ATRÁS DA MÁSCARA DE MAO TSÉ-TUNG

 

André F. Falleiro Garcia

 

     A conhecida revista VEJA publicou, na seção de Livros, um comentário de Jaime Klintowitz sobre o depoimento do médico pessoal de Mao, ditador que dirigiu a China Comunista (República Popular da China) de 1949 a 1976, responsável pela morte de 65 milhões de chineses, segundo O Livro Negro do Comunismo [1]. Sem dúvida Mao tem lugar assegurado na galeria dos piores homens que já existiram.

     Enquanto realizava tal morticínio, a VII Frota norte-americana "protegia" Taiwan, e ao mesmo tempo impedia a reconquista do território chinês pelos anticomunistas refugiados na ilha de Formosa. Mao governava seu império de seu quarto, onde permanecia tranqüilamente meses a fio cercado de suas concubinas.


O "milagre econômico", proporcionado pelas mãos capitalistas ocidentais e o trabalho escravo chinês

     Mao tem semelhanças com outro tirano, Fidel. Ambos foram favorecidos politicamente pelo poderio norte-americano, a única superpotência real no anos da chamada Guerra Fria. Mas num ponto houve uma diferença importante: Fidel não conseguiu superar o bloqueio econômico norte-americano; ao passo que os comunistas chineses, desde a histórica visita de Nixon em 1972, foram beneficiados por um "milagre econômico" generosamente proporcionado pelos políticos e empresários ocidentais.


    [1] Le livre noir du communisme: Crimes, terreur, répression. Stéphane Courtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, Karel Bartosek, Jean-Louis Margolin. Éditeur Robert Laffont, 1997.      

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ATRÁS DA MÁSCARA *

 

Jaime Klintowitz

 

Visto por seu médico pessoal, Mao Tsé-tung era um ditador cruel e mulherengo

 

     Os sucessores de Mao Tsé-tung reformaram a economia, criando um regime que o fundador da República Popular da China teria abominado. Nenhum deles, contudo, ousou bulir na imagem de santificada austeridade que a propaganda oficial cuidadosamente criou em torno do Grande Timoneiro do comunismo chinês. Nada mais distante da vida real.


     O retrato que emerge de A Vida Privada do Camarada Mao (tradução de Gabriel Zide Neto; Civilização Brasileira; 842 páginas; 54 reais), escrito por Li Zhisui, médico pessoal de Mao de 1954 até sua morte, em 1976, é o de um homem devasso, egoísta e cruel, que viveu num clima de decadência, licenciosidade e despotismo na pior tradição dos imperadores chineses. As maldades do velho dragão já tinham sido expostas em outros relatos. Mas o perfil íntimo traçado pelo doutor Li vai além de qualquer outro, revelando um tirano ensandecido, que não tinha amigos, só empregados, bajuladores e, sobretudo, concubinas, mais de 3.000 em três décadas de poder.

     O Calígula chinês, que o doutor Li viu praticamente todos os dias durante 22 anos, jamais tomava banho ou escovava os dentes e recusou-se a ser tratado de uma doença sexualmente transmissível apesar de saber que tinha infectado dezenas, talvez centenas, de amantes. Mao vivia recluso, cercado de grande conforto, passava semanas, às vezes meses, na cama, de onde despachava a papelada oficial. Ainda que tenha imposto ao país um figurino único - a túnica Mao -, em casa o presidente se vestia com um roupão ou simplesmente se enrolava numa toalha. Não dava a mínima ao relógio e se orgulhava de dormir e comer em horas incertas. Preferia comunicar-se por escrito com os outros líderes ou, então, convocava-os para reuniões no meio da noite.

     Raras pessoas puderam dar uma olhada tão demorada na vida pessoal de Mao. O doutor Li vivia em Zhongnanhai, o complexo dentro da Cidade Proibida que servia de residência aos mandachuvas da revolução, e ia com Mao para todo lugar.


O doutor Li Zhisui

     Subia junto no palanque durante os desfiles na Praça da Paz Celestial, em Pequim, jogava-se no rio quando Mao insistia em nadar em lugares públicos para demonstrar seu vigor e determinação. "Nenhum outro ditador foi tão intimamente observado", afirma o cientista político americano Andrew Nathan na introdução às memórias do médico. Tem razão. Genro de Benito Mussolini, o conde Ciano chegou a escrever um diário sobre seu convívio com o ditador italiano, decrépito e sifilítico, mas poupa o leitor dos detalhes mais desagradáveis. A filha de Stalin escreveu suas lembranças do pai, mas são recordações de infância.

     Escravo de Mao

     As memórias do doutor Li contêm escasso material relevante sobre os bastidores da política e da diplomacia da época maoísta. Em parte porque o médico, por questão de sobrevivência, tomou o cuidado de se manter distante das intrigas políticas. Não esclarece, por exemplo, a misteriosa tentativa de golpe militar que resultou na morte do ministro da Defesa Lin Biao, em 1971. Herdeiro indicado de Mao, ele morreu num desastre aéreo quando tentava fugir para a União Soviética. Em compensação, o doutor Li é arrasador quando se põe a revelar a intimidade dos figurões da política chinesa. Lin Biao era um desequilibrado mental, diz o doutor Li, com fobia de água. O chanceler Chu En-lai, admirado no Ocidente por sua sofisticação, comportava-se diante de Mao com o servilismo de "um escravo".


Jiang Qing, a Madame Mao

     Não há ninguém que o doutor Li despreze tanto quanto a primeira-dama Jiang Qing. Mao casou-se quatro vezes. O primeiro foi um casamento imposto pelo pai, que parece não ter sido consumado. A segunda esposa, Yang Kaihui, com quem Mao teve três filhos, foi fuzilada pelos nacionalistas. A terceira, He Zizhen, deu-lhe seis filhos, enlouqueceu e foi enviada para tratamento na União Soviética. Casou-se então com Jiang Qing, uma atriz, em 1938.

     Desprezada pelo marido (Li acredita que era a única mulher com quem Mao não queria nenhuma intimidade sexual) e desesperada com a ociosidade, Jiang Qing se ocupava em atormentar a criadagem. Um dos motores da Revolução Cultural nos anos 60, ela foi condenada à prisão perpétua depois da morte do marido e se suicidou em 1991.

     Mao gostava de dormir com várias mulheres ao mesmo tempo e mantinha um estoque permanente de concubinas, na maioria atrizes e bailarinas recrutadas nos grupos culturais das Forças Armadas ou sindicatos. Com tanta atividade sexual, o doutor Li um belo dia se viu às voltas com uma epidemia de tricomoníase, doença assintomática no homem mas desconfortável para a mulher. Alertado pelo médico de que precisava tratar-se, Mao deu de ombros. "Se não sinto nada, para que tanto alvoroço?", perguntou. Com um misto de horror e fascínio, o médico relembra que as moças alardeavam com orgulho a doença, prova concreta da intimidade com o velho dragão. Mao dizia acreditar na teoria taoísta de que o sexo prolonga a vida. O doutor Li considerou a explicação desculpa esfarrapada de um devasso insaciável.

     A maioria das amantes era escolhida nos bailes realizados duas vezes por semana, enquanto os chineses comuns eram proibidos de dançar, escandaliza-se o doutor Li. Como no palácio de um sultão das arábias, nos anos 60 sua cama começou a ser instalada num quarto contíguo ao salão, de modo que o grande líder pudesse levar a escolhida para a cama depois de uma ou duas músicas. Quando viajava, levava junto o harém em seu trem especial. Mao era também o homem mais rico da China, graças à venda compulsória de seus livros. O curioso é que o velho fausto sofria de crises periódicas de impotência. O doutor Li notou que a atividade sexual de Mao se tornava mais intensa quando ele se envolvia numa grande briga política. Um dia, sem que se saiba por quê, o presidente tornou-se estéril. "Virei um eunuco?", perguntou assustado.

     Os dentes do tigre

     Avesso ao banho, o líder chinês preferia ser esfregado com panos úmidos por seus guarda-costas. Vez ou outra, um deles saía esbaforido do quarto de Mao, escandalizado com os avanços sexuais do presidente. Estranhamente tolerante nesse aspecto, o doutor Li não viu sinais de homossexualismo, mas a persistência de antigos costumes sexuais chineses. O mais radical dos revolucionários era conservador em muitos aspectos da vida diária. Como fazem os camponeses, todas as manhãs enxaguava a boca com chá e depois mascava as folhas. Rejeitou a escova de dentes, sob o argumento de que "um tigre não precisa de escovação". O resultado, no seu caso, foi lamentável. Seus dentes foram cobertos por uma placa esverdeada e caíram todos na velhice. Ele também se recusava a usar o vaso sanitário. Quando viajou para Moscou, foi preciso levar um penico na bagagem.

50 milhões foram vítimas desse monstro

     O doutor Li (que morreu há dois anos nos Estados Unidos, para onde tinha imigrado em 1988) conta que precisou de vários anos de convívio para se convencer de que seu paciente era um monstro. No momento em que Mao morreu, na madrugada de 9 de setembro de 1976, o médico foi tomado por uma sensação de alívio, logo substituída pelo pavor de ser responsabilizado pela morte. O líder chinês morreu de velhice aos 82 anos, com os pulmões e o coração em péssimo estado. Mas foi preciso esperar vários meses até que o Politburo aceitasse o diagnóstico de morte natural. O doutor Li, que em nenhum momento posa de herói, atribui sua sobrevivência ao cuidado de só abrir a boca para dizer o que Mao queria ouvir. Sábia providência, pois viveu para contar uma história que só ele sabia.

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     * VEJA - Edição 27/08/1997.

 

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