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AS 69 SEMANAS

 

Ronaldo Ausone Lupinacci *

 


     O artigo anterior (O segredo de Fátima: apostasia na Igreja?) trouxe ao conhecimento dos leitores a acesa discussão que se trava no exterior sobre a terceira e última parte da mensagem transmitida por Nossa Senhora, em suas aparições ocorridas em Fátima, no ano de 1917. Ademais, o mesmo artigo aludiu aos novos contornos da discussão, surgidos com a divulgação, pela Internet, no dia 21 de abril último, da fotografia de manuscrito, atribuído à irmã Lúcia (um dos videntes, que se tornou freira reclusa), e que conteria o fragmento da terceira parte do chamado “Segredo de Fátima”, oculto pelo Vaticano até agora.

     Cumprindo a promessa feita naquele artigo, passo hoje a transmitir, em apertado resumo, minhas reflexões iniciais sobre o referido documento. Cabe observar que a questão só poderá ser bem compreendida se o leitor tiver conhecimento das duas partes do “Segredo de Fátima” já publicadas, da revelação de uma visão mística e de sua tentativa de interpretação teológica efetuadas pelo Vaticano no ano 2000, bem como do teor do manuscrito agora divulgado pela Rede Mundial de Computadores [1]. É recomendável, também, a consulta a escritos de especialistas no assunto [2].

     Preliminarmente, ainda, importa asseverar que este comentário não pode ser qualificado como indiscrição, nem rebeldia em relação às autoridades eclesiásticas. Afinal o manuscrito fotografado é, atualmente, documento de domínio público que circula pelos cinco continentes, gerando controvérsias. Portanto, nada há de errado na emissão de um juízo sobre ele, desde que construído com prudência, à luz da doutrina católica e da ciência.  Por outro lado, só se justifica a abordagem da temática na perspectiva de que o conteúdo daquele documento se mostrou verossímil. Em outras palavras, caso tivesse sinais de desconformidade em relação às partes já conhecidas da Mensagem de Fátima, ou, se tivesse evidenciado como heterodoxo ou estapafúrdio, inexistiria fundamento seja para o artigo anterior, seja para este. E, por isso mesmo, nunca analisei outras versões do chamado “Terceiro Segredo”, presumidamente falsas.

     Encerrada a extensa introdução acima, é preciso afirmar que não existem, até o momento, provas cabais ou definitivas, seja da autenticidade, seja da falsidade do manuscrito. Tais provas, a meu ver, serão: a) a confirmação de que a impressão digital lançada no documento corresponde à da pessoa que o redigiu (supostamente, a vidente Lúcia); b) a confirmação de que a letra do redator do texto corresponde, também, à da irmã Lúcia; c) a confirmação pelo Vaticano de que o documento é idêntico àquele que está (ou estava...) guardado nos aposentos papais desde 1957, e mantido secreto até hoje.

     Entretanto, se não existem provas diretas e inquestionáveis, há um vasto conjunto de indícios e presunções que militam em prol da autenticidade do manuscrito. Apontarei apenas alguns deles. Tais elementos de convicção são de naturezas distintas: a) material; b) ideológica. Provêm tais elementos de narrativas de pessoas respeitáveis que viram ou leram o original do documento. De natureza material tem-se o veículo (uma pequena folha de papel), a forma (de carta) e a dimensão (20 a 25 linhas). De natureza ideológica tem-se o conteúdo (apostasia na Igreja), e a menção da época prescrita por Nossa Senhora para o “anúncio” do segredo, isto é, o período que se seguiu à morte do Papa Pio XII até o ano de 1960.

     De qualquer forma subsistiria o mistério até o momento em que as provas cabais estivessem concluídas. Eu disse “subsistiria”, no condicional porque há no manuscrito um indicativo, para outra prova futura, e, então, inquestionável: a dos fatos. A penúltima frase do manuscrito diz, textualmente: “Se 69 semanas depois que esta ordem é anunciada Roma continua sua abominação, a cidade será destruída”. Se estiver correta a interpretação segundo a qual a “ordem” foi “anunciada” (isto é, tornada pública) no último dia 21 de abril, o prazo concedido por Nossa Senhora irá expirar em outubro de 2011.

     No referido prazo de 69 semanas se abririam duas alternativas: a) ou o fim da “abominação”, com o retorno dos membros da Igreja (especialmente das altas autoridades eclesiásticas) à sua doutrina, moral, disciplina e liturgia; b) ou a destruição da cidade de Roma, através de algum fato cuja natureza o documento não esclarece.

     Em conclusão, se nada do que diz o documento vier a acontecer, presumidamente até outubro do ano 2011, ficará claro que o manuscrito fotografado é fraudulento. Mas, ao contrário, se acontecer ficará claro, também, que é verdadeiro.

     Resta, portanto, aguardar as provas, os pareceres dos estudiosos do assunto e o transcorrer dos fatos. Mas aguardar na perspectiva dos dizeres das duas partes da mensagem já divulgadas. E, aguardar, igualmente, com os olhos bem atentos nos acontecimentos, pois o que estiver ocorrendo em Roma poderá ter impressionantes conseqüências no resto do mundo.

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     * Ronaldo Ausone Lupinacci é advogado e agropecuarista.


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     NOTAS:

 

    [1] Third Secret of Fatima — por A. S. Guimarães.

    [2] É recomendável consultar:

O segredo de Fátima — por Davide Malacaria.

A desconcertante manipulação da profética Mensagem de Fátima — por André F. Falleiro Garcia .

O derradeiro combate do demônio — por Pe. Paul Kramer.

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