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O ABC DE UMA DITADURA * Mary Anastasia O'Grady * *
Os otimistas teorizaram, durante longo tempo, que Hugo Chávez, presidente da Venezuela, sofreria sua Waterloo quando a bolha petrolífera fosse furada. Mas, com a queda de 75% do preço do petróleo em relação aos picos atingidos no ano passado, e o país mantido duramente sob a mão de ferro do regime, essa teoria deve ser revista. É certo que o descontentamento popular com o chavismo aumentou desde que caiu o preço do petróleo. E por isso, é provável que o desencanto aumente nos próximos meses à medida que a economia se desequilibre. Mas, tendo-se valido dos anos de prosperidade para consolidar-se no poder e destruir todos os controles institucionais, Chávez não tem interesse em reconduzir o país ao pluralismo político, mesmo que muitos venezuelanos estejam fartos de sua tirania. Pelo contrário, até poderia tornar-se mais agressivo e perigoso, à medida que em 2009 se apague o brilho de sua tocha revolucionária e se sinta mais ameaçado. Com certeza não devemos esperar que as “eleições” tenham grande importância. Chávez controla inteiramente o processo eleitoral, desde as listas de votantes até a contagem total de votos após o fechamento das urnas. Foi sob grande pressão pública que aceitou a derrota, em 2007, de seu projeto de realizar a reforma da Constituição para perpetuar-se na presidência de forma vitalícia. Mas, por quê? Essa derrota lhe possibilitou exibir uma aparência democrática. E agora decidiu que em fevereiro haverá outro referendo sobre a mesma questão. Pode-se presumir que a Venezuela assistirá a repetição dessas consultas populares até que ele obtenha o que almeja.[1]
Chávez também assumiu o controle da Polícia Metropolitana de Caracas, importou agentes de inteligência de Cuba e armou as suas próprias milícias bolivarianas, cujo trabalho é fazer cumprir a lei nos bairros. Se a população decidir que ficou cansada de ser governada por um só homem, o chavismo tem suficiente força repressiva para convencê-la do contrário. A TV, manipulada no sentido totalitário descrito na novela de George Orwell, é utilizada para incitar o sentimento nacionalista contra os demônios estrangeiros, como os Estados Unidos, Colômbia e Israel. O público presenciou a violência em Gaza através do prisma do Hamas. E na semana passada Chávez de forma espetaculosa expulsou o embaixador de Israel na Venezuela. A queda das entradas do petróleo poderá empobrecer o Estado, mas a oposição também ficará mais pobre. Organizar uma rebelião contra um Chávez menos rico continua sendo uma difícil tarefa. _________ Nota do tradutor: [1] No referendo sobre a emenda constitucional, realizado em 2 de dezembro de 2007, foi rejeitada a reeleição ilimitada de Chávez, que manifestou desejo de governar até 2021. Apesar disso, a Assembléia Nacional venezuelana, dominada pelo chavismo, em dezembro de 2008, propôs novamente a realização de uma emenda à Constituição com a mesma finalidade. Ademais, a Assembléia propôs a realização de um referendo sobre a emenda. Chávez anunciou que espera realizar em fevereiro de 2009 o referendo. _________
* The Wall Street Journal, 12/01/2009 * * Mary Anastasia O'Grady escreve a seção The Americas no Wall Street Journal. – Versão em espanhol publicada no site UnoAmerica: – Tradução para o português: André F. Falleiro Garcia
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