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OPINIÃO DO EDITOR

INVEROSSIMILHANÇAS E OMISSÕES NO NOVO TEXTO DO TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA

 

André F. Falleiro Garcia

 

     Publicada no ano 2000 a versão do Terceiro Segredo de Fátima divulgada pelo Vaticano, foi recebida em muitos ambientes brasileiros com um misto de reserva, decepção, pouco interesse e até certa desconfiança. O manuscrito apresentado não correspondeu à expectativa e produziu desde logo a impressão de que o tema perdera a atualidade e se esvaziara. Desse modo mais um lance de guerra psicológica revolucionária no seio da Igreja Católica conseguira produzir nefasto resultado.

Padre Paul Kramer
Um dos conferencistas, Padre Paul Kramer, durante o congresso em Roma, questionou o conteúdo do Terceiro Segredo

     O público católico brasileiro não acompanhou a grande controvérsia que desde então surgiu no exterior. Enquanto estudiosos europeus e norte-americanos se debruçaram sobre o Terceiro Segredo e publicaram análises e livros polêmicos na primeira década do milênio, esforço análogo não prosperou no Brasil, imerso numa ambiência pouco propícia. Em parte, devido à atuação da CNBB, voltada mais para questões políticas e sócio-econômicas; e pela atonia generalizada do laicato católico. Também contribuiu para essa situação a grande mídia brasileira, que não divulgou as polêmicas internacionais.

     Notou-se mais uma vez tal silêncio midiático por ocasião da recente realização, em Roma, do congresso internacional The Fatima Challenge que reuniu especialistas sobre a questão do Terceiro Segredo (3 a 7 de maio de 2010). No evento, um dos conferencistas, Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis (Goiás), discorreu sobre a possibilidade de que o Terceiro Segredo estabeleça "reservas" quanto ao Concílio Vaticano II.[1]

     Dias antes do referido congresso, o website norte-americano Tradition in Action publicou o fac-símile de um manuscrito recém divulgado, atribuído à Irmã Lúcia, nele estampada uma versão supostamente verdadeira do Terceiro Segredo.[2] O documento foi apresentado pelo editor do website com reservas quanto à autenticidade. De fato o novo texto do Terceiro Segredo, que circula através da internet nos meios católicos, já encontrou adeptos ardorosos. Pode-se jogá-lo ao fogo pela sua provável inautenticidade, mas ainda assim vai se ouvir a temática do Terceiro Segredo crepitar, o que é salutar, dado o esvaecimento da Mensagem de Fátima na memória do público católico brasileiro.

     Vamos agora apresentar o fac-símile do novo manuscrito e em seguida fazer uma breve análise do mesmo.

Fac-símile do novo manuscrito supostamente atribuído à Irmã Lúcia.

     Não vamos aqui focar as verossimilhanças do novo manuscrito, como por exemplo a redação que primeiro apresenta uma visão, seguida de palavras de Nossa Senhora, em contraste com a versão vaticana que apenas apresenta a descrição de uma visão sem nenhuma palavra ou comentário de Nossa Senhora. Interessa entrar diretamente na análise do texto para apontar algumas inverossimilhanças e omissões.

Tuy 1 de setembro de 1944 (ou 1 de abril de 1944)

[....]

     Como pode ter sido escrito em 1 de abril ou 1 de setembro? É sabido que a religiosa redigiu diversas memórias sobre as aparições, sendo a primeira em 1935, a segunda em 1937, e a terceira em agosto de 1941. Nesta terceira, após revelar as primeiras duas partes do segredo, informou que existe também uma "terceira parte", que não apresentou. Pouco depois, escreveu a quarta memória (8 de dezembro de 1941), na qual ao chegar ao fim do segundo segredo, acrescentou uma nova frase, que não existia no texto de agosto: "Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, etc.". Somente em janeiro de 1944 a Irmã Lúcia redigiu a "terceira parte" do segredo, mais conhecida como "terceiro segredo". Qualquer das duas datações (o fac-símile apresenta no cabeçalho a indicação do mês quase ilegível) que se atribua ao novo manuscrito, foge à época em que é sabido que a Irmã Lúcia escreveu o "terceiro segredo".[3]

Tuy 1 de setembro de 1944 [ou 1 de abril de 1944]

JMJ

Agora vou revelar o terceiro fragmento do segredo: Esta parte é a apostasia na Igreja!

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     Não há continuidade e nexo lógico com a frase de ligação: "Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, etc." Tal frase, introduzida na quarta memória, é de grande importância e ocupa lugar central na controvérsia. É a frase de ligação da "segunda parte" com a "terceira parte" do segredo. Nossa Senhora não diria um etc. para acabar uma frase. Mas a Irmã Lúcia poderia empregar esse recurso para omitir na quarta memória (8 de dezembro de 1941) o que faltou: a "terceira parte" do segredo, mais conhecida como "terceiro segredo", que somente redigiu anos depois, em janeiro de 1944. Quer dizer, considera-se que o início do terceiro segredo seria a continuação ou fecho da frase da "segunda parte" ("Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, etc."). Mas o que o novo manuscrito apresenta como tema liminar é outro assunto: a apostasia na Igreja, a visão do santo padre de olhar de demônio e o edifício sinistro.

[....]

Agora vou revelar o terceiro fragmento do segredo: Esta parte é a apostasia na Igreja!

Nossa Senhora mostrou-nos uma vista do um indivíduo que eu descrevo como o ‘santo Padre’, em frente de uma multidão que estava louvando-o.

Mas havia uma diferença com um verdadeiro santo Padre, o olhar do demonio, êste tinha o olhar do mal.

Então depois de alguns momentos vimos o mesmo Papa entrando a uma Igreja, mas esta Igreja era a Igreja do inferno, não há modo para descrever a fealdade d’êsse lugar, parecia uma fortaleza feita de cimento cinzento com ângulos quebrados e janelas semelhantes a olhos, tinha um bico no telhado do edificio.

Em seguida levantamos a vista para Nossa Senhora que nos disse Vistes a apostasia na Igreja, [....]

     Há uma desconcertante redução da dimensão da apostasia na Igreja. O cardeal Alfredo Ottaviani, numa conferência de 1967, disse: “Eu tive a graça e o dom de ler o texto do terceiro segredo. [...] Posso lhes dizer apenas isto: que virão tempos muito difíceis para a Igreja e que é preciso muita oração para que a apostasia não seja grande demais”. Trinta anos mais tarde, o Cardeal Oddi confessou para a revista 30 Giorni: “O Segredo de Fátima contém uma profecia triste sobre a Igreja, e é por isto que o Papa João não o divulgou, Paulo VI e João Paulo II fizeram o mesmo. Parece-me que está mais ou menos escrito que em 1960 o Papa convocaria um Concílio, do qual, contrariamente às expectativas, indiretamente derivariam muitas dificuldades para a Igreja”.[4]

     No novo manuscrito, sem nenhuma menção ao Concílio Vaticano II e aos seus nefastos frutos[5], a imensa crise da Santa Igreja é reduzida a uma só pessoa, o tal santo padre de olhar satânico que penetra num edifício sinistro. Não tem sentido referir a apostasia na Igreja para limitá-la a uma pessoa só, quando se nota que essa crise se prolonga durante décadas, abrange vários pontificados e envolve incontáveis Prelados.

     Há uma espantosa omissão com relação à Rússia, ao comunismo e socialismo. O Concílio fizera silêncio, desconcertante e espantoso, sobre o maior inimigo da Igreja, o comunismo, que desde sua implantação na Rússia tem metamorfoseado sua aparência assumindo variadas colorações vermelhas, róseas e verdes. Tal omissão se mostrou apocalipticamente trágica em suas consequências. Também agora não há, no novo texto do III Segredo, nenhuma referência nesse sentido. Mas Dom Pestana ressaltou a importância da Rússia e do comunismo na Mensagem de Fátima e advertiu sobre o trabalho de infiltração comunista nos meios católicos.[6]

     O verdadeiro texto do Terceiro Segredo não pode evidentemente ser confuso ou enigmático. Não pode conter em seu bojo um quarto segredo. Em 1960 já deveria ser claro e de fácil intelecção para o povo católico, como o são a primeira e segunda partes da Mensagem. Em sentido contrário, a referência às 69 semanas contadas para a destruição de Roma é obscura e enigmática quanto ao estabelecimento do termo inicial e final dessa contagem.

[....]

Em seguida levantamos a vista para Nossa Senhora que nos disse Vistes a apostasia na Igreja, esta carta pode ser aberta por O santo Padrre, mas deve ser anunciada depois de Pio XII e antes de 1960.

No reinado de Juan Pablo II a pedra angular da tumba de Pedro deve ser removida e transferida para Fatima.

Porque o dogma da fé não é conservado em Roma, sua autoridade será removida e entregada a Fatima.

A catedral de Roma deve ser destruida e uma nova construida em Fatima.

Se 69 semanas depois de que esta ordem é anunciada Roma continua sua abominação, a cidade será destruida.

Nossa Senhora disse-nos que êsto está escrito, Daniel 9, 24-25 e Mateus 21, 42-44

     Ademais, há uma afirmação que parece-nos inadmissível em termos de doutrina católica: "Porque o dogma da fé não é conservado em Roma, sua autoridade será transferida para Fátima". Porque ela parece dizer que a autoridade suprema na Igreja seria retirada do bispo de Roma, ou seja, dos Papas, sucessores de Pedro na Cátedra de Roma.

     Chama a atenção não ter sido o manuscrito assinado por ninguém. Aliás, tal omissão também se notou no manuscrito do ano 2000. O novo texto surgido em Portugal apenas foi autenticado por uma impressão digital, recurso utilizado pelos analfabetos... É notório que a Irmã Lúcia, como é praxe entre os alfabetizados, assinava todos os documentos que escreveu.

     Oxalá as ponderações aqui apresentadas, sem a pretensão de esgotar o assunto, contribuam para o esclarecimento de nossos leitores.

     _________

     NOTAS:

    [1] Desse modo Dom Pestana iniciou suas palavras: "Algo que me parece sempre incerto é a questão do Concílio Vaticano II. Na última sessão, da qual participei, uma comissão foi até a Irmã Lúcia, em Coimbra. Eu lhe encaminhei uma pergunta por escrito. Minha pergunta foi a seguinte: o terceiro segredo de Fátima tem alguma relação com o Concílio Vaticano II? A Irmã Lucia respondeu — não a mim, mas a um padre que fora com a comissão — 'não estou autorizada a responder esta pergunta'. Isso é muito interessante. [...] é um sinal de alguma reserva no terceiro segredo, e esta reserva tem alguma relação com o Concílio Vaticano II." Mais adiante, prosseguiu Dom Pestana: "Seria possível que Nossa Senhora tivesse dito que não era de seu gosto, que não lhe agradava a realização do Concílio? Eu não sei, mas se pode pensar..." E antes de encerrar suas palavras, mais uma vez se referiu ao Concílio: "Creio que poderia dizer — digo como uma palavra minha — e suspeitar que o Concílio Vaticano II está relacionado [...] com o terceiro segredo de Fátima." O texto completo da conferência pode ser lido aqui.

    [2] Cf. Third Secret of Fatima, de Atila Sinke Guimarães, editor de Tradition in Action, artigo postado em 27/04/2010.

    [3] A data precisa consta no documento de Apresentação da Mensagem de Fátima, divulgado pela Congregação para a Doutrina da Fé: A terceira parte do « segredo » foi escrita « por ordem de Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da (...) Santíssima Mãe », no dia 3 de Janeiro de 1944. No manuscristo divulgado no ano 2000, esta data aparece escrita no final do documento: Tuy 3 - 1- 1944.

    [4] Cfr. "30 Giorni", edição de 11 de novembro de 1990, p. 69.

    [5] São expressivas as seguintes palavras de Paulo VI sobre o período pós-conciliar: “Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia ensolarado para a História da Igreja. Veio, pelo contrário, um dia cheio de nuvens, de tempestade, de escuridão, de indagação, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos afastamos sempre mais uns dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de soterrá-los.“Como aconteceu isto? O Papa confia aos presentes um pensamento seu: o de que tenha havido a intervenção de um poder adverso. Seu nome é diabo, este misterioso ser a que também alude São Pedro em sua Epístola” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, pp. 707-709).  

    [6] De fato disse Dom Pestana no referido congresso internacional: "Dentro do Concílio Vaticano II, não nas reuniões, foram feitos acordos com os representantes da Rússia para que não se falasse do comunismo, não se falasse de Rússia. Mas isso é o contrário da mensagem de Fátima. O centro da mensagem era a Rússia, da qual virão grandes males para a Igreja e para o mundo. Mas fizeram um acordo. Ah sim! Porque havia bispos ortodoxos [russos, no Concílio]. E nós sabemos hoje que muitos bispos [católicos ou ortodoxos] não só na Rússia, mas na Polônia e outros lugares, para não terem obstáculos da parte do governo comunista, faziam vistas grossas a certas coisas. Por exemplo: nós sabemos que este escândalo ocorreu na Polônia, de um arcebispo [católico] que fora nomeado e que no momento de tomar posse da diocese, simplesmente disse: 'não, não posso tomar posse, porque encontraram um documento assinado por mim que me permitia sair da Polônia para estudar em Roma com a condição de colaborar com o governo sobre as coisas da Igreja que lhe interessavam.' Este é o problema. [...] O arcebispo [ortodoxo] de Kiev, que era um homem que se aproximou muito de João Paulo I, na última audiência, morreu lá diante do Papa. Ele não era ninguém menos que um chefe da KGB e era arcebispo de Kiev. Coronel da KGB. [...] É um trabalho de muito tempo de infiltração na Igreja Católica."

     O texto completo da conferência pode ser lido aqui.    

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