EUROPA E ESTADOS UNIDOS TEMEM A RÚSSIA *

Ángel Maestro    

  

     E agora, barcos de guerra russos fazem manobras no Caribe. Na Europa e nos Estados Unidos ressurgiu o temor em relação à Rússia, por causa do conflito russo-georgiano. Na sociedade russa retomaram vida as idéias do período da Guerra Fria. E enquanto tal antagonismo desperta preocupação e certo medo nos países ocidentais, na Rússia está produzindo um sentimento de satisfação, já que para a maioria dos russos a Guerra Fria nunca acabou. A Rússia não faz senão recuperar as posições perdidas com o desabamento da União Soviética.

Corveta Steregushchiy.

Após a implosão da URSS, foi o primeiro navio de superfície entregue à frota russa, em 2007.

As manobras navais russas no Atlântico e agora no Caribe são importantes elementos da guerra psicológica, para produzirem no Ocidente o medo e a simpatia

     Antes do conflito na Ossétia do Sul, em agosto de 2008, apenas 4% dos entrevistados na Alemanha, França. Inglaterra e Itália consideravam a Rússia como a maior ameaça à estabilidade global, conforme uma pesquisa encomendada pelo conhecido diário econômico Financial Times. Neste mês a Rússia foi apontada por 17%, e o Irã por 14%. Uma pesquisa similar foi realizada nos Estados Unidos, e as porcentagens relativas à ameaça representada pela Rússia passaram de 2% em agosto a 13% no presente mês de outubro.

     No entanto os europeus continuam mostrando-se contrários a um possível aumento dos gastos militares (“os norte-americanos nos defenderão”, parece ser o sentimento geral), nem lhes entusiasma a perspectiva de enviar tropas da OTAN no caso de uma hipotética intervenção russa nos países bálticos. Mas os norte-americanos são mais propensos a aceitar ambas as possibilidades.

     A atitude dos russos com relação ao Ocidente também piorou segundo as pesquisas. Dois terços dos entrevistados em setembro, diante de 29% em junho, vêem com maus olhos os Estados Unidos; enquanto que a OTAN é mal vista por 63% dos russos. Este resultado reflete a visão do papel que os Estados Unidos desempenharam no conflito do Cáucaso, já que a opinião generalizada na Rússia é que foi Washington quem instigou a Geórgia a iniciar as hostilidades. Ao lado disso, as pesquisas na Rússia apresentam um crescente apoio ao governo e um maior grau de confiança nas Forças Armadas nacionais.

     Nessa linha, a viagem de várias unidades da Marinha de Guerra russa para a América do Sul, encabeçadas pelo cruzador pesado de propulsão nuclear Pedro o Grande, com o objetivo de realizar manobras militares conjuntas com a Venezuela, despertou grandes desconfianças nos Estados Unidos, onde se considera que se trata de uma demonstração de força para responder às ações norte-americanas na Polônia e na República Tcheca, de instalação de sistemas antimísseis apontados claramente para a Rússia.

Dos 300 navios das frotas russas, calcula-se que apenas 30 ou 40 estejam operacionais. O Moskva, cruzador lança mísseis, atracou em Lisboa em janeiro/2008

     Um alto membro da Marinha russa, o vice-almirante Igor Dygalo, anunciou que as manobras navais nas águas do Caribe se realizarão em conjunto com a Armada venezuelana entre 10 e 14 de novembro, insistindo que "as manobras não estão dirigidas contra nenhum outro país, carecendo de agressividade ou de significado político". O que não impediu que o mesmo vice-almirante afirmasse: "A Armada russa está retornando com autoconfiança aos oceanos do mundo".

     E na Síria engenheiros russos estão trabalhando na ampliação e acondicionamento dos portos de Tartus e Latakia, onde ficarão possivelmente alguns dos novos porta-aviões de propulsão nuclear e cruzadores com mísseis.    

     Por sua vez, a Marinha norte-americana ordenou que aviões anti-submarinos, bem como submarinos nucleares, sigam os navios da frota russa no Caribe, informação confirmada pelo porta-voz da Casa Branca, M. McKormak.

     Segundo fontes russas confiáveis, quase 60% dos russos acreditam que a Guerra Fria continua em marcha, E a maioria considera que a tensão global e a disputa contínua com os Estados Unidos resultarão prejudiciais para a economia, mas isso será inevitável.

 

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     * Artigo publicado no site espanhol www.elmanifiesto.com

     Tradução: André F. Falleiro Garcia

 

 

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