DIAGNÓSTICO E TERAPIA, EQUÍVOCOS HABITUAIS DOS CONSERVADORES

 

Valter de Oliveira *

     

Os jovens não devem ser conduzidos pela compaixão sentimental, tão explorada pela propaganda revolucionária

     Há quem diga que é normal que os jovens, especialmente ao entrar na Universidade, se deixem seduzir pelos ideais socialistas. Mas não seria normal continuarem apoiando Marx após ter completado 40 anos... a razão e o bom senso se encarregariam dessa mudança.

     Também há quem diga – como Maritain – que admira nos socialistas o amor pela justiça e a preocupação com os pobres. Essa atitude sentimental pode durar a vida inteira. Não concordo com ela. O ideal socialista é sumamente injusto no seu objetivo e brutalmente injusto nos seus métodos. Por isso o que mais me deixa desconcertado é ver como a propaganda revolucionária consegue fazer com que até mesmo os conservadores acreditem que o igualitarismo social é um bem e que toda desigualdade é má.

     A opinião conservadora ressente-se da falta de uma sólida formação

     Em minhas aulas – a maior parte delas dadas, sobretudo, a alunos da classe média – acostumei-me a fazer algumas perguntas. Uma delas é a seguinte: “Quais partidos defendem mais o povo, os de esquerda ou os conservadores”?

     Resposta quase unânime da classe: “Os de esquerda”! E de onde eles tiraram esta conclusão "brilhante"? Dos livros didáticos, aulas de "humanas", propagandas na mídia. Durante anos receberam doutrinação explícita ou subliminar...

     E o que agrava ainda mais o equívoco desses jovens alunos: pensam que o projeto revolucionário se resume só às questões econômicas. Não têm a mínima idéia do que seja o socialismo no campo da educação, da cultura, dos valores, ou da família.

     Pode-se notar essa falha de percepção até mesmo nas famílias desses jovens não-marxistas. Em geral elas são conservadoras. Percebem muita coisa errada em nossa sociedade, mas outras coisas não. Quando nessas famílias se conversa sobre o governo Lula, é comum alguém dizer – e até com certo alívio e sorriso nos lábios – que ele está fazendo um governo conservador!... Alegram-se com sua política econômica continuadora do PSDB. E eis aí outra coisa aparentemente estranha. Setores da classe média e o PSOL afirmam a mesma coisa: Lula e o PT são de direita! Ou quase!

     Como os conservadores podem ser arrastados para um socialismo "cristão"

     Na mesma linha é curioso ver como os conservadores passam a apoiar certas "causas sociais". Surge neles, por exemplo, a simpatia pelo sistema de cotas nas universidades. E por "movimentos sociais" como o MST. Começam a usar os termos de momento lançados pelos socialistas, como se seus significados não embutissem nenhuma carga revolucionária ideológica: preconceito, discriminação, inclusão, trabalho voluntário... Tudo conforme o politicamente correto. E então nos dizem, já com o coração enternecido e com a mente contaminada pelo socialismo: “Realmente, temos uma dívida histórica com os negros”. Ou ainda: “Temos que acabar com as desigualdades sociais”!

     Quando esses conservadores – jovens que não são marxistas ou socialistas – chegaram até esse ponto, aceitaram de fato um dogma marxista: toda desigualdade social é sinônimo de injustiça. A partir daí, aderem às ditas causas sociais e muitos querem logo passar à ação. E então os mais dinâmicos se engajam no MST ou em outros movimentos sociais e políticos que, teoricamente, estariam defendendo a justiça, a liberdade e os direitos humanos.

     A realidade é muito complexa. Mas, neste artigo, não vamos discutir se a análise dela, feita por esses conservadores, é verdadeira ou não. Vamos aceitá-la só para efeito de argumentação. Admitido o diagnóstico que fazem sobre os males sociais, é preciso avaliar se a terapia que propõem é correta e se suas ações favorecem o bem comum.

     A visão objetiva e a análise da realidade segundo o método tomista

     São Tomás explicitou que o ser humano passa da reflexão para a ação segundo um método, que consiste em três coisas: 1º Ver; 2º Julgar; 3º Agir. Por exemplo, o homem percebe que sua mulher está em trabalho de parto, considera que em sua residência não dispõe de recursos para atendê-la, e então a conduz até um pronto-socorro. Essa metodologia pode ser aplicada à leitura da realidade social. Se esta não for bem feita, as soluções propostas para os problemas estarão equivocadas e ao serem aplicadas sobrevirão grandes desastres.

     Admitido o diagnóstico que os conservadores iludidos fazem sobre os males sociais – é o Ver, influenciado no caso deles por uma visão romântica e sentimental da sociedade e contaminado por elementos da análise marxista –, é preciso avaliar a terapia que será empregada para sanar esses males. Este segundo passo é o Julgar, que escolhe os meios adequados para se alcançar o bem-estar da sociedade. É durante o julgar que levamos em conta a observação da realidade nos aspectos bons ou maus que de fato existem (o Ver), para então subirmos até os princípios reguladores da boa ordem social e os princípios da doutrina social da Igreja; desse cotejo resultam diretrizes de ação para a construção de uma sociedade mais harmoniosa e justa. O papel do Julgar é muito importante, porque toda a vida política, social e econômica de uma nação será alterada.  “Boas intenções”, fundadas num Ver superficial e deficiente, não bastam.

     De fato, há quase duzentos anos os socialistas dos mais diversos matizes apontam os males da sociedade liberal capitalista. No diagnóstico que fazem, em algumas coisas acertam, noutras não. Sobretudo, sempre erram na terapia – o Julgar. Qual o remédio que invariavelmente propõem? Simplesmente a aplicação do socialismo, apresentado como sinônimo de justiça social. E desse "julgar" equivocado passam para o "agir", que trará para a sociedade males incomparavelmente maiores do que os do capitalismo.

     O julgamento da realidade à luz da doutrina social da Igreja

     O que ensina a esse respeito a doutrina social da Igreja? O que dizem os Papas?

     Leão XIII, na Rerum Novarum, primeira grande encíclica social da Igreja, publicada em 1891, mostrou claramente o erro da solução socialista:

     "Os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social."[1]

     Pio XI, ao se completarem quarenta anos da publicação da Rerum Novarum, também condenou claramente o socialismo em 1941, na encíclica Quadragesimo Anno. Desse documento perene do magistério da Igreja vem o luminoso ensinamento: "Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos : O socialismo quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como 'ação', se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica; pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã." [2]

     Por sua vez, João Paulo II lembrou que as situações de injustiças e de opressão no mundo são uma constante na história humana, e que os marxistas souberam instrumentalizá-las para promover sua utopia totalitária. É o que nos dizem suas palavras contidas na encíclica Centesimus Annus, publicada exatamente no centenário da Rerum Novarum: “A crise do marxismo não elimina as situações de injustiças e de opressão no mundo, das quais o próprio marxismo, instrumentalizando-as, tirava alimento”.[3]

     João Paulo II, na Centesimus Annus, afirmou que Leão XIII, ao identificar a natureza do socialismo de então como sendo a supressão da propriedade privada, atingiu o fundo da questão, e que suas palavras merecem ser relidas com atenção, referindo-se ao trecho da Rerum Novarum citado acima. E concluiu dizendo que "não se poderia indicar melhor os males derivados da instauração deste tipo de socialismo como sistema de Estado", que na sua aplicação concreta na União Soviética e países satélites veio a ser o "socialismo real".[4]

     À época em que João Paulo II escreveu a encíclica Centesimus Annus, no centenário da Rerum Novarum, o mundo assistia em 1991 o desmantelamento da União Soviética. Hoje assiste o desmantelamento do sistema capitalista a partir da crise imobiliária e financeira norte-americana. Nesse novo contexto Bento XVI prepara o lançamento de uma terceira encíclica, desta vez uma encíclica social. O que conterá?

     A verdadeira formação da juventude consiste em preservá-la da compaixão sentimental e orientá-la para os princípios perenes

     Sei perfeitamente que os conservadores a que me referi – os jovens não-socialistas e não-marxistas –  não querem, obviamente, a vitória dos ideais marxistas. Sei também que na correria do mundo moderno poucos deles têm tempo e mesmo gosto para acompanhar discussões doutrinárias. O que lhes peço, se minha voz chegar até eles, é que não se deixem levar pela compaixão sentimental tão explorada pela propaganda revolucionária.

     Em suma, enquanto continuarem acreditando que as utopias totalitárias (seja a socialista, a marxista ou mesmo a nacional-socialista de Hitler) têm a solução para os problemas sociais de nosso mundo, estarão sendo manipulados, e as situações de injustiça e opressão estarão sendo instrumentalizadas para despertar neles a compaixão e granjear seu apoio à revolução social. Somente os valores verdadeiros e perenes da civilização cristã devem inspirar o auxílio aos mais necessitados. Aceitar as falácias socialistas ou marxistas é contribuir para o triunfo da cultura da morte, a negação da dignidade humana e a escravização da humanidade.

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     NOTAS:

    [1] Leão XIII, encíclica Rerum Novarum, n. 3.

    [2] Pio XI, encíclica Quadragesimo Anno, III, 2.

    [3] João Paulo II, encíclica Centesimus Annus, n. 26.

    [4] João Paulo II, encíclica Centesimus Annus, n. 12.

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     * Professor de Sociologia, História e Geopolítica. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Estudos Brasileiros pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em Ciência Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

 

 

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