COMENTÁRIO PRÉVIO

André F. Falleiro Garcia

 

     A "queda francesa" que Evo Morales disputou com a oposição boliviana, depois que a reivindicação da autonomia venceu em quatro departamentos onde houve referendo, teve o seu clímax no assim chamado "massacre de Pando" de setembro de 2008. Em seguida, o governo central acusou de genocídio o prefeito do departamento de Pando, Leopoldo Fernández e ordenou a sua prisão.


Leopoldo Fernández

    Segundo um relato dos fatos ocorridos no "massacre de Pando" feita por Rebecca Santoro [1], o senhor Miguel Chiquitín Becerra, ex-prefeito de Cobija e aliado de Evo Morales, mandou recrutar centenas de pessoas, em Riberalta, alguns dias antes, para participarem de um Congresso em Pando, mediante o pagamento de 200 bolivianos para cada um. No percurso para Pando, na fazenda de Becerra, ele e o ministro Juan Ramón Quintana (acusado de ser o artífice da “ditadura militar” e da “guerra psicológica” que Pando vive), pessoalmente, entregaram um rifle e uma caixa de munição para todos os participantes, que seguiram adiante até Filadélfia, local de constante presença de cubanos e venezuelanos.

     Enquanto isso, em Pando organizou-se outro grupo, para ir ao encontro e tentar deter por meio de um bloqueio a marcha desses cerca de 200 "campesinos". A violência começou quando os camponeses mataram à queima-roupa o engenheiro Pedro Oshiro, uma mulher e uma terceira pessoa. No confronto às 3 h da madrugada, os "bloqueadores", munidos apenas de paus e pedras e em número muito menor, tiveram que recuar, surpreendidos por "campesinos" que atiravam com armas de fogo contra eles.

     Buscaram refúgio na cidade de Cobija, aonde chegaram por volta das 5 horas da manhã. Alarmados, os moradores de Cobija também se armaram. Houve intenso tiroteio entre os de Cobija e os da marcha, que resultou na morte de 4 ou 5 "campesinos". Moradores de Cobija e de Porvenir perseguiram então os agressores. Estes, em fuga, atravessaram o rio Tahuamanu a nado. Nesse momento, alguns deles morreram – por tiro ou por afogamento – e, em sua maioria, tiveram seus corpos levados pela correnteza do rio.

     Algum tempo depois, começaram a aparecer os corpos em vários locais. A revelação de suas identidades foi surpreendente. Um deles, atirador do Exército boliviano. Outros cinco eram invasores de terra na região. E seis militares venezuelanos. Até agora, 16 dos mortos nos conflitos em Pando, que Morales chama de "masacre de campesinos", não eram camponeses.

     Depois desses fatos, os ativistas do MAS mobilizaram milhares de militantes que, vindos de toda a Bolívia, cercaram e isolaram Santa Cruz. E o governo central ordenou a prisão do prefeito de Pando.

     Neste contexto, Alejandro Peña Esclusa enviou uma carta aos prefeitos de 4 departamentos bolivianos, que apresentamos a seguir. Para se avaliar a importância desse documento, é preciso considerar dois aspectos. Um deles, é que o cargo de prefeito de departamento equivale, no Brasil, ao de governador de estado. No caso, trata-se de departamentos de grande importância para o país.

     Outro aspecto, é a grande desproporção de forças entre os contendores. Por si mesmos, como quatro governadores bolivianos poderão disputar com um governo central que, de modo público e notório, é diretamente assessorado por Cuba e por Hugo Chávez? Como poderão se defrontar com a UNASUL, entidade que engloba 12 nações, e que enviou à região uma comissão encarregada de elaborar um relatório sobre o "massacre de Pando", dirigida por um ex-terrorista, Rodolfo Mattarollo? Como poderão enfrentar toda a assessoria política e ideológica prestada pelo Foro de São Paulo, uma organização continental especializada no uso da guerra psicológica revolucionária?

     A oportunidade da carta e sua utilidade para os destinatários não pode ser desconsiderada. Oxalá tenham se beneficiado da colaboração nela oferecida.

      _________

     NOTAS:

      [1] O resumo dos fatos do "massacre de Pando" aqui apresentado foi feito com base nas seguintes fontes:

     

          

 

CARTA AOS PREFEITOS DOS DEPARTAMENTOS BOLIVIANOS DE BENI, TARIJA, CHUQUISACA E SANTA CRUZ

 

     Senhores Prefeitos

     dos Departamentos de Beni, Tarija, Chuquisaca e Santa Cruz

     Bolívia

     

     Apraz-me enviar-lhes felicitações pela decisão anunciada ontem, de ingressarem em juízo com uma ação penal contra funcionários do Governo Nacional, por desrespeito às garantias constitucionais asseguradas ao prefeito de Pando, Leopoldo Fernández.

     A libertação de Fernández é, em nossa humilde opinião, o tema mais relevante da política boliviana, não somente porque constitui uma injustiça que clama aos céus, mas também porque seu encarceramento, ordenado por Hugo Chávez, é uma operação de guerra psicológica contra todo o povo boliviano.

     O massacre efetuado em Pando pelo governo de Evo Morales teve uma intenção muito específica: desestimular os protestos do povo boliviano. Ao passo que, ao culpar Fernández pelo massacre, busca desmoralizar a oposição, evidenciando que o governo pode tergiversar impunemente diante da realidade e manipular a justiça ao seu capricho. Quem, em são juízo, vai sair à rua para protestar, se aquele que o faz é assassinado pelos pistoleiros do governo e, além disso, a vítima é incriminada pelo delito?

     Ademais, se o restante dos opositores não luta para que se faça justiça, a mensagem final é muito clara: “os caídos em desgraça serão abandonados por seus camaradas – como aconteceu na Venezuela com os presos políticos e os exilados –, por isso, não tem nenhum sentido correr riscos”.  

     A solidariedade irrestrita com Fernández rompe o efeito da guerra psicológica movida pelos círculos oficiais do Poder, e mostra aos bolivianos: primeiro, que o governo é responsável pelo massacre; segundo, que a oposição é um ente monolítico que defenderá “de capa e espada” os seus companheiros; terceiro, que vale a pena lutar pela pátria, saindo à rua cada vez que a democracia está em perigo.

     Aproveito o ensejo para lhes recomendar que da maneira mais enfática possível declarem “persona non grata” o encarregado da UNASUL para a investigação do massacre de Pando, Rodolfo Mattarollo. Não o faço por causa de seus conhecidos antecedentes terroristas (ele mesmo foi autor de vários massacres), mas porque Matarollo trabalha para Chávez e para os seus aliados do Foro de São Paulo; seu objetivo não é investigar o que aconteceu em Pando, mas legitimar o governo de Evo Morales, referendando seus abusos e suas ações repressivas.

     Coloco-me à disposição, para colaborar em uma ação conjunta, de nível internacional, para defender os direitos de seu colega, o prefeito Leopoldo Fernández.

 

     Atenciosamente,


     Alejandro Peña Esclusa


     Presidente de Fuerza Solidaria - Info@fuerzasolidaria.org

 

      _________

     Tradução de André F. Falleiro Garcia

 

 

_________