COMENTÁRIO PRÉVIO

     O relato de viagem de um observador independente argentino, Alberto Aprea, reflete a situação política e psicológica da Bolívia em maio de 2008, por ocasião do referendo sobre a questão da autonomia do departamento de Santa Cruz. Depois foram realizados referendos em três outros departamentos, Tarija, Beni e Pando, que também consagraram a vontade popular pró-autonomia. Entretanto, através dos artifícios da guerra psicológica revolucionária, essa reação popular acabou sendo muito prejudicada, e o governo de Morales impôs sua vontade sem respeitar as urnas.

     Além da situação boliviana, o Site da Sacralidade no curso de 2009 apresentará outras matérias, que permitam ao leitor acompanhar os acontecimentos nas demais nações sul-americanas, e assim formar uma visão de conjunto do caótico panorama de nosso continente.

REFERENDO EM SANTA CRUZ:

CRÔNICA DE UMA VIAGEM

À "MEIA LUA" BOLIVIANA

 

Alberto Aprea - observador independente      

 

     A Bolívia envia sinais de descontentamento com o governo marxista de Evo Morales, eleito em dezembro de 2005. Desde que subiu ao poder, é a primeira vez que surgiu uma reação séria. Recentemente, os departamentos que compõem a chamada "meia lua" boliviana, a região oriental do país, votaram a favor da autonomia em relação ao governo central. Esta reação pode ser cautelosamente considerada como um sinal de mudança no rumo vermelho da América Latina.


A "meia lua" e os departamentos de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando

     A Bolívia possui um sistema de governo “unitário-centralista”, pelo qual toda a administração pública é controlada na capital política do país, La Paz. O mais rico departamento boliviano, Santa Cruz, tem como sua capital a cidade de Santa Cruz de la Sierra.

     Nesta cidade, em 5 de maio, foi realizado um referendo, que confirmou a autonomia do departamento em relação ao governo central de Morales. Em junho haverá referendos semelhantes em três outros departamentos. Em conjunto, esses 4 departamentos respondem por 80% do PIB nacional.

     Após a subida ao poder de Evo Morales, cresceu muito a luta a favor da autonomia política nesses quatro departamentos. O referendo em Santa Cruz resultou numa clara vitória para os partidários da autonomia. Se a votação nos outros três departamentos chegar ao mesmo resultado, isso poderá resultar num "efeito dominó" sobre os outros departamentos bolivianos.


Castro e Chávez foram cumprimentar o presidente eleito pró-marxista Evo Morales

     Na eleição presidencial de dezembro de 2005, Evo Morales obteve a maioria absoluta dos votos. Entretanto, transcorridos apenas dois anos, não consegue sustentar seu governo: o país caminha em direção às autonomias departamentais como uma forma de romper as algemas do centralismo.

     Além dos problemas administrativos, jogam importante papel as diferenças ideológicas. De um lado está o MAS (Movimiento Al Socialismo), de orientação marxista; de outro, está a oposição anticomunista contra Morales e a crescente intervenção cubana e venezuelana nos assuntos bolivianos.

     Em uma reunião com ministros de Energia e Petróleo de 12 países sul-americanos, reunidos em Caracas, Hugo Chávez recentemente declarou que “não ficará de braços cruzados”, e que na Bolívia “poderia começar aquilo que Che Guevara disse: ‘Um Vietnã, dois Vietnãs, três Vietnãs na América Latina’”. Tanto Evo Morales como Hugo Chávez acusaram os EUA de estimular a rebelião dos quatro departamentos contra o governo central.

     Observando o referendo


Multidão nas ruas de Santa Cruz a favor da autonomia

     Em 5 de maio de 2008, a cidade de Santa Cruz, capital do mais importante departamento (estado) da Bolívia, foi às urnas para decidir se deveriam continuar dependendo do governo central. Eu moro em Córdoba, Argentina, mas viajei até Santa Cruz para observar a votação.

     Na manhã do domingo, dia da votação, percorri vários centros de votação do centro da cidade e conversei com algumas pessoas sobre o evento, entre elas Jorge “Tuto” Quiroga, que foi o vice de Hugo Banzer, até que este, por problemas de saúde, renunciou e ele assumiu como Presidente.

     Ao ver que tudo ali se passava com tranqüilidade, ao meio-dia me dirigi a um bairro periférico, chamado “Plan 3000” (260.000 habitantes). Segundo a opinião geral, é um reduto do MAS (Movimento ao Socialismo) que apóia Evo Morales. Esses ativistas se propunham impedir a votação inclusive de forma violenta. Ao chegar nesse bairro, o táxi no qual eu estava foi parado, e o motorista recebeu a sugestão de dar meia volta.

     Saí do táxi, e comecei a caminhar a pé em direção ao centro do bairro, por uma espécie de avenida de terra. Poucas quadras depois, percebi ambulâncias em estado de espera. Ouvia-se grande quantidade de estampidos. No início, pensei que se tratava de disparos de armas de fogo; mas, ao me aproximar, pude ver que se tratava da polícia nacional, vinda de La Paz. Lançava gás lacrimogênio contra os agitadores do MAS, cerca de 500 a 800, que queriam invadir os colégios onde se realizava a votação.

     Esses locais de votação estavam defendidos por gente do bairro favorável ao referendo, e por uma numerosa legião de jovens de 14 a 20 anos, pertencentes à “Unión Juvenil Santacruceña”, também armados com pedras, paus, bombas de estrondo etc. (alguns tinham paus com correntes presas na sua ponta, outros tinham barras de ferro com uma ponta e gancho em uma de suas extremidades).

     Esse grupo defendeu um dos colégios com mais seções de votação, nas várias ocasiões em que tentaram invadi-lo os agitadores do MAS que portavam paus e estrondosas bombas de artifício etc. Foi muito interessante ver a defesa do colégio, atacado por três frentes diferentes. Os mais jovens empurravam os demais, e iam correndo adiante, na direção em que vinham os atacantes, gritando “não temos medo de vocês”. Graças a essa defesa ele não foi tomado pelos agitadores; as atas de votação foram levadas em um veículo, acompanhado por outros automóveis e por um caminhão cheio de jovens em sua carroceria, armados de paus, pedras etc. Essas medidas preventivas foram tomadas por causa do “juramento” que os agitadores do MAS haviam feito na rotatória, centro da agitação, distante uns 800 m do colégio.


Agitadores do MAS queimam urnas na rua

     Antes de passar pelo colégio, decidi me aproximar da praça da rotatória, de onde partiam as ordens para o deslocamento dos agitadores. Ali se revezavam os oradores, muitos deles vindos de La Paz.

     Os discursos revolucionários davam a impressão de me encontrar em um país comunista. Inclusive entoavam cantos que pregavam a guerra civil, exaltavam a disposição de derramar o próprio sangue e bravatas desse naipe. Digo bravatas, porque nas várias ocasiões em que pretenderam se aproximar de alguns colégios, acabaram evitando o choque com os defensores.

     Note-se que, num bairro com 260.000 habitantes, os agitadores não passavam de 800 a 1.000 pessoas, muitos deles trazidos de La Paz. Também se podia perceber muita gente nas redondezas, que olhava, mas não participava da agitação. Decidi fazer um teste: fui comer uma carpa, num local situado a 30 metros da rotatória. Sentei-me entre vários comensais. Resultado: todos me trataram com toda a naturalidade e respeito.


No Plan 3000, agitadores do MAS fugiram quando foram enfrentados pelos partidários da autonomia

     No final da votação nesse bairro, entrei em um dos ônibus que levavam pessoas para proteger um outro local de votação, a uma distância de 4 ou 5 km, onde os agitadores estavam impedindo a saída das atas.

     Cerca de 300 m antes de chegarmos, a polícia parou os ônibus, nos fizeram sair deles, e tomaram todos os paus, pedras, bombas de estrondo etc., num claro intento de desarmar os que tinham vindo desimpedir a saída das atas.

     Os ocupantes dos ônibus manifestaram verbalmente aos policiais (vindos de La Paz) seu vivo desagrado. Quando começaram a formar uma coluna em direção ao local de votação, receberam a informação de que a saída das atas havia sido liberada por outro grupo que chegou por outro lado ao colégio.

     Conto todos esses pormenores para que se possa sentir o clima de reação e mobilização que se criou em torno do referendo.

     De volta ao centro da cidade, vi que a praça principal começava a se encher de gente, já estavam sendo divulgados os resultados das primeiras pesquisas de boca de urna que davam ampla vantagem ao “Sim”. Resultados parciais foram divulgados próximo à meia-noite. Nessa hora, a praça estava lotada. Considerando suas dimensões de 150m x 150m, com 3 pessoas por metro quadrado, haveria ali aproximadamente 67.000 pessoas.

     Quando o prefeito, Rubén Costa, fez de passagem uma referência à luta contra o “marxismo” do governo central, houve aplausos e vivas; entretanto, mais adiante, disse que “a verdadeira revolução socialista se constrói”, e nesse momento houve um silêncio quase total na praça. Provavelmente algumas pessoas que estavam ali se deram conta de que certos líderes não são confiáveis.

     Em resumo, tive a impressão de que nessa região – habitada por uma mescla heterogênea de pessoas, mas com uma mesma atitude de alma – há muito campo para uma ação anticomunista esclarecedora. Se eu tivesse que dar um conselho para os moradores dos departamentos onde também haverá referendo, eu insistiria que fossem votar, porque muitos dos que se abstiveram em Santa Cruz teriam votado pelo “sim”, se não tivessem pensado que o triunfo estava assegurado e que não valia a pena votar.

     Por ora, parece que toda essa gente do oriente boliviano (a "meia lua") está disposta a levar as coisas tão longe quanto as circunstâncias o exijam.

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     * Versão em inglês publicada em Tradition in Action, 02/06/2008:

     

     Publicado em A Voz dos Guerreiros - Infomix2, 15/08/2008:

    

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     Tradução de André F. Falleiro Garcia

 

 

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