A MARCHA DO CAOS FACTUAL

 

André F. Falleiro Garcia

     

     Neste artigo serão apresentadas as três fases da marcha processiva comunista. Para ilustrar esta análise, ao final será enfocada a tentativa de transferência da Escola Superior de Guerra, tradicional instituição militar formadora da elite militar e civil, sediada no Rio de Janeiro, para Brasília.

     A fase marxista-leninista


20 milhões de mortos na URSS, segundo O Livro Negro do Comunismo

          Desde os anos do terror stalinista, a conservação e a expansão do regime comunista realizaram-se segundo formas clássicas consagradas pela doutrina marxista-leninista. A nota comum era a violência, presente tanto na repressão interna nos países comunistas quanto na expansão internacional por meio de guerras, golpes de Estado, guerrilhas etc. A propaganda ideológica comunista no Ocidente, promovida pela máquina do partido ou a serviço do partido, tinha em vista o levante popular, a luta de classes etc. Enfim, a via armada para a conquista do poder representava a estratégia expansionista do comunismo.

     O resultado disso aparecia quando eram abertas as urnas eleitorais em eleições livres: partidos comunistas anões e insucesso fragoroso na via eleitoral. O impasse a que chegou a expansão comunista levou seus dirigentes a reformularem, ainda nos tempos da Guerra Fria, a sua estratégia. Para a demolição do Ocidente passaram a promover a guerra psicológica revolucionária total, envolvendo todo o homem e o contexto político-social em que está inserido. Conforme relatou  o ex-agente da KGB e dissidente soviético Yuri Alexandrovich Bezmenov, apenas cerca de 15% do tempo, capital e recursos humanos da KGB era gasto especificamente em espionagem e atividades de inteligência. Segundo Bezmenov, os outros 85% eram empregados "em um processo lento que chamamos de subversão ideológica, ou 'medidas ativas' na linguagem da KGB, ou guerra psicológica".[1]

     A fase gramscista: o neocomunismo


Gramsci acentuou a busca da hegemonia cultural e a demolição da Igreja

     Sem que tenham abandonado a doutrina e o método marxista-leninista, os dirigentes comunistas priorizaram então uma atualização que fora preconizada pelo teórico marxista Antonio Gramsci (1891-1937). Com efeito, Gramsci distinguiu a “sociedade política” da “sociedade civil”. Enquanto a doutrina marxista-leninista concentrava a aplicação dos esforços sobre a sociedade política que correspondia ao Estado e Governo, Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano considerou como mais importante alcançar previamente a hegemonia cultural na sociedade civil (as escolas, as universidades, os partidos políticos, as religiões, a mídia etc.).

     Com relação à Igreja Católica, principal bastião da luta anticomunista no Ocidente, Gramsci concebeu a sua destruição por meio da infiltração das idéias comunistas. De fato, com a subida ao trono pontifício de João XXIII teve início a obra demolidora. Sobretudo por meio da concepção igualitária (que apagava a fundamental distinção entre a simples natureza humana e a transcendência divina), da desmitificação das categorias e valores religiosos e da dessacralização, técnicas que se revelaram muito eficientes para a autodemolição da Igreja. Desse modo a sacralidade eclesial se tornou o principal alvo do neocomunismo.

     Com efeito, “entre as medidas para alcançar o que denominava “hegemonia cultural”, Gramsci propunha acabar com as crenças, tradições e costumes que falam ao homem de uma transcendência, ridicularizando-as; silenciar, por meio da calúnia, com tudo aquilo que remete para algo transcendente; criar uma nova cultura, na qual a transcendência não tenha lugar; infiltrar a Igreja para conseguir, por qualquer meio, que bispos e sacerdotes atuem contra ela. Este plano, basicamente propunha a autodestruição da Igreja”.[2]

     Os anos 60 e 70 foram marcados por esse neocomunismo gramscista, pluralista e convergencialista, que promoveu a queda das barreiras ideológicas e a distensão entre o mundo capitalista e o socialista. Progrediu a autodemolição da Igreja, graças à aplicação do Concílio Vaticano II e à atividade dos papas conciliares. Nesse contexto, o neocomunismo com freqüência se tornou proteiforme e invisível, minando sorrateiramente as instituições e os costumes, modificando hábitos arraigados na psicologia do homem ocidental. A Revolução da Sorbonne em 1968, a Revolução Sexual, a Revolução Cultural que se serviu do rock-and-roll e das drogas, constituíram modalidades dessas transformações promovidas ou estimuladas pelo neocomunismo.

     A fase do caos factual

     A partir dos anos 80, estando já em gestação a metamorfose do comunismo que Gorbatchev denominou “perestroika” (reestruturação), um dos artifícios táticos usuais nas revoluções começou a adquirir destaque cada vez maior: o caos. O processo revolucionário comunista até então avançava fundado na estratégia marxista-leninista atualizada por Gramsci. Com a propagação do caos, as transformações sociais revolucionárias, tanto na sociedade política quanto na sociedade civil, passaram a avançar sobretudo a partir da realidade dos fatos impactantes. O que não interrompeu as maquinações do neocomunismo, mas passou a funcionar como um acelerador episódico, mas freqüente, do processo.

O Muro de Berlim em 1982. O Muro de Berlim em 1989

     Houve então a queda do Muro de Berlim (1989) e a dissolução da URSS (1991).

     Estes acontecimentos não devem ser atribuídos exclusivamente ao enorme descontentamento popular latente no Leste Europeu gerado pelo notório fracasso econômico-social do chamado socialismo real. Uma imperiosa e urgente necessidade do processo de convergência entre o mundo capitalista e o comunista moveu os próprios dirigentes comunistas a programarem e executarem a grande mudança.[3]

     Também por uma exigência do processo revolucionário houve a metamorfose do comunismo: o socialismo real engessava o sistema, impedindo a marcha rumo à sociedade autogestionária, à anarquia e à anomia de micro-coletividades à margem do Estado, onde as formas cooperativistas e tribais realizariam a utopia igualitária.


Medvedev com Chávez

      Sob Yeltsin e depois Putin, o comunismo soviético deu lugar a uma outra estrutura ideológica e sócio-política. Mas, passados alguns anos, o ilusionismo já não produz o mesmo efeito: a presença de navios da marinha de guerra russa em manobras nas águas do Caribe desperta agora na opinião pública a suspeita de que se defronta com o mesmo comunismo de antes, igual ao que sempre foi. Não foi por acaso que Chávez recepcionou a armada russa depois — e não antes — das recentes eleições venezuelanas.  

     Na fase do caos factual os acontecimentos surgem dotados de um dinamismo próprio, capaz de impulsionar grandes e históricas mudanças. Aparecem ventos novos, supostamente espontâneos, que desencadeiam fatos impactantes que, por sua vez, são amplificados e ultradimensionados pela mídia e assim aceleram a marcha do processo revolucionário. As entranhas agitadas e cheias de surpresa da realidade se transformam numa máquina produtora de um caos considerado criativo, que invade os espaços antes ocupados pelo clima de ordem e harmonia no interior da pessoa humana, nas instituições sociais e nos órgãos componentes do Estado.

     Os dois métodos do caos na América

     Um dos métodos desse caos revolucionário — induzido e não espontâneo — é o apodrecimento da família e das demais instituições sociais, como também a corrupção nas estruturas de poder do Estado. Um exemplo disso na realidade brasileira foi o acontecimento bombástico de 13 de junho de 2006: a entrevista do deputado Roberto Jefferson, na qual revelou a existência do “mensalão”, um vasto esquema de corrupção envolvendo partidos políticos, empresas estatais e privadas, ministros do governo etc.

     Outro método do caos é a implosão da ordem nas estruturas do Estado ou nas instituições da sociedade civil pela exacerbação de fatores heterogêneos ou homogêneos. É o caso da promoção das reivindicações tribalistas, mediante a acentuação das heterogeneidades, em detrimento da soberania nacional. Aqui já publicamos algumas matérias a esse respeito.[4]

     A meta do processo caótico

     A meta última do processo caótico não se limita à construção da URSAL (a União das Repúblicas Socialistas da América Latina) ou da Ameríndia (o continente tribal latino-americano). Estas são etapas transitórias ou eventualidades operacionais. Pois esse processo visa em última análise o desmantelamento total da sociedade política e da Igreja, da sociedade civil ordenada e da própria estrutura psicológica do homem (para livrá-lo do jugo da razão e imergi-lo na fantasia e mitos tribais). Essa meta autogestionária, caótica e anárquica foi antevista, entre outros, por Engels.[5]

     Na perspectiva da entrada do Brasil na Idade do Caos, nota-se que há pouco mais mais de vinte anos foi iniciada a caminhada por esse percurso que não é longo nem demorado. A velocidade vertiginosa dos processos caóticos de apodrecimento ou implosão não queima etapas, mas a desagregação e ruptura do tecido social são aceleradas à medida que as estruturas psicológicas e sociais vão sendo desarticuladas. Se considerarmos que o progresso de uma nação na História guarda certa analogia com a vida do homem, ficaremos estarrecidos diante da real possibilidade de que nossa pátria, que mal atingiu sua maturidade, caminhe veloz e inexoravelmente para a decrepitude.

     A caotização das instituições-chaves


Escola Superior de Guerra no Rio

     Exemplo da marcha do caos em parceria com o neocomunismo, através do desmantelamento das instituições sociais rumo à sociedade-nada, é a tentativa de mudança da Escola Superior de Guerra (ESG), sediada no Rio de Janeiro, para Brasília. Aplaudimos o esforço de um de seus dirigentes, o coronel Celente, que se empenha em preservá-la para que não caia na armadilha mortal dessa transferência caótica, que resultará em seu desmantelamento ou aparelhamento político.

     Com efeito, ele denunciou no artigo "Em defesa do último bastião do nacionalismo: a Escola Superior de Guerra" a existência de uma campanha de calúnias ou comentários desairosos sobre a ESG, com a finalidade de sensibilizar o Congresso Nacional para a aprovação da transferência da instituição para Brasília. Dentre os absurdos veiculados, destacou: a ESG estaria ultrapassada e não serviria para mais nada; seu Método de Planejamento Estratégico parou no tempo e no espaço; no Rio de Janeiro estaria deslocada, urge a sua transferência para Brasília, para os políticos fazerem seus cursos.

     Com relação à possibilidade de que a transferência da ESG para Brasília faria os políticos retornarem ao seu Corpo de Estagiários, o coronel Celente considerou a afirmação tão infantil que denota a falta de largueza perceptiva. Pois os políticos não deixariam de participar de eventos em sua base eleitoral para assistir aulas ministradas pela ESG. E com amplo e inegável conhecimento de causa rebateu as acusações sobre a falta de atualidade da ESG e falta de eficiência de seus métodos.

     Não se pode deixar de vislumbrar sinais da atuação do caos factual nesse episódio, à vista do questionamento feito pelo coronel Celente: "Será que é proposital a notícia-surpresa, objetivando impactar nefastamente, em termos psicológicos, a todos da Escola e, com isso, obstruir a difusão do nosso Pensamento Estratégico à Sociedade Brasileira?" 

     Publicamos a seguir os trechos mais expressivos desse artigo, ilustrativo do que aqui foi dito sobre a marcha do caos factual. Aliás, remetemos os leitores que queiram aprofundar o estudo do caos factual para o artigo Caos apático e factual na revolução tribalista peruana, que complementa as noções aqui apresentadas.

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     NOTAS:

 

    [1] As interessantes declarações de Bezmenov podem ser vistas no Youtube.  

    [2] Fundador del partido comunista italiano se convirtió antes de morir.  ACI Prensa, 10 de dezembro de 2008.

    [3] Ver o artigo "Filmando a grande fraude", por Jeffrey Nyquist:

Filmando a grande fraude

    [4] Ver, neste site, as seguintes matérias publicadas sobre o caos:

 

Caos apático e factual na revolução tribalista peruana

Caos apático e factual na Espanha

Variações cromáticas do socialismo e do comunismo

Erguendo muralha contra o avanço do caos

Crise, que crise?  

Rumo ao caos fabricado

Cué-Cué Marabitanas: o arco indigenista se fecha sobre a Amazônia

A fragmentação do Brasil

Sacralidade ou caos? A América escolhe o seu rumo     

    [5] ENGELS, “A origem da família, da propriedade privada e do Estado” (Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 3ª ed., 1977, pp. 195-196):

     “Portanto, o Estado não tem existido eternamente. Houve sociedades que se organizaram sem ele, não tiveram a menor noção do Estado ou de seu poder. Ao chegar a certa fase de desenvolvimento econômico, que estava necessariamente ligada à divisão da sociedade em classes, essa divisão tornou o Estado uma necessidade. Estamos agora nos aproximando, com rapidez, de uma fase de desenvolvimento da produção em que a existência dessas classes não apenas deixou de ser uma necessidade, mas até se converteu num obstáculo à produção mesma. As classes vão desaparecer, e de maneira tão inevitável como no passado surgiram. Com o desaparecimento das classes, desaparecerá inevitavelmente o Estado. A sociedade, reorganizando de uma forma nova a produção, na base de uma associação livre de produtores iguais, mandará toda a máquina do Estado para o lugar que lhe há de corresponder: o museu de antiguidades, ao lado da roca de fiar e do machado de bronze”. 

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EM DEFESA DO ÚLTIMO BASTIÃO DO NACIONALISMO: A ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA

 

ANTONIO CELENTE VIDEIRA

 

Nesta casa, estuda-se o destino do Brasil, para melhor servi-lo.

(Mal. Humberto de Alencar Castelo Branco)

 

     Os  meus deslocamentos para Brasília, a serviço, deixaram-me estupefato diante dos comentários desairosos sobre a nossa Escola Superior de Guerra (ESG). Dentre os absurdos, segundo a minha ótica, destaco:

      a ESG está ultrapassada e não serve para mais nada;

      o Método de Planejamento Estratégico da ESG parou no tempo e no espaço;

      a ESG no Rio de Janeiro está deslocada. Urge a sua transferência para Brasília, a fim dos políticos fazerem seus cursos.

     Paro por aqui para não me alongar, mas digo que são produções infundadas, não se sustentando com cinco minutos de diálogo, se confrontadas com as reflexões dos que conhecem e vivem a ESG e pensam diferente.

    Refutação da afirmação de que a ESG no Rio de Janeiro está deslocada, por isso urge a sua transferência para Brasília para os políticos fazerem seus cursos

     Voltando à nossa ESG, fiquei constrangido quando alguém me disse que com a ESG vindo para Brasília, nossos políticos voltariam a fazer parte do seu Corpo de Estagiários. Esta é uma afirmação tão infantil que dá para perceber a falta de largueza perceptiva.

     Onde já se viu o político atual deixar de participar da “festinha junina” do interior do seu estado no Norte ou no Nordeste para assistir aulas de Cratologia (estudo do Poder) ministrada pela ESG? Se Brasília é hoje local para sediar a ESG, por que, aproximadamente, há dez anos, não acontecem Ciclos de Estudos de Política e Estratégia (CEPE) na Delegacia da ADESG da Capital Federal? Por que o GETRAM (Gerência Executiva de Transporte e Mobilização), um excelente Curso de Logística de Transporte, ministrado pelo Exército Brasileiro, em parceria com a Faculdade da Terra, não foi para frente? Qual o motivo que influenciou a não permanência do antigo Curso Intensivo de Mobilização Nacional (hoje Curso de Logística e Mobilização Nacional – CLMN) em Brasília, funcionando naquela cidade no curto período de 1982 a 1986, a retornar para a ESG em 1993? 

     Essas são questões que não se calam e não podem ficar fora do estudo do processo decisório (se é que vai haver) sério para remoção de uma Escola como a nossa.

     Refutação da afirmação de que a ESG está desatualizada e inútil

     Por outro lado, quer queira ou não, o Rio de Janeiro é ainda o Centro Cultural do Brasil, gozando a ESG o privilégio de estar nas proximidades da Academia, isto é, recebendo conferencistas de universidades do próprio Rio de Janeiro, Minas gerais, São Paulo e, até mesmo, de Brasília, a menos de uma hora e meia de vôo.

     Em contrapartida, Brasília, uma cidade altamente politizada, vai desconfigurar o último "bastião" onde se estuda o Brasil, entre civis e militares, de forma isenta e imparcial. A Escola de Estado vai se transformar em Escola de Governo.  Substituir-se-á um aprazível local, com tradição, nascedouro do Rio de Janeiro, com a chegada de Estácio de Sá, por instalações frias, ilhadas pelo sentimento público fantasioso que não retrata, graças a Deus, os verdadeiros anseios do povo brasileiro. Em suma, trocar-se-á a cidade maravilhosa, decorada com os encantos da natureza, pelo arrroubo da urbe empedrada, contendo, na intangibilidade de suas linhas arquitetônicas, a insipidez dos interesses grupais.

     Se a ADESG de Brasília não promove CEPEs há dez anos, a ESG, “sediada no Rio de Janeiro”, projeta o seu braço na Capital Federal, através do Curso de Gestão de Recursos de Defesa (CGERD), produzindo elevados elogios, a partir de oficiais das três Forças Singulares e civis de repartições públicas que tiveram o privilégio de freqüentarem suas aulas e palestras por prestarem serviço em Brasília. O fato do CGERD estar dando certo em Brasília é porque, no seu bojo, guarda a mística do método de ensino da ESG forjado por ícones como os Marchais Oswaldo Cordeiro de Farias, Juarez Távora, César Obino, Desembargador Antonio de Arruda e tantos outros abnegados pela causa “esguiana”.

     A evolução desse método, em sincronia com o comportamento do mundo atual, deve-se à dedicação do seu Corpo Permanente, ao qual tenho a honra de pertencer e que, sem alardes, pesquisa e se atualiza, procurando fazer o melhor, não obstante os óbices naturais da Administração Pública.

     Quanto ao inconsistente argumento sobre a desatualização do conteúdo programático, não sei de onde isto está vindo. A ESG é parceira da COPPEAD, quando todos os seus cursos têm professores, além dos brilhantes membros do Corpo Permanente, os daquela Instituição, cujo posicionamento é destaque em excelência de Gestão Estratégica no Brasil e no mundo. A COPPEAD, desde 2001, por seis vezes, no Ranking Anual do Financial Times, está classificada entre os 100 melhores programas de MBA do mundo e posiciona-se entre os 12 programas de pós-graduação em Administração da América Latina, segundo a revista chilena América Economia.

     Com a Universidade Federal Fluminense (UFF), está-se buscando uma parceria, em fase final de concretização, na área de Defesa. Aliás, no Segundo Simpósio de Defesa, realizado no período de 15 a 18 de julho do corrente, pela Associação Brasileira de Estudo de Defesa (ABED), na UFF, com a participação das escolas militares de Altos Estudos, de Aperfeiçoamento e de Formação das três Forças Singulares, além de diversas universidades do Brasil, representadas por professores e mestrandos, lá estava a ESG, com alguns de seus professores, todos também doutores e mestres, formados por centros de excelências em pesquisa. Suas apresentações temáticas foram alvo dos mais efusivos elogios proferidos por oficiais da Aeronáutica, todos meus ex-cadetes, destacando-se esses professores como superiores, em profundidade e em objetividade, em relação aos demais que lá naquele simpósio também se apresentavam.   

     Por conseguinte, não consigo entender por que flui a conversa de termos um Corpo Permanente despreparado. Se forem levantadas as qualificações dos membros do Corpo Permanente, verificar-se-á que a grande maioria possui mestrado e doutorado, reconhecidos pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES). Além disso, existe uma intensa produção de artigos em periódicos diversos e participação em simpósios e congressos, denotando a ESG ser possuidora de excelente “capital intelectual”.

     Outra parceria que a ESG tem é com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), cujos beneficiários são os estagiários dos Cursos de Gestão de Recursos de Defesa (CGERD), Logística e Mobilização Nacional (CLMN) e Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE). Afora isso, existe forte relacionamento com escolas congêneres à nossa, através de protocolos de intenções e de cooperações, com países como China, África do Sul, Angola, Chile, Estados Unidos, Colômbia, Namíbia, Peru, Portugal, Uruguai e Espanha, além de receber comitivas de nações como França, Inglaterra, Singapura, Coréia do Sul e tantas outras e lá também comparecendo com as nossas, travando intensa troca de experiências com o mundo, de uma maneira geral, em assuntos de estudos relacionados à geoestratégia, defesa, segurança, economia e outros. Então, não vejo onde estar deslocado em relação aos demais Institutos de Altos Estudos espalhados pelo mundo.

     Refutação da afirmação de que o Método de Planejamento Estratégico da ESG parou no tempo e no espaço

     Por fim, é vergonhoso falar que o nosso Método de Planejamento Estratégico está ultrapassado. Cabe aqui mencionar, como algo interessante nesta discussão, que não se faz qualquer tipo de crítica quanto ao Estudo de Estado-Maior ou ao Exame de Situação, ambos ministrados nas três Escolas de Altos Estudos das nossas Forças Singulares.

     Mas, quanto ao nosso Método, não - este seria antiquado. Ora, além do Estudo de Estado-Maior e do Exame de Situação, tive a oportunidade de estudar outros, quando fiz o Mestrado em Gestão e Tecnologia. A análise SWOT (Strengths-Força; Weaknesses-Fraqueza; Opportunities-Oportunidade; Threats-Ameaças), o método Analytic Hierarchy Process (AHP), a Pesquisa Operacional (PO), a Decision Support System (DSS), o Jogo de Empresa, a Análise Multicritério, utilizando, em alguns casos, o aplicativo informatizado “promoden”, como uma ferramenta de simulação, indicando soluções ótimas, tudo em cima de autores como Michael Pidd, Tamio Shimizu, Max H. Bazerman, Luiz Flávio Autran Monteiro Gomes e outros expoentes do estudo da Propedêutica e da Heurística.

     Em nenhum momento, percebi inferioridade no Método de Planejamento Estratégico da ESG. Pelo contrário, o nosso Método, com o auxílio da ferramenta PUMA, é, sobremaneira, objetivo, elucidativo e amigável diante das incertezas do decisor e superior aos mencionados acima, na configuração de cenários prospectivos.

     Logo, são inconcebíveis determinadas afirmações, em relação à nossa ESG, cujo teor ainda não percebi a qual fim se quer chegar.

     A reação justa em defesa da ESG

     Diante da inverdade maldosa, produzi um documento ao Comando, sendo imediatamente tomadas providências, como por exemplo, a designação de um Grupo de Trabalho (GT), utilizando-se das inteligências de alguns membros do Corpo Permanente, com o objetivo de demonstrar o quanto custará de negativo, para o País, essa medida unilateral (de transferência da ESG).

     Esse GT produziu um documento de abordagem profunda, a partir da pluralidade de reflexões de seus componentes, afastando decisões unilaterais e autoritárias, nefastas às soluções sensatas e efetivas.

     A transferência da ESG para Brasília, perdoem-me, não pode se concretizar sem uma análise das Linhas de Ações Preliminares (LAP) estabelecidas por esse GT. Se isso acontecer, a decisão não será técnica, mas levará a concluir que estará eivada de um viés dúbio.  

     O jogo do caos factual

     Com a divulgação da Estratégia Nacional de Defesa, no dia 07 de setembro, tendo no seu bojo, em um de seus parágrafos, a transferência da ESG para Brasília, bem como o pronunciamento do Exm. Sr. Ministro da Defesa,  no VIII Encontro Nacional de Estudos Estratégicos (ENEE), no dia 07 de novembro, na Universidade da Força Aérea (UNIFA) e a conseqüente publicação de suas palavras no jornal O Dia, de 08 de novembro, elucidou-se a   incógnita da equação, fazendo-nos entender que a “cantilena” do demérito e a inversão dos fatos sobre a ESG, previamente tão enfatizada, visa sensibilizar o Congresso Nacional a  aprovar a Estratégia Nacional de Defesa, com a transferência da ESG para Brasília.

     Percebe-se um arranjo velado e o que está em jogo é a manutenção ou não de um centro que estuda desenvolvimento, defesa e segurança, mas, muito mais do que isso, discutem-se os valores morais de uma nação, diante das crises nacionais dos últimos tempos, principalmente junto às nossas elites, “estraçalhando” o que é mais relevante na contextualização de um povo: a justiça.

     Eu me pergunto: Por que essa investida contra a ESG? Será que prevalece ainda o mito fantasioso e revanchista de que a Revolução de 1964 nasceu no interior de suas instalações? Qual o motivo de tentar-se acabar com a ESG, nos anos de 2004 e 2005, não indo à frente, e agora surgir uma nova proposta traduzida na sua transferência para Brasília? O que a Escola cometeu de errado, em termos de cumprimento da sua missão-fim, para ser assediada subliminarmente? Não seria mais sensato apontar, com embasamento, as possíveis falhas e solicitar e/ou conjuntamente executar as devidas correções? Será que é proposital a notícia-surpresa, objetivando impactar nefastamente, em termos psicológicos, a todos da Escola e, com isso, obstruir a difusão do nosso Pensamento Estratégico à Sociedade Brasileira? 

     É, portanto, com tristeza e desconfiança que percebo um movimento maldoso e mentiroso em relação ao relevante papel da ESG no contexto nacional.

     Parece que a técnica subliminar de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda do Terceiro Reich, está se concretizando, naquilo que foi denominado “a grande mentira”. Afirmava, enfaticamente, aquela autoridade que “quanto maior a mentira e quanto mais fosse repetida como é o caso da construção de que a ESG parou no tempo e no espaço , mais facilmente será aceita pelas autoridades constituídas e pelas elites pensantes do País”.

     Indignado percebo todo um movimento ardiloso contra a ESG, não podendo, desta feita, como membro do Corpo Permanente e agora sendo guindado, no Instituto de Geografia e História Militar Brasileira (IGHMB), a tomar acento na cadeira de nº 61, cujo patrono é o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, silenciar-me e permitir que com uma “canetada”, em recinto fechado, sem um prévio e sério estudo, estabeleça-se o destino de uma causa que muito custou a verdadeiros idealistas. Estes jamais podem ser traídos por tudo que fizeram em prol de um “Santuário do Saber” que se chama Escola Superior de Guerra.

     Encerro essas minhas considerações externando que a pior coisa que pode acontecer à criatura envolta numa causa nacional “não é ser punida pela justiça dos homens, mas condenada, eternamente, pelo Tribunal da História”.

     Logo, em nossas mãos, está o destino desta Escola que muito tem feito pela Pátria.

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      Íntegra do artigo em:  http://www.imortaisguerreiros.com

      Antonio Celente Videira – Cel. Int. R1 Aer.

     Os subtítulos foram introduzidos pelo Editor deste site.

 

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