O GUERRILHEIRO DA UNASUL *

 

EMILIO MARTÍNEZ * *    

 


Emilio Martínez

     O curioso currículo de Rodolfo Matarollo, presidente da comissão investigadora da UNASUL enviada ao departamento de Pando, abre legítimas dúvidas sobre a seriedade e imparcialidade do relatório que ela poderá elaborar.

     No início dos anos 70 Matarollo fez parte do Exército Revolucionário do Povo (ERP) na Argentina, uma facção terrorista que provocou dezenas de mortes. O ERP foi o braço armado do Partido Revolucionário dos Trabalhadores. Tinha como finalidade alcançar, mediante a violência, a tomada do poder para fazer a revolução socialista nesse país e estendê-la ao resto da América Latina. O livro de cabeceira desses guerrilheiros, intitulado “O único caminho para o poder operário e o socialismo”, e apelidado de “O livrinho vermelho”, indicava como primeiro ponto o “caráter continental da revolução”.

     O ERP estabeceu como sua estratégia a “guerra popular prolongada”, baseada na experiência do Vietcong. A maioria de suas ações consistia no assalto a guarnições militares policiais e militares para roubar armamento, como no caso do ataque a quartéis, em 19 de janeiro de 1974, durante o governo democrático do general Perón. Nessa oportunidade os erpianos assassinaram o soldado Daniel González, o coronel Camilo Gay e sua esposa. Este último crime foi presenciado pelos filhos menores do casal, que eram mantidos como reféns. Nessa ação também seqüestraram o tenente-coronel Jorge Ibarzábal, assassinado depois de dez meses de cativeiro.

     Para a tarefa de promover a continentalidade da revolução, o ERP formou a Junta de Coordenação Revolucionária, conhecida como o “Plano Condor” do terrorismo, também integrada pelo Movimento de Libertação Nacional (Tupamaros) do Uruguai, pelo Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) do Chile e o Exército de Libertação Nacional (ELN) da Bolívia, então liderado pelo hoje vereador do Movimento para o Socialismo (MAS), Oswaldo “Chato” Peredo.[1]

     Rodolfo Matarollo reaparece sob as ordens dessa Junta de Coordenação Revolucionária, para a qual organizou uma estrutura paralela dedicada à defesa jurídica dos guerrilheiros. Nos anos 80, apesar do retorno da democracia na Argentina, Matarollo continuou a caminhar pela mesma via radical. Como consta nas memórias do ex-erpiano Enrique Gorriarán Merlo (p.49), em 1986 houve uma reunião de 50 pessoas em Manágua, entre as quais se encontrava Rodolfo Matarollo. Nela foi decidida a formação de uma nova organização terrorista, o Movimento Todos Pela Pátria.

     Em 1989 – e novamente em pleno governo democrático, desta vez de Raúl Alfonsín – o Movimento Todos Pela Pátria relançou a estratégia de assalto a quartéis, atacando o regimento de infantaria de La Tablada, operação que teve um desfecho sangrento.


Missão cumprida: o "guerrilheiro da Unasul", em 3 de dezembro de 2008, entregou a Morales o relatório que concluiu ter havido um "masacre de campesinos" em Pando

     Como a memória coletiva é curta, em começos do século XXI Rodolfo Matarollo conseguiu reciclar-se como funcionário do governo de Néstor Kirchner, ocupando a Subsecretaria de Direitos Humanos. Um dos lances mais destacados de sua gestão foi a assinatura de um acordo de cooperação com o Ministério da Justiça de Cuba, país cujo governo não se caracteriza precisamente pelo respeito aos direitos fundamentais.

     Em 30 de abril de 2007 o novo líder da “revolução continental”, Hugo Chávez, presidiu em Buenos Aires um multitudinário encontro [20.000 pessoas, 32.000 segundo os organizadores] antiimperialista realizado no estádio Cancha de Ferro. Como não podia deixar de ser, o subsecretário Rodolfo Matarollo estava entre os assistentes.

     Vistos os antecedentes extremistas do guerrilheiro da UNASUL, o que menos podemos esperar de seu relatório é a verdade e a justiça. E nos perguntamos se Matarollo voltará a cantar em Pando o hino que costumava entoar em seus tempos de ERP: “Pela Pátria Socialista como meta final, a etapa capitalista morrerá para sempre”.

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     Nota do tradutor:

     [1] Osvaldo Chato Peredo é Presidente da Fundação Che Guevara. Vereador e único parlamentar eleito pelo MAS (Movimiento Al Socialismo) em Santa Cruz.      

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     Tradução de André F. Falleiro Garcia

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     * Fonte:

     

 

     * * Emílio Martínez Cardona é escritor e jornalista, nasceu no Uruguai e naturalizou-se boliviano. É vice-presidente da Human Rights Foundation-Bolivia.

 

 

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