QUAL A APOSTA DE LULA COM A LIBERTAÇÃO DOS SEQÜESTRADOS? *

 

Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido * *

     

Coronel Villamarín: show midiático para a libertação de 6 seqüestrados

     Seria uma grande ilusão pensar que o governo brasileiro de Lula da Silva é movido por claros interesses humanitários na calculada, manipulada e midiática libertação de seis seqüestrados, como parte da metódica comédia montada pela senadora Piedad Córdoba, pelos que se autodenominam intelectuais amigos da Colômbia[1] e as Farc, com a finalidade de projetar os terroristas no cenário político e, ao mesmo tempo, tratar de desprestigiar o governo colombiano.

     Duas razões concretas explicam a atitude brasileira. Primeiro, porque na vida política nada se faz gratuitamente. A classe política não dá ponto sem nó. Segundo, porque as Farc fazem parte do comando estratégico que quer – a médio ou longo prazo – unificar os regimes esquerdistas em todo o continente latino-americano.

     Antecedentes comprometedores indicam que, a despeito do interesse humanitário, preexistem sérias coincidências ideológicas e metodológicas das Farc com o presidente Lula e muitos de seus companheiros do PT. Por exemplo, nem o mandatário brasileiro nem as Farc puderam demonstrar o contrário, com relação aos rumores sobre a contribuição de cinco milhões de dólares que Tirofijo [2]enviou para a campanha de reeleição presidencial de Lula.

     Por outro lado, as revelações parciais que fizeram os meios de comunicação sobre as relações de vários funcionários do governo brasileiro com as Farc, encontradas nos computadores de Raúl Reyes, deixaram nos analistas do tema a sensação de que o presidente Uribe tratou da questão com prudência, e que talvez, apesar de outras informações mais graves, preferiu “não tocar” no caso brasileiro para não aprofundar ainda mais a complexa crise regional, iniciada de forma sensacionalista pelos governos da Venezuela, Equador e Nicarágua quando se tornou público e notório o complô que faziam contra a Colômbia.


Grande rejeição popular contra as FARCs, a sua derrota no campo militar e as deserções explicam a montagem do show humanitário

      A isso se soma a estreita proximidade de Lula com o governo francês em razão da aquisição de armamento sofisticado e da iminente transferência de tecnologia nuclear a Paris, assim como a persistente idéia liderada por ele, de formar uma aliança militar sul-americana que desconheça ao mesmo tempo o TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca) da Organização dos Estados Americanos (OEA) e a participação do Pentágono na segurança nacional de cada um dos Estados do hemisfério.

     Indiretamente, a iniciativa de formação de uma espécie de “OTAN sul-americana” faz o jogo contrário ao governo de Uribe, para deixar a Colômbia fora da aliança e, a longo prazo, utilizar as Farc como um az estratégico dentro do projeto de expansão geopolítica e geoestratégica do “Socialismo do Século XXI” na América Latina.

     Em todos esses assuntos tem estado discretamente presente o governo francês. Primeiro, com as negociações paralelas com as Farc para libertar Ingrid Betancur às ocultas do governo colombiano; em seguida, com a turnê internacional midiática de Ingrid; e depois, com as permanentes negociações de alto nível com o Brasil, direcionadas para o afastamento dos Estados Unidos do bolo geopolítico do hemisfério e potencializar o Brasil como líder regional.

     Além disso, os arquivos eletrônicos dos computadores de Reyes, somados às investigações de analistas políticos brasileiros, demonstram que há vários anos foi detectada uma marcante infiltração comunista em importantes escalões do comando da Força Aérea brasileira.

     Com a circunstância agravante de que, com a cumplicidade de alguns funcionários do governo e dirigente comunistas brasileiros, o terrorista Francisco Collazos – aliás, Oliverio Medina, ou padre Camilo – membro ativo da chamada Frente Internacional das Farc, burlou os serviços de segurança internacional e obteve asilo político autorizado pelo próprio Lula da Silva.

     Com um ingrediente a mais. Enquanto Chávez e Correa mantinham Rodríguez Chacín e Larrea[3] em negociações diretas com as Farc, Lula tinha cinco funcionários de alto nível comprometidos no mesmo complô. Quando a trama ficou à vista, Chávez e Correa se defenderam com grosserias e baixas ofensas contra a Colômbia. Então Lula se fez de desentendido e se esquivou de qualquer responsabilidade, em uma mescla de cinismo e aparente dignidade de presidente de uma das dez potências econômicas do mundo.

     Tal procedimento é sintomático, uma vez que com muitas desculpas e mentiras piedosas a administração Lula tem se esquivado da responsabilidade política e histórica de qualificar as Farc como terroristas, como também de desenvolver uma campanha militar sustentada na fronteira com a Colômbia para destruir vários acampamentos guerrilheiros instalados na selva amazônica, de cortar os nexos do narcotráfico brasileiro com os terroristas colombianos, e de deportar vários propagandistas das Farc que se movem à vontade tanto nas universidades quanto nos corredores das instituições governamentais brasileiras.

     Não é despropositado afirmar que o Exército brasileiro, outrora instituição nitidamente anticomunista desse país, está submetido a uma tensão imprevisível, sabendo perfeitamente que tem sido amordaçado, enquanto os dirigentes políticos populistas estão mergulhados na estratégia política traçada por Havana, que visa submeter todo o continente ao arcaico esquema marxista-leninista.

     Por detrás de toda a maquinação midiática montada pelas Farc e seus sócios com a vistosa libertação unilateral de seis seqüestrados, a ardilosa jogada visa objetivos políticos e estratégicos, como a projeção de Lula como um pacifista internacional, e das Farc como um movimento político não terrorista. É uma outra aresta do mesmo esquema montado por Chávez e Ivan Márquez na sede da PDVSA[4] no final de 2007, com a libertação dos seqüestrados. Os pedidos que venham a fazer os terroristas ao final das próximas libertações, e a atitude que Lula venha a tomar quando elas ocorrerem, darão luzes para esclarecer as conseqüências do estratagema.

     Neste sentido, a entrega de helicópteros militares brasileiros para a Cruz Vermelha Internacional – com o aparente distanciamento de Lula, na suposição de que ele está mais interessado na libertação dos seqüestrados do que em conseguir ganhos pessoais – sinaliza que por detrás da mesa está se movendo um estratagema, um complô contra a Colômbia que com certeza será conhecido quando forem abertos os arquivos pessoais de outro dirigente das Farc.

     Como parte dessa estratégia articulada, Chávez visitou Uribe dias atrás, e Correa voltou a cambalear enquanto apresentava sugestões hilariantes[5] sobre a segurança na parte colombiana e manifestava ortodoxa fidelidade marxista-leninista. As Farc retomaram os ataques terroristas nas áreas urbanas, e Piedad Córdoba se apropriou do tema da libertação dos seqüestrados, como se estivesse lavando sua deteriorada imagem diante do eleitorado, com o duplo propósito de auferir ganhos políticos pessoais e ao mesmo tempo ridicularizar o seu arquiinimigo, o presidente Uribe. Tanto mais que ela é a candidata presidencial de Chávez e das Farc, útil para o chamado “governo de transição” até o socialismo.

     A médio e a longo prazo, o Estado colombiano deve proceder com muita cautela em torno da libertação dos seqüestrados e do quase iminente passo das Farc, que vão pedir o status de beligerância[6]com a permissão do governante do país mais poderoso da região. Enquanto isso, os “inocentes úteis” – inclusive os que vivem como ricos nos Estados Unidos e vociferam como “proletários” contra a América Latina – crêem que os conspiradores esqueceram a conjuração promovida pela Coordenadoria Continental Bolivariana, pelos “esquerdistas” decepcionados e as Farc, em aras de ressuscitar o cadáver político dos terroristas.

     Por essa razão esses esquerdistas bobos caluniam o governo colombiano, afirmam que os conteúdos dos computadores de Reyes são falsos e dizem que Correa incriminou as Farc. Ou são ingênuos, ou fazem parte do mesmo complô contra a Colômbia.

     O certo é que nem Lula nem seu governo têm sido aliados da Colômbia na luta contra o narcoterrorismo, mas, o que é muito pior, interessa-lhes e lhes convém que as Farc existam, para continuarem obstinados no projeto de submeter a Colômbia ao ambicioso projeto de expansão castro-chavista. Nem mais nem menos.

     Esta é a verdadeira intenção de Lula. Por último, a manipulada libertação unilateral de dois dirigentes políticos e quatro uniformizados [três policiais e um militar] em poder das Farc, proporciona-lhe a oportunidade de ouro para recompor o caminho da estratégia internacional dos comunistas latino-americanos remanescentes. Uma vez mais, os esquerdistas – moderados ou armados – estão jogando com a dor das vítimas de seqüestro. E os meios de comunicação, na ânsia de publicar denúncias, fazem o jogo das esquerdas.


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     NOTAS DO TRADUTOR:

    [1] Trata-se do movimento pluralista Colombianos pela Paz, que considera que a paz na Colômbia deve ser alcançada através de saídas pacíficas e políticas, e não pela via das armas como vem sendo feito com êxito pelo presidente Uribe.

    [2] Tirofijo foi o codinome de Manuel Marulanda, chefe das Farc, que morreu em 26.03.2008. Raúl Reyes, codinome de outro líder das Farc, morreu numa operação do exército militar colombiano dentro do território equatoriano em 01.03.2008.

    [3] Ramón Rodríguez Chacín foi ministro do Interior do governo venezuelano até 8 de setembro de 2008. Correa mantinha negociações com as Farc através de seu Ministro da Defesa Gustavo Larrea.

    [4] Petróleos de Venezuela, S.A.(PDVSA), é a companhia estatal petrolífera da Venezuela.

    [5] No texto original, “sugerencias cantinflescas”, sugestões à maneira peculiar do ator mexicano Cantinflas.

     [6] As Farc reivindicam para si o status de movimento político não-terrorista em estado de beligerância.

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     * Publicação original em castelhano:

¿A qué apuesta Lula Da Silva con la liberación de los secuestrados por las Farc?

     * * Coronel aposentado do exército colombiano, escritor, analista de assuntos estratégicos, especialista em guerra assimétrica e contraterrorismo urbano e rural.

- Tradução: André F. Falleiro Garcia

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