ELEIÇÕES 2008: DOGMA VIRTUAL

José Carlos Sepúlveda da Fonseca *

     

     Já notaram que entramos na era em que a pesquisa de opinião se tornou dogma? Analistas, especialistas, comentaristas... etc. se referem às pesquisas de opinião, tecem considerações sobre as mesmas e praticamente não as questionam. Nesta nossa época de tanto relativismo moral, ideológico e prático, contraditoriamente, elas são aceitas quase como uma verdade de fé.

     Pesquisas, as grandes derrotadas


Para Sepúlveda, as pesquisas são dogmas virtuais sem pé na realidade

     Neste pós-eleição municipal, as grandes derrotadas foram exatamente as pesquisas de opinião. Não vou aqui me estender sobre o assunto, mas este não é um caso isolado. Em todo o mundo, pesquisas de opinião têm sido fragorosamente desmentidas, o que deixa uma pergunta no ar, à qual é difícil fugir: não se tornaram as pesquisas um meio de manipulação da opinião, nos regimes democráticos?

     É preciso não esquecer que as pesquisas de opinião, além dos erros inerentes a toda a atividade humana, podem também ser manipuladas. Da maneira de formular as questões, ao modo e às circunstâncias de abordagem dos entrevistados, da indução à resposta, ao universo consultado e, por fim, da seleção das entrevistas a serem computadas na elaboração final da pesquisa. Nos famosos métodos das pesquisas, há uma miríade de formas e fórmulas para falsificar pesquisas ou deturpar-lhes o sentido.

     Conta-se que Churchill, o grande e aristocrata primeiro-ministro inglês, que se opôs heroicamente a Hitler, afirmava de modo irônico que, em matéria de estatísticas, só acreditava nas que ele mesmo falsificava.

     Pesquisas X realidade: confronto inevitável

     Há dias, dois institutos de pesquisa apresentavam resultados bem dissonantes dos resultados eleitorais. Vieram então a público "explicar" o motivo de tal discrepância. A mesma se deveria à diversidade dos métodos utilizados. Logo, digo eu, os métodos de pesquisa alteram os resultados. Mas alteram também a realidade?

     Pretende-se que a pesquisa seja um retrato fiel da realidade, mas se a diferença de métodos leva a imagens diversas da realidade, alguma coisa está errada... e não será a realidade. Fica a dúvida: as pesquisas serão sempre um retrato fidedigno da realidade sobre a qual se debruçam?

     Para as pesquisas de opinião política há, entretanto, um problema grave. É que elas são muitas vezes confrontadas com a manifestação direta do público. E todos nós passamos da suposição ao fato incontestável.

     Lembram-se do plebiscito do desarmamento? Pois é, a realidade, foi bem diversa da ficção apresentada pelas pesquisas.

     Urnas desmentem pesquisas

     Temos agora um fenômeno idêntico. Em diversas cidades importantes as pesquisas foram as grandes derrotadas. No momento, cito apenas três: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

     Em São Paulo, Marta Suplicy venceria de qualquer forma. Chegou até a cogitar-se em vitória definitiva no primeiro turno. Haverá 2º turno e Marta amargou um segundo lugar.

     No Rio de Janeiro, segundo as pesquisas, Eduardo Paes não tinha chances e Crivella passava com segurança ao 2º turno. Paes venceu, e Crivella foi varrido por Gabeira.

     Em Belo Horizonte, a candidatura de Márcio Lacerda (PSB), da tão decantada aliança do PT e do PSDB, apoiada pelo governador Aécio Neves (PSDB) e pelo prefeito Fernando Pimentel (PT) seria esmagadoramente vencedora no 1º turno. Não venceu e o adversário, do PMDB, Leonardo Quintão, quase empatou.

     Mas... sempre há um "mas", para tentar explicar o inexplicável. Há pouco folheei o caderno "Eleições 2008" do jornal O Estado de S. Paulo (6.out.2008) e deparei-me com matéria intitulada: Urnas contrariam pesquisas, mas especialistas negam falhas. O título é quase delirante. Ou seja, a realidade palpável do voto desmentiu as pesquisas, mas as pesquisas é que diziam a verdade.

     Lula não elege apadrinhados políticos

     Mas há um outro importante aspecto nestas eleições, sobre o qual gostaria de chamar a atenção, e que, uma vez mais, diz respeito a pesquisas de opinião.

     O presidente Lula, segundo as pesquisas, tem um nível de popularidade pessoal de mais de 80% e seu governo goza de um nível de aprovação beirando os 70%. Um jornal, considerado sério e credível, o já mencionado O Estado de S. Paulo, chegou a classificar o presidente, em um de seus editoriais, como o líder mais popular do mundo! Entretanto, com essa tão decantada e estratosférica popularidade, Lula não consegue eleger seus apadrinhados políticos, nos locais mais chaves para a política nacional.

     Afinal, no que consiste a popularidade de um líder político? Exatamente em obter apoio para seu modo de fazer política, para suas idéias, para seus projectos para o País.

     É verdade que as eleições municipais, sobretudo nas cidades de menor porte, têm conotações locais e pessoais que as tornam muito peculiares e diversas vezes pouco representativas da realidade política do país. Mas, nas grandes capitais, apesar de certas circunstâncias locais, é evidente que está em jogo o destino político da nação.

     Ora, Lula engajou seu prestígio pessoal a favor de diversos candidatos e, além disso, colocou seu governo em peso para apoiá-los, mas não obteve, nem de longe, os resultados almejados. Mais ainda, quando Lula apareceu em público dando apoio alguém, houve até um decréscimo na força política desse apadrinhado. Não vou estender-me demais. Apenas menciono alguns exemplos.

     Exemplificando

     Em São Paulo, Lula nunca escondeu a importância para ele e para o PT da eleição de Marta Suplicy. Afirmou mesmo que acreditava na possibilidade de vitória da candidata, já no primeiro turno. Para isso veio participar de carreatas ao lado dela. E o que aconteceu? Marta caiu e foi para o segundo lugar.

     No Rio de Janeiro, Lula e Sérgio Cabral começaram por apoiar Molon, o candidato do PT. Este obteve apenas magros 6%. Ao perceber as poucas chances de Molon, Lula também não escondeu - nem muitos de seus ministros - suas abertas preferências por Crivella. O ministro Mangabeira Unger afirmou pouco antes da eleição que Crivella tinha o projeto político mais afinado com o Governo Federal. Crivella não passou para o segundo turno.

     Em Curitiba, o Governo Federal deu seu apoio maciço a Gleise Hoffmann (PT), e a cidade era peça-chave na estratégia governista. Dilma Roussef foi a Curitiba e empenhou todo o seu prestígio de provável candidata presidencial de Lula. Resultado, um devastador 77,27% de votos para Beto Richa contra os 18,17% da candidata do PT e do Planalto.

     Em São Bernardo, Lula decidiu subir no palanque do ex-ministro Luiz Marinho (PT), para obter uma vitória histórica para o sindicalista, já no primeiro turno. Investiu todo o prestígio, com um empenho não visto em outras cidades, apresentando-se como cabo eleitoral, dirigindo pesados ataques ao atual prefeito. Especulou-se até que o empenho de Lula para uma vitória arrasadora, seria favorecer uma futura candidatura de Marinho a governador de São Paulo. Haverá 2º turno.

     Em Natal, Lula também subiu no palanque, para dar apoio à petista Fátima Bezerra. Ali proferiu um dos discursos mais agressivos de sua campanha e garantiu que sua apadrinhada venceria Micarla de Souza, apoiada pelo senador Agripino Maia, líder do DEM no Senado. Micarla obteve 50,84% dos votos, vencendo no 1º turno e impondo um vexame eleitoral ao Presidente. Há mais, mas fico por aqui.

     Manipulação sem limites

     Estamos diante de uma realidade inequívoca: Lula não consegue mover o eleitorado para votar em seus apadrinhados e, no fundo, apoiar seu projeto político. É um fato incontestável. Esse fracasso ainda se acentua mais se o confrontarmos com a estratosférica popularidade, alardeada pelas pesquisas.

     Apesar deste fato clamoroso, continuam a nos bombardear com o dogma de que Lula é popularíssimo, e conta com mais de 80% de aprovação. Tentam interpretar a realidade palpável dos votos, dizendo que, no fundo, ela não é aquilo que parece ser: ou seja, o desmentido fragoroso da proclamada popularidade política de Lula.

     Impingem-nos, como dogma virtual, a "realidade" impalpável de uma vaga pesquisa. E nos reinterpretam a realidade palpável do voto do eleitorado. A manipulação parece não ter limites. A isto se chama prestidigitação! Aqueles famosos truques, para embair crianças, que se apresentavam nos circos: tirar coelho da cartola e outros do gênero.

     Ah, antes de terminar ainda uma pequena nota. Segundo a famosa pesquisa que constatou a popularidade recorde de Lula, sabem qual foi o motivo principal para esse apoio do público? A descoberta do petróleo do pré-sal. Convenhamos, descoberta de petróleo não é fundamento consistente de popularidade de líder político, está mais para popularidade de presidente... da Petrobrás.

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     * Editor do blog Radar da Mídia

    

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