supermercados, desde os produtos cultivados aqui, especialmente carne e leite, aos  alimentos trazidos de outras regiões e até do exterior, e tudo a um preço razoavelmente baixo, (e poderia ser mais ainda) graças a este "sistema de morte". A velhinha ainda reclama  do desaparecimento do açaí (que não desapareceu coisa nenhuma), apontando como uma violência o fato de estar sendo exportado, como se os nortistas, hoje tão bem servidos de arroz goiano, trigo argentino, e maçãs do sul, não devessem participar deste sistema com algo de sua própria produção.

     A luta de classes

     O 6º encontro marca a progressividade da doutrinação marxista, preparando neste ponto as famílias para a luta de classes. Vejamos:

Animador/a: (...) Hoje, o profeta Zacarias vem nos ajudar a compreender e a reconhecer que o Projeto de Deus se realiza através do messias que vem e que todas as suas ações têm como fundamento a justiça e a solidariedade com os pobres. (grifos dos autores)

II - SABOREANDO A VIDA E A PALAVRA

Leitor/a 1: O povo reconhece a vida e se organiza para defendê-la. É o que está acontecendo nos mais diversos recantos desta nossa vasta e rica Amazônia.

Leitor/a 2: Em Santarém, na periferia da grande Prainha, as organizações populares (FAMCOS, Associações de Moradores) e as Comunidades Eclesiais da Paróquia de cristo Libertador, criaram o "Comitê em Defesa do Igarapé do Urumari". (...) Hoje, esta vida doada por Deus está ameaçada e destruída pela ganância e a pretensão de uns poucos, que sem nenhum escrúpulo, matam todo o ecossistema existente neste pedaço da Amazônia.

Leitor/a 1: O Comitê tem dado passos significativos nas suas lutas, freando o avanço da destruição do igarapé. Mas a luta pela vida continua e hoje muita gente está se inserindo nela, como a juventude da área, as escolas das proximidades e tantos outros. Na poesia "URUMARI" podemos perceber a validade deste igarapé para o povo do lugar.

(...)

Leitor/a 2 (declamando a poesia): Lugar de encontro e de alegria,/ Que juntava muita gente,/Lavando roupas e Cantando,/Ninguém era diferente.

(...)

Zacarias: Nós reconhecemos que toda espécie de vida deve ser resgatada, preservada e respeitada.  Vamos colocar no presépio os elementos da natureza, como a água, o verde, os frutos.

(...)

Animador/a (incentivando o debate com perguntas): 3 - Qual é a esperança que este texto traz para as nossas lutas de hoje na Amazônia?

     Aqui cabe salientar a insistência com que a teologia da libertação investe na figura de Cristo como protetor dos pobres e dos oprimidos em confronto com uma poderosa elite exploradora. Ora, a parte em que Cristo ataca as classes mais instruídas relaciona-se com o fato de que os doutores da lei, os fariseus e os escribas, sendo as pessoas que detinham o controle sobre a religião, davam mais atenção às aparências e aos excessivos e rigorosos ritos formais  em detrimento de um verdadeiro amor a Deus e aos próximos. Jesus não inaugura uma luta de classes. Pelo contrário, é igualmente severo com os pobres. Uma passagem que ilustra muito bem este fato se encontra em sua queixa sobre o povo frívolo que lhe segue após o milagre da multiplicação dos pães, tal como se vê em João, 6, 24-26:

24 Vendo, pois, a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, entraram eles também nos barcos, e foram a Cafarnaum, em busca de Jesus. 25 E, achando-o na outra banda do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui?  26 Jesus respondeu-lhes, e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes.

     Os 7º e 8º  encontros consolidam o que já foi mencionado, com o uso de expressões tais como "mãe terra" e semelhantes. Na celebração do 8º encontro, um jovem há de declamar a seguinte sentença:

Jovem: A sociedade está grávida de vida nas associações e centros comunitários dos bairros, nas organizações dos trabalhadores e trabalhadoras e nos grupos de jovens, que nos convidam a viver o sonho de um outro mundo possível.

     Conclusão:

     Não é a primeira das cartilhas nominalmente católicas a ser contaminada pelos preceitos de Karl Marx, um sujeito que proclamava aos berros sarcásticos que um dia viria a substituir Deus. É bom lembrar a quem não saiba que este homem era um adorador do diabo e cultor de ritos satânicos. São os seus ensinamentos "a nova mística e a nova espiritualidade" que os padres e bispos da teologia da libertação querem de maneira subterfúgica inserir na população de coração desarmado. O "outro mundo possível", aquele em que suas idéias foram praticadas ao máximo, dizimou centenas de milhões de pessoas em vários paraísos terrestres, como a União Soviética, a China, a Coréia do Norte, o Vietnã, o Camboja e Cuba.

     Os leitores também devem ter percebido aquela sintomática deficiência com o vernáculo, especialmente no que tange à miserável pontuação. Vale registrar também outra característica desta gente, a de expressarem-se sempre em termos sensitivos: refiro-me ao uso do termo "saboreando a vida". Um cristão tradicional contempla, admira, reflete, louva ou pratica qualquer outra ação que denote uma ascese do seu conhecimento e do seu espírito, o que exige uma complexidade do intelecto situada bem acima da constatação dos cinco sentidos.

     O trabalho a que me propus aqui está apresentado. Cumpre agora a cada católico sério fazer a sua parte, expondo o engodo nas reuniões em que participar.  As etiquetas e o sentimento de amizade devem ceder lugar para que a má-fé, por parte dos responsáveis, e a ignorância, por parte dos animadores e demais participantes, sejam afastadas. Isto se consegue expressando-se com educação e firmeza.

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     Publicado no blog Libertatum.

     Klauber Cristofen Pires formou-se Bacharel em Ciências Náuticas no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, em Belém, PA. Técnico da Receita Federal com cursos na área de planejamento, gestão pública e de licitações e contratos administrativos. Em 2006, foi condecorado como "Colaborador Emérito do Exército", pelo Comando Militar da Amazônia. É Editor do blog Libertatum.

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