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Artigo publicado no site ultra modernista francês Golias, escrito por um progressista radical, descreve o perfil e o pensamento de Mons. Brunero Gherardini, um expoente "moderado" da corrente tradicionalista católica contemporânea

 

A TESE DE MONSENHOR GHERARDINI, O "PENSADOR" DOS TRADICIONALISTAS "SOFT"

 

Romano Libero

 

Monsenhor Brunero Gherardini
Para Gherardini, como o Vaticano II não é dogmático, mas pastoral, essa ausência da ‘vontade de definir’ dispensa o católico de uma adesão compulsória às "novidades" inconciliáveis com o ensinamento do Magistério tradicional

     As análises claras e bem fundamentadas do octogenário Mons. Brunero Gherardini, Cônego da Basílica de São Pedro de Roma, professor aposentado da Universidade de Latrão, especialista em ecumenismo, quase não chegaram ao conhecimento do público francófono. Penumbra imerecida.

     Nascido em 1925, esse toscano de feitio categórico e posições rijas é um dos poucos remanescentes da história romana de teologia (que, por ocasião do Concílio, se fazia representar pelo cardeal Pietro Parente e por Mons. Antonio Piolanti). Postulante da Causa de canonização de Pio IX e manifestamente simpático à Fraternidade São Pio X, Gherardini nada tem de irrelevante. Isento do viés caricato de certos tradicionalistas franceses, exprime uma visão da realidade que podemos caracterizar como de linha tradicional extremada, e que, em larga medida, pode ser encampada pelos integristas.

     Para além da questão da reforma litúrgica, Monsenhor Gherardini suscita o problema do grau de autoridade do Concílio Vaticano II. Naquela época, ainda jovem padre da diocese de Prato, Pe. Brunero já era conselheiro do velho cardeal Giuseppe Pizzardo, Prefeito da Congregação dos Seminaristas e das Universidades, homem da velha guarda.

     La Paix Liturgique, um dos mais curiosos sites tradicionalistas, expõe com agudeza de percepção as posições atuais de Monsenhor Gherardini sobre o ponto mais delicado das negociações entre o Vaticano e os lefevristas, ou seja, a respeito do "alcance doutrinário do Vaticano II".

     Conforme destaca La Paix Liturgique, Mons. Gherardini recomenda que se retome a posição da minoria conciliar durante o Vaticano II. Com efeito, se bem que retraídos, em face dos exageros dos demais grupos que mais tarde contestariam o Concilio, essa minoria, sem nenhuma dúvida, já representava a variante mais fixista da "Hermenêutica da Continuidade", aventada por Bento XVI, no célebre discurso à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2005, como paradigma para interpretar o Vaticano II. Fazendo eco ao site La Paix Liturgique, poderíamos designar essa interpretação hermenêutica sob o epíteto Tradição.

     A tese é claramente expressa por Monsenhor Gherardini. Segundo essa corrente, haveria, no corpo conciliar, uma gradação de valor correspondente a afirmações de importância desigual. Monsenhor Gherardini julga que, grosso modo, "trata-se de um Concílio que, em princípio, excluiu a formulação de novas doutrinas dogmáticas. [...]. [Em conseqüência], o ensinamento [do Vaticano II] só pode ser considerado infalível e irreformável nas passagens em que exista um ensinamento anteriormente definido [acerca do mesmo assunto]".

     Noutras palavras, a respeito dos pontos controversos, entre os quais o direito à liberdade religiosa, a suprema autoridade do Magistério da Igreja não está concernida. Por isso, as posições mais avançadas podem ser discutidas e contestadas no próprio âmbito da mais estrita fidelidade ao Magistério.

     Já que não formulou nenhum novo dogma, nem uma nova doutrina de assentimento obrigatório, o Concílio Vaticano II pode ser caracterizado como "pastoral". Essa ausência da "vontade de definir" dispensa, pois, o católico de uma adesão compulsória a tudo quanto ensina o Vaticano II.

     Sem dúvida, uma conclusão sob medida para extasiar os integristas lefevrianos! A adesão destes ao Concílio Vaticano II não constituiria, pois, uma obrigatoriedade. Sob esse prisma, as conversações doutrinárias, atualmente em curso, tornam-se quase matéria opcional...

     A posição de Mgr. Gherardini dá fundamento a eventuais correções aos textos conciliares. É o que se verifica, por exemplo, nas questões que dizem respeito à liberdade religiosa, ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

     Gherardini vai mais longe do que os conservadores em geral e do que Ratzinger, em particular. Segundo os desta última corrente, é certo que se trata de refutar certas interpretações do Concílio, tidas como errôneas, mas sem nenhuma reticência em relação ao "autêntico Concílio"... Certamente, o Cardeal Ratzinger fazia questão de assinalar que o Concílio "não devia ser interpretado como um super-dogma". Contudo, em seu famoso livro Rapporto sulla Fede, o mesmo Ratzinger critica os integristas por não aceitarem o Concílio. Em substância, a sua posição continua sendo a de João Paulo II. Segundo este, era preciso defender o Concílio; nada, porém, a mais do que o Concílio. Portanto, recusa de leituras errôneas. Igualmente, nunca adotar uma posição reticente em face de um ensinamento que está sempre revestido — ainda que de forma implícita — da autoridade do Magistério.

     Ora, a "novidade" (se é que podemos utilizar a palavra) de Monsenhor Gherardini consiste em — de forma parcial e prudente, embora nítida e positivamente expressa — acusar diretamente o próprio Concílio, e não apenas algumas interpretações tidas como falsas! Eis o que claramente aproxima a sua posição da de Mons. Lefèbvre. Pelo menos, de um Mons. Lefèbvre como era antes de seu endurecimento e de sua retórica política...

     Pelo que diz respeito aos "tradi", podemos aquilatar a ampla dimensão do ponto de vista de Gherardini. Corresponde a uma legitimação, por parte da teologia romana, das opções lefevrianas. Essencialmente falando, mesmo sem a coloração extremista própria a certa tradição francesa...

     Que bom sustentáculo para uma santa restauração!

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     Fonte: PAIX LITURGIQUE et la thèse de Mgr Gherardini, le « penseur » des « tradis » soft ! (O site Paix Liturgique e a tese de Monsenhor Gherardini, o "pensador" dos "tradicionalistas" soft). Publicado no site francês Golias em 7/6/2010.

     Tradução para o português: Raphael de la Trinité.

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Renomado teólogo da tradicional "Escola Romana" analisa o valor magisterial dos documentos conciliares que os progressistas consideraram como "super dogma" – Mons. Brunero Gherardini – 25 setembro 2009

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