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... Os sacerdotes pedófilos e o Papa

 

Marcello Pera

 

         Versión en Español

 

Está em curso uma guerra, entre o laicismo e o cristianismo. Os laicistas sabem que se um esguicho de lama atingir a batina branca, sujará a Igreja. E, se a Igreja ficar suja, então também ficará enlameada a religião cristã.

Esta guerra do laicismo contra o cristianismo é uma batalha campal. A destruição da religião, hoje, não comporta o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie.

No plano ético aí está a barbárie de quem mata um feto porque a sua vida seria prejudicial para a “saúde psíquica’ da sua mãe. E assim por diante.

Ou então, para considerar o lado político da guerra dos laicistas contra o cristianismo, a barbárie será a destruição da Europa. Esta guerra ao cristianismo não seria tão perigosa se os cristãos a compreendessem. Mas da falta de compreensão participam muitos deles.

     

Marcello Pera
Trava-se em campo aberto a batalha dos laicistas contra o cristianismo. A destruição da religião, hoje, não comporta o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie. Será a destruição da Europa.

     A questão dos padres pedófilos e homossexuais que surgiu recentemente na Alemanha, tem como alvo o Papa. Cometerá, no entanto, um grave erro quem pensar que o golpe não conseguirá atingir o alvo, diante do tamanho e da audácia dessa iniciativa. E cometerá um erro ainda maior se considerar que a questão será superada rapidamente como tantas outras. Não é bem assim.

     Está em curso uma guerra. Não propriamente contra a pessoa do Papa. Porque nesse campo a guerra é impossível. Bento XVI tornou inexpugnável a sua imagem, pela sua serenidade, limpidez, firmeza e doutrina. Basta o seu sorriso manso para derrotar um exército de adversários.

     Não, a guerra é entre o laicismo e o cristianismo. Os laicistas sabem que se um esguicho de lama atingir a batina branca, sujará a Igreja. E, se a Igreja ficar suja, então também ficará enlameada a religião cristã. É por isso que os laicistas acompanham a sua campanha com perguntas como: "Quem mandará ainda as suas crianças à Igreja?", ou, "quem mandará ainda os seus filhos para um colégio católico?", ou mesmo, ainda, "quem irá tratar os seus filhos num hospital ou clínica católica?".

     Há alguns dias, um laicista deixou escapar a sua intenção. Escreveu assim: "a extensão da difusão do abuso sexual de crianças por padres põe em causa a própria legitimidade da Igreja Católica, como garante da educação dos mais pequeninos." Não importa que esta sentença não contenha provas, porque vem cuidadosamente protegida pela fórmula "extensão da difusão": um por cento de padres pedófilos? Dez por cento? Todos? Não importa que a sentença seja despojada de lógica: basta substituir "sacerdotes" por "professores", ou por "políticos", ou por "jornalistas", para "minar a legitimidade" das escolas públicas, dos parlamentos ou da imprensa. O que importa é a insinuação, mesmo à custa da grosseria do argumento: os padres são pedófilos, assim a Igreja não tem autoridade moral; logo, a educação católica é perigosa e o cristianismo é uma fraude e um perigo.

     Esta guerra do laicismo contra o cristianismo é uma batalha campal. Deve-se trazer à memória o nazismo e o comunismo para encontrar uma situação similar. Mudam os meios, mas o fim é o mesmo: hoje, como ontem, o que se pretende é a destruição da religião. Naquela ocasião a Europa pagou para essa fúria destrutiva o preço de sua própria liberdade. É incrível que, sobretudo na Alemanha, enquanto se bate continuamente com a mão no peito por causa da lembrança do preço que se infligiu a toda a Europa, hoje, na Alemanha que se tornou uma democracia, não se recorda e não se entende que a própria democracia estaria perdida se o cristianismo tivesse sido eliminado. A destruição da religião comportou naquela ocasião a destruição da razão. E hoje não comporta o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie.

     No plano ético aí está a barbárie de quem mata um feto porque a sua vida seria prejudicial para a “saúde psíquica’ da sua mãe. De quem diz que um embrião é um "monte de células" bom para experiências cientificas. De quem mata um velho porque ele já não tem uma família que o trate. De quem apressa o fim de um filho porque não está mais consciente e é incurável. De quem pensa que "genitor A" e "genitora B" é o mesmo que "pai" e "mãe". De quem acredita que a fé é como o cóccix, um órgão que já não participa na evolução, porque o homem não já não precisa da cauda e está ereto por si mesmo. E assim por diante.

     Ou então, para considerar o lado político da guerra dos laicistas contra o cristianismo, a barbárie será a destruição da Europa. Porque, abatido o cristianismo, restará o multiculturalismo, que acredita que cada grupo tem direito à sua cultura; o relativismo, que pensa que cada cultura é tão boa quanto qualquer outra; o pacifismo, que nega que o mal existe. Ou restará uma espécie de europeísmo retórico e irresponsável que diz que a Europa não deve ter uma identidade própria específica, mas ser o receptáculo de todas as identidades. Mas não poderá mudar de concepção e andar pela catedral de Strasburgo a dizer: “agora temos necessidade da alma cristã da Europa”.

     Esta guerra ao cristianismo não seria tão perigosa se os cristãos a compreendessem. Mas da falta de compreensão participam muitos deles. Teólogos frustrados pela supremacia intelectual de Bento XVI. Bispos inseguros que consideram que comprometer-se com a modernidade é o melhor modo de atualizar a mensagem cristã. Cardeais, em crise de fé, que começam a sugerir que o celibato dos sacerdotes não é um dogma, e que talvez fosse melhor modificá-lo.

     Intelectuais católicos que pensam que há uma questão feminina dentro da Igreja e um problema não resolvido entre o cristianismo e sexualidade. Conferências episcopais que se equivocam na agenda e, enquanto anseiam por uma política de fronteiras abertas para todos, não têm a coragem de denunciar as agressões que os cristãos sofrem e as humilhações que são forçados a provar ao serem todos, indiscriminadamente, sentados no banco dos réus.

     Ou ainda aqueles chanceleres vindos dos países do Leste[1], que exibem um belo ministro das relações exteriores homossexual, enquanto atacam o Papa sobre qualquer assunto de natureza ética. Ou aqueles que nasceram no Oeste, e que pensam que o Ocidente deve ser laico, isto é, anticristão.

     A guerra dos laicistas continuará, senão por outra razão, porque um Papa como Bento XVI, que sorri, mas não retrocede um milímetro, a alimenta. Mas se se compreende porque é que não se move, então se toma o assunto em mãos e não se espera o próximo golpe. Quem se limita apenas a solidarizar-se com ele, é como alguém que entra no Jardim das Oliveiras de noite e em segredo, ou como alguém que não entendeu o que está acontecendo.

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     Marcello Pera, professor e escritor, filósofo e agnóstico, foi presidente do Senado italiano (2001-2006), e reeleito senador em 2008.

     ... I sacerdoti pedofili e il Papa. Carta ao Diretor do jornal Corriere della Sera, 17 de março de 2010.

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     NOTA DE SACRALIDADE:

    [1] A referência indireta pode ser aplicada à chanceler alemã Angela Merkel.

 

SENATORE MARCELLO PERA: GUERRA AL CRISTIANISMO



I sacerdoti pedofili e il Papa



     17 Marzo 2010

     Carta al director (Corriere della Sera )

     Estimado director:

 

Marcello Pera
Está en curso una guerra entre el laicismo y el cristianismo. La destrucción de la religión hoy no comporta el triunfo de la razón laicista, sino otra barbarie. La barbarie será la destrucción de Europa.

     La cuestión de los sacerdotes pedófilos u homosexuales desencadenada últimamente en Alemania tiene como objetivo al Papa. Pero se cometería un grave error si se pensase que el golpe no irá más allá, dada la enormidad temeraria de la iniciativa. Y se cometería un error aún más grave si se sostuviese que la cuestión finalmente se cerrará pronto como tantas otras similares. No es así. Está en curso una guerra. No precisamente contra la persona del Papa ya que, en este terreno, es imposible. Benedicto XVI ha sido convertido en invulnerable por su imagen, por su serenidad, su claridad, firmeza y doctrina. Basta su sonrisa mansa para desbaratar un ejército de adversarios.

     No, la guerra es entre el laicismo y el cristianismo. Los laicistas saben bien que, si una mancha de fango llegase a la sotana blanca, se ensuciaría la Iglesia, y si fuera ensuciada la Iglesia lo sería también la religión cristiana. Por esto, los laicistas acompañan su campaña con preguntas del tipo «¿quién más llevará a sus hijos a la Iglesia?», o también «¿quién más mandará a sus chicos a una escuela católica?», o aún también «¿quién hará curar a sus pequeños en un hospital o una clínica católica?»

     Hace pocos días una laicista ha dejado escapar la intención. Ha escrito: «La entidad de la difusión del abuso sexual de niños de parte de sacerdotes socava la misma legitimidad de la Iglesia católica como garante de la educación de los más pequeños». No importa que esta sentencia carezca de pruebas, porque se esconde cuidadosamente «la entidad de la difusión»: ¿uno por ciento de sacerdotes pedófilos?, ¿diez por ciento?, ¿todos? No importa ni siquiera que la sentencia carezca de lógica: bastaría sustituir «sacerdotes» con «maestros», o con «políticos», o con «periodistas» para «socavar la legitimidad» de la escuela pública, del parlamento o de la prensa. Lo que importa es la insinuación, incluso a costa de lo grosero del argumento: los sacerdotes son pedófilos, por tanto la Iglesia no tiene ninguna autoridad moral, por ende la educación católica es peligrosa, luego el cristianismo es un engaño y un peligro.

     Esta guerra del laicismo contra el cristianismo es una batalla campal. Se debe llevar la memoria al nazismo y al comunismo para encontrar una similar. Cambian los medios, pero el fin es el mismo: hoy como ayer, lo que es necesario es la destrucción de la religión. Entonces Europa, pagó a esta furia destructora, el precio de la propia libertad. Es increíble que, sobre todo Alemania, mientras se golpea continuamente el pecho por el recuerdo de aquel precio que ella infligió a toda Europa, hoy, que ha vuelto a ser democrática, olvide y no comprenda que la misma democracia se perdería si se aniquilase el cristianismo.

     La destrucción de la religión comportó, en ese momento, la destrucción de la razón. Hoy no comportará el triunfo de la razón laicista, sino otra barbarie. En el plano ético, es la barbarie de quien asesina a un feto porque su vida dañaría la «salud psíquica» de la madre. De quien dice que un embrión es un «grumo de células» bueno para experimentos. De quien asesina a un anciano porque no tiene más una familia que lo cuide.

     De quien acelera el final de un hijo porque ya no está consciente y es incurable. De quien piensa que «progenitor A» y «progenitor B» es lo mismo que «padre» y «madre». De quien sostiene que la fe es como el coxis, un órgano que ya no participa en la evolución porque el hombre no tiene más necesidad de la cola y se mantiene erguido por sí mismo.

     O también, para considerar el lado político de la guerra de los laicistas al cristianismo, la barbarie será la destrucción de Europa. Porque, abatido el cristianismo, queda el multiculturalismo, que sostiene que cada grupo tiene derecho a la propia cultura. El relativismo, que piensa que cada cultura es tan buena como cualquier otra. El pacifismo que niega que existe el mal.

     Esta guerra al cristianismo no sería tan peligrosa si los cristianos la advirtiesen. En cambio, muchos de ellos participan de esa incomprensión. Son aquellos teólogos frustrados por la supremacía intelectual de Benedicto XVI. Aquellos obispos equívocos que sostienen que entrar en compromisos con la modernidad es el mejor modo de actualizar el mensaje cristiano. Aquellos cardenales en crisis de fe que comienzan a insinuar que el celibato de los sacerdotes no es un dogma y que tal vez sería mejor volver a pensarlo. Aquellos intelectuales católicos apocados que piensan que existe una «cuestión femenina» dentro de la Iglesia y un problema no resuelto entre cristianismo y sexualidad. Aquellas conferencias episcopales que equivocan en el orden del día y, mientras auspician la política de las fronteras abiertas a todos, no tienen el coraje de denunciar las agresiones que los cristianos sufren y las humillaciones que son obligados a padecer por ser todos, indiscriminadamente, llevados al banco de los acusados. O también aquellos embajadores venidos del Este, que exhiben un ministro de exteriores homosexual mientras atacan al Papa sobre cada argumento ético, o aquellos nacidos en el Oeste, que piensan que el Occidente debe ser «laico», es decir, anticristiano.

     La guerra de los laicistas continuará, entre otros motivos porque un Papa como Benedicto XVI, que sonríe pero no retrocede un milímetro, la alimenta. Pero si se comprende por qué no cambia, entonces se asume la situación y no se espera el próximo golpe. Quien se limita solamente a solidarizarse con él es uno que há entrado en el huerto de los olivos de noche y a escondidas, o quizás es uno que no ha entendido para qué está allí.

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     Traducción: NOTÍCIAS GLOBALES.

     Marcello Pera es Senador de la República Italiana y profesor de filosofía, no es católico. Escribió diversos libros sobre la identidad cristiana de Europa, entre los que destacan: Senza radici, Pera, Marcello y Ratzinger, Joseph, Ed. Mondadori, Milano 2004: Perché dobbiamo dirci cristiani, Ed. Mondadori, Milano 2008, con prefacio del Papa Benedicto XVI.

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