O ACORDO ORTOGRÁFICO: EM VEZ DA UNIDADE NA DIVERSIDADE, O FARDO DA IGUALDADE

André F. Falleiro Garcia

 

Os presidentes Cavaco Silva e Lula. Por detrás dos cumprimentos de estilo, a polêmica questão ortográfica

     Atualmente há duas normas ortográficas oficiais da língua portuguesa, a brasileira e a luso-africana. Em vez da melhora na qualidade de ensino - para que a grande maioria, que lê sem entender tudo, possa compreender tudo o que lê - preferiu-se adotar a panacéia simplista, desnecessária e controversa da reforma ortográfica.

     Os que dominam a atual ortografia terão que se reciclar e aprender de novo. Essa minoria, dos mais capazes, acabará dando conta da tarefa, apesar do fardo. E os menos capazes flutuarão, por alguns anos quiçá, nas águas turvas que misturam a ortografia antiga mal aprendida e o conhecimento novo não inteiramente adquirido.      

     Ter-se-ia que imitar o castelhano, que adota uma só forma ortográfica, embora com diferenças nas pronúncias e no vocabulário. Não obstante, a língua inglesa, falada em alguns países como língua nativa e em outros como segundo idioma, admite variações ortográficas e sequer possui regulação oficial. Por que então não continuar com a legítima unidade na diversidade que existe na língua portuguesa?

     A unidade na igualdade, que vai ser imposta de cima para baixo, pela imposição da lei, é mais uma manifestação do totalitarismo estatal. É verdade que foram ouvidas algumas entidades científicas e certos especialistas, que se dobraram aos discutíveis interesses do Estado. Mas houve grande controvérsia sobre o assunto. Restou à língua portuguesa prestar seu culto ao ídolo do Igualitarismo e verter sangue no altar da imolação.

     Percival Puggina, com talento, descreveu essa insólita situação: "Preparemo-nos, então, para a penosa tarefa de reaprender a escrever. .... Trata-se de uma agressão pessoal a dezenas e dezenas de milhões de pessoas que, em anos de estudo e com muito sacrifício, automatizaram hábitos de escrita e escrevem o idioma conforme lhes foi ensinado."

     Haverá, oficialmente, uma fase de transição, em que a ortografia atual e a nova coexistirão. Em janeiro de 2013 começará, para valer, a obrigatoriedade da nova ortografia. Será mais um caso de "lei que não pega"? Tem-se fundado receio de que o Acordo Ortográfico venha a se constituir em mais um fator de caos no nosso conturbado Brasil.

 

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A GOLPES DE ORTOGRAFIA *

Percival Puggina

 

     Ufa! Demorou quase duas décadas! O acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa foi assinado em 1990, referendado pelo Congresso Nacional em 1995 e tivemos que esperar sentados, até agora, para que finalmente entrasse em vigor. Não houve clamor popular nem marcha até Brasília que acelerasse processo tão urgente e tão indispensável à coesão universal do nosso idioma. Cheguei a tentar uma greve de fome que se desmoralizou perante uma bomba de chocolate. Mas não há mal que sempre dure. Já iniciamos a contagem regressiva para janeiro de 2009, quando o acordo entrará em vigor. E então, concluída a sutura no nosso corpo idiomático, a "última flor do Lácio, inculta e bela" resplandecerá perante o mundo seu uniforme encanto. E nossos bebês, como os pequeninos de Portugal, passarão a ser bebés...

     Preparemo-nos, então, para a penosa tarefa de reaprender a escrever. Queriam o quê? Não se fazem pastéis de santa clara sem quebrar ovos, ora pois. É um sacrifício mínimo para solucionar problemas máximos do nosso cotidiano. Toda santa vez que a gente folheava o jornal de Cabo Verde, o Jornal das Ilhas, ou o Notícias de Moçambique, era aquele problemão! A maldita falta de unidade ortográfica nos fazia indagar sobre o que seria uma jiboia, dado que da cobra jibóia não podia se tratar. Todos os textos de Guiné-Bissau que nos caíam nas mãos eram incompreensíveis devido à mania de escrever acção em vez de ação.

     Contam-me que quem está festejando a novidade é a Microsoft, cujo programa Word, dispensando certas variações idiomáticas, dará uma boa simplificada no seu corretor ortográfico. Nada se comparará, no entanto, ao conforto que me trará a amputação do trema na palavra seqüência. Na minha idade não era mole subir quatro andares no teclado para pressionar aqueles dois pontinhos, saltar em seguida para o acento circunflexo, e voltar às pressas aos andares das letrinhas. Agora acabou. Escreveremos como todo cabo-verdiano.

     Fim das ironias. A quem interessar possa: considero esse acordo ortográfico o cúmulo da falta do que fazer. Coisa de desocupados. Um amigo meu, sujeito desconfiado, desses que vê maldade em tudo, está convencido de que se trata de uma sinecura. "De algumas editoras? Não, imagina...", comento eu. O fato é que nunca tão poucos atrapalharam tanto, sem qualquer motivo sério, a vida de tantos! Trata-se de uma agressão pessoal a dezenas e dezenas de milhões de pessoas que, em anos de estudo e com muito sacrifício, automatizaram hábitos de escrita e escrevem o idioma conforme lhes foi ensinado. Aliás, duzentos e trinta milhões de pessoas serão afetadas pelo acordo e cento e oitenta milhões (quase 80%) são brasileiras. A perversidade, levada ao grau máximo, deu nisto: enche-se a paciência dos 100%.

     Com que direito? Para quem trabalha escrevendo será o mesmo que, para os músicos, mudar a ordem das notas na escala. Em poucos dias haverá apenas alguns indivíduos no planeta que saberão escrever corretamente no idioma português – aqueles que criaram essa droga de acordo. Tudo que tenho redigido e arquivado ao longo de décadas, gigabytes de texto, ficará errado, inadequado ao consumo, validade vencida. Com que intuito se produz esse desperdício de bilhões de exemplares de livros que de um dia para outro restarão anacrônicos? Já imaginou, leitor, quantas árvores terão que ser abatidas a golpes de ortografia para refazer todo o material didático nacional? Será que ainda não dá para abortar esse absurdo?

 

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     * Zero Hora, 26.10.2008

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