COMENTÁRIO PRÉVIO

OS CÁRCERES DA UTOPIA LIBERTÁRIA NA IGREJA E NA SOCIEDADE

André F. Falleiro Garcia

     

     Quando Madame Roland, diante da guilhotina, denunciou – com seu brado “Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em seu nome” – a farsa da liberdade revolucionária, sua indignação se voltava contra o arbítrio dos juízes do tribunal popular que a condenou à morte. E não contra o mito libertário que ela ajudou a construir. Naquela ocasião, a França da Igualdade, Liberdade, Fraternidade padecia os sangrentos desatinos da Lei dos Suspeitos e um controle terrorista da opinião.

     Os mecanismos de controle se requintaram desde então. Há hoje uma universal repressão da opinião. Vigora uma espécie de Código Internacional de Posturas, invisível, nunca publicado, mas conhecido ou intuído por todos, que regula as opiniões e condutas.

     Olavo de Carvalho, no artigo que publicamos a seguir, "A arma da pseudociência", denunciou a existência desse mecanismo, muito atuante no meio acadêmico-científico. Segundo ele, "a repressão totalitária não se exerce só sobre teorias científicas, mas até sobre meras opiniões políticas". E não é difícil constatar como tal repressão repercute de modo concreto na vida das pessoas, na Europa ou nas Américas: "Experimente negar o aquecimento global ou a superioridade moral do socialismo, e veja seu emprego ir diretamente para o beleléu".

     E não se circunscreve ao meio acadêmico-científico. Alcança outros setores da sociedade, como, por exemplo, o publicitário. Penetra também nas sacristias e chega até o altar. De fato, os cárceres psicológicos da utopia libertária estão disseminados tanto na sociedade temporal quanto na espiritual.

     A mitologia revolucionária, de um lado, criou a legenda libertária e igualitária de 1789; de outro, falseou a História, descrevendo a Idade Média, que havia gerado as grandes universidades livres, como a "idade das trevas", época em que o poder eclesiástico teria supostamente encarcerado as consciências.

     Na verdade, a autoridade doutrinária da Igreja medieval era temperada pela misericórdia cristã e a preocupação com a salvação das almas. Para Olavo, "nada de semelhante existe na universidade atual, onde a condenação das heresias não vem ao término de um longo processo de discussão, como na Igreja".

     O Concílio Vaticano II derrubou barreiras existentes na Igreja, contrárias à ideologia libertária e igualitária. Com efeito, um de seus principais participantes, o Cardeal Suenens, afirmou que o Concílio "marca o fim tanto da época tridentina como da era do Concílio Vaticano I. Ele é a Revolução Francesa na Igreja". Através de alguns documentos doutrinários – como a Declaração "Dignitatis Humanae" Sobre a Liberdade Religiosa –, foi acolhido o espírito de 1789.

     Ao invés da verdadeira liberdade do espírito, o que se viu, desde o seu encerramento, foi a universal imposição, nos meios católicos, da autoridade de um Concílio que não se proclamou doutrinal, mas pastoral. A partir daí, desencadeou-se cruel perseguição contra o leigo ou o eclesiástico que afirmasse – ou apenas insinuasse – manter alguma reserva em relação ao Concílio. E assim, o Concílio não-dogmático se transformou, ele próprio, no superdogma da Nova Igreja, que nele nasceu e vicejou "a latere" da Santa Igreja.

     Nesse contexto, a aplicação da nova doutrina da "liberdade religiosa", coadjuvada pelo "diálogo" e pelo "ecumenismo", colocou os católicos – os que querem ser fiéis à doutrina bimilenar – na situação de vítimas de discriminação e perseguição. E de modo paradoxal glorificou, não os que confessaram a fé católica a ponto de chegar, muitas vezes, ao martírio, e sim, adversários da Igreja. Estes, visitados nos seus próprios recintos, ou recebidos nos ambientes católicos, têm sido sempre muito festejados.

     O ponto mais nuclear da vida da Igreja, no momento atual, continua sendo a ampla problemática da utopia libertária e igualitária, que nela se infiltrou. Um de seus aspectos controversos é a liberação da celebração da missa tridentina, autorizada pelo atual Pontífice Romano, no motu proprio "Summorum Pontificum", publicado em julho de 2007. A esse respeito logo mais publicaremos, neste ano que se inicia, a análise que na ocasião fizemos.

     Após a apresentação de três densas matérias sobre a liberdade na esfera religiosa, o Site da Sacralidade reproduz, abaixo, o artigo de Olavo de Carvalho, que focaliza, como dissemos, a repressão que a utopia libertária promove no plano temporal, em especial no meio acadêmico-científico.     

 

 

A ARMA DA PSEUDOCIÊNCIA

Olavo de Carvalho *

 

Experimente negar o aquecimento global ou a superioridade moral do socialismo, e veja seu emprego ir diretamente para o beleléu.

 


Olavo: a repressão totalitária controla as opiniões científicas e políticas

     A quase totalidade das pessoas que conheço nas classes opinantes jamais dedicou um só minuto a examinar os meios e critérios da busca da verdade – seja no sentido mais geral e filosófico da coisa, seja no que se refere à veracidade dos meros fatos que se alegam, na mídia e nas conversas do dia a dia, como provas disto ou daquilo.

     Mesmo estudantes de filosofia, quando a obrigação curricular os força a um contato epidérmico com o assunto, não absorvem dele senão as crenças da moda – marxista, desconstrucionista, neopragmatista –, não as usando jamais como pontos de partida para uma investigação moralmente responsável, mas como travesseiros fofos onde podem acomodar-se, sem nenhum problema de consciência, nas reconfortantes certezas usuais do seu meio social.

     Não por coincidência, são esses mesmos os que com maior freqüência apelam ao chavão da incerteza geral e da inexistência da verdade, não porque tenham algum dia buscado essa verdade sem encontrá-la, mas precisamente para dispensar-se de buscá-la.

     Outro dia, em debate num blog, uma senhorita formada nessa mentalidade despejava sobre os interlocutores seu olímpico desprezo pelas "teorias conspiratórias que buscam um verniz de 'cientificidade', ao mesmo tempo que não se submetem às regras do discurso científico, como peer-reviewing, "revisão pelos colegas", uma regra da publicação de trabalhos científicos em revistas especializadas, não uma regra do discurso científico.

     A confusão entre o discurso científico e as condições sociológicas da sua aceitação por esta ou aquela comunidade acadêmica reflete uma visão infantil, concretista, misticóide, fetichista do que seja a ciência. Essa visão é a base sobre a qual se erigem não só alguns dos mitos mais queridos do ativismo acadêmico contemporâneo - como o aquecimento global, o holismo ecológico, as teorias da "exclusão social", a superpopulação ou as eternas causas econômicas da criminalidade - como também o simulacro de autoridade com que os grupos interessados impõem, sob a alegação desses mitos, as políticas que bem lhes interessam. Essas políticas podem ter os resultados sociais mais variados – quase sempre nefastos –, mas pelo menos um desses resultados é constante e infalível: o acréscimo do poder social da classe acadêmica.

     Como a opinião da mídia, formada nas mesmas fontes, segue de perto a da comunidade acadêmica, a conjugação de poderes dá a esses dois pilares da ortodoxia contemporânea uma autoridade controladora mais vasta que a do alto clero católico na Idade Média

     Se acompanharmos a história da formação da doutrina cristã ao longo da sucessão dos concílios, veremos que é uma história marcada por polêmicas apaixonadas, violentas até, que se estendiam por décadas e por séculos antes que uma decisão papal lhes pusesse fim. Nada de semelhante existe na universidade atual, onde a condenação das heresias não vem ao término de um longo processo de discussão, como na Igreja, mas já vem pronta desde o começo, proibindo e impossibilitando a discussão e expelindo do meio social os discordes e recalcitrantes. E a repressão totalitária não se exerce só sobre teorias científicas, mas até sobre meras opiniões políticas. Experimente negar abertamente o evolucionismo, o aquecimento global, a superioridade moral do socialismo ou as virtudes salvíficas de Barack Hussein Obama – e veja quantos minutos transcorrem antes que suas verbas de pesquisa sequem ou seu emprego vá diretamente para o beleléu. Isso não significa, é claro, que sempre a força repressiva se esteie na opinião da maioria. Um grupo relativamente pequeno pode controlar facilmente os mecanismos de publicação e, justamente através da peer-review, impor ou vetar o que bem entenda.

     Recentemente, um grupo de 52 cientistas subscreveu um apelo urgente da ONU em favor de medidas drásticas para controlar o aquecimento global. O documento foi contestado por nada menos de 650 cientistas, para os quais o aquecimento global é apenas uma farsa montada para juntar dinheiro e poder político.

     Adivinhem qual das duas correntes tem mais fácil acesso às publicações acadêmicas. A ex-pesquisadora da Nasa, dra. Dr. Joanne Simpson, signatária do manifesto dos 650, até explicou que agora podia falar a verdade porque já não estava ligada a nenhuma organização científica nem dependia de verbas de pesquisa.[1]

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     * Olavo de Carvalho é jornalista, ensaísta e professor de Filosofia

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     NOTAS:

 

     [1] http://epw.senate.gov/

 

 

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