O QUE PRETENDEM AS FARC COM AS LIBERTAÇÕES UNILATERAIS?

 

Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido * *

 

     Correu um mar de saliva e de tinta em todos os meios de comunicação em torno da libertação unilateral de seis seqüestrados em poder das Farc. É o que tem acontecido no sangrento conflito colombiano, gerado pelo terrorismo comunista. Pululam os estrategistas de escritório e os analistas que pontificam sobre o divino e o humano, sem ir ao centro do assunto, e sem determinar com exatidão qual é o verdadeiro objetivo visado pelos terroristas.

Outros libertados enfatizaram a urgência de um acordo humanitário. Desta vez, esses 3 policiais e o militar, uniformizados, falando diante de Uribe, não tiveram medo e fizeram duras críticas às Farc chamando-as de terroristas. Veremos o que dirão os dois políticos que em breve serão libertados.

     Desde os tempos da política de concessões do ex-presidente Pastrana diante das Farc, comentaristas moderados tem insistido que Alfonso Cano é a cabeça visível da ala mole, enquanto Jojoy e outros bandidos encarnam a linha dura. Esta afirmação é falsa. Alfonso Cano é a cabeça visível da chamada segunda geração fariana, integrada por quadros com sólida formação político-terrorista no seio do Partido Comunista, enviados pelos “camaradas” da cidade para educar as bases combatentes e manter intactos os lineamentos marxistas-leninistas dentro das diversas estruturas armadas e logísticas da organização terrorista.

     Deste grupo fazem parte Pablo Catatumbo, Pastor Alape, Pacho e Beatriz (os dois filhos de Jacobo), Iván Márquez, Alberto Rubio, Marcos Calarcá, Olga Marín, Iván Ríos, Tomas Lince, Carlos Lozada, Jerónimo, Byron etc.; cuja principal característica é o convencimento ortodoxo de que as FARC chegarão ao poder mediante a combinação de todas as formas de luta, estimulada pela ação terrorista, com base naquilo que é para eles inalterável, o Plano Estratégico, sobre o qual tanto insistia Tirofijo.

     E até hoje não há nenhum indício ou sinal claro que demonstre que as Farc, em mãos da fanática geração de Cano, tenham mudado de objetivos ou deixado de pensar assim. A única coisa que têm feito a esse respeito, depois das mortes de Reyes, Ríos e Tirofijo, é explorar outras opções, mas sem deixar de ser fiéis à linha ortodoxa imposta pelos princípios extremistas do Partido Comunista.

     Taticamente, todos os terroristas já referidos mudaram a concepção de luta, de guerrilha camponesa escondida nas montanhas e selvas, para entrar no narcoterrorismo e na guerra aberta, com blocos de frentes [1] e grupos de forças especiais chamadas companhias móveis, treinadas por delinqüentes estrangeiros. Atuam a par com o fortalecimento do Movimento Bolivariano e do Partido Comunista Colombiano Clandestino[2], no qual militam ocultamente vários dos que se autodenominam intelectuais amigos da Colômbia.

     Estrategicamente, não houve mudanças substancias frente aos projetos históricos do Partido Comunista Colombiano e seu braço armado. Houve uma mudança de meios. Dado o desprestígio dos governos da Venezuela e Equador nessa questão, com habilidade recorreram à cumplicidade do governo de Lula da Silva no Brasil e à calculada loquacidade de Piedad Córdoba. De Lula, para que os legitime na ordem internacional; e de Piedad, para que se converta em candidata presidencial que permita fazer a transição para o socialismo do século XXI impulsionada pelo “meu comandante Chávez”.

     Não é certo que estas libertações tenham surgido de uma troca de correspondência espontânea entre as Farc e os que se autodenominam amigos da Colômbia. Fazem parte de um arranjo urdido pelos “camaradas” legais e clandestinos, em aras de ressuscitar o cadáver político das Farc.

     E em meio a esse estratagema se encontram alguns “inocentes úteis”, que caíram na armadilha de participar das trocas de correspondência com os membros das Farc, e que sempre negaram ter nexos conspirativos com os terroristas. A trama é perfeita: eles não apóiam as Farc, apenas defendem um acordo humanitário e a busca da negociação política. Nada de novo debaixo do sol. É o velho que retorna. A repetição da repetidora, sem que na aparência, nem a academia nem os meios de comunicação tenham notado que os ardis são os mesmos de sempre.

     Esse estratagema explica o show e a manipulação feita por Piedad Córdoba no processo de libertação, que chegou até o extremo de jogar com a compreensível ansiedade dos familiares das vítimas em conhecer os nomes dos possíveis uniformizados [policiais e militares] libertados, assim como o acompanhamento do jornalista Botero (admirador confesso das Farc) e de outros personagens, que não desperdiçam ocasião de exaltar a luta revolucionária e insurgente das Farc.

     Todos esses elementos servem para demonstrar que com a mediática libertação dos seis seqüestrados, as Farc pretendem colocar o eleitorado em dúvida frente à eventual reeleição de seu arquiinimigo Álvaro Uribe Vélez; e que buscam cenários mais de diálogo do que de verdadeira negociação, com interesses políticos e busca de reconhecimento internacional que lhes retire o rótulo de terroristas.

     Tentam recompor a estratégia armada, restabelecer a doutrinação dos guerrilheiros e voltar a jogar com o tempo, enquanto seus cúmplices em Caracas, Manágua e Quito se recuperam do golpe político que lhes produziu a abertura dos computadores de Raúl Reyes.

     Isto também explica por que libertam os políticos Alan Jara e Sigifredo López, enquanto conservam em cativeiro todos os oficiais e suboficiais da Força Pública que estão em seu poder, com o fim de atrair a mídia internacional e, com o eco multiplicador dos “camaradas” do PCCC infiltrados nos Amigos da Colômbia, reviver a idéia de troca de prisioneiros, mas com status político e sem o rótulo de terroristas.

     Para esse efeito contam com a bobeira de Sarkozy, a ambição eleitoreira de Ingrid Betancur e do Pólo Alternativo, a imbecilidade de Eladio Pérez que lhes deve o favor de o terem libertado para que promova o show chavista; a loquacidade calculada de Piedad Córdoba; a difusão midiática do jornalista Jorge Botero; a moral dupla de Carlos Lozano; a estupidez verbal do professor Moncayo, o qual, como a mamãe de Ingrid, em vez de incriminar as Farc, fustiga o governo colombiano; e o afã publicitário dos meios de comunicação e dos jornalistas ansiosos de ganhar os prêmios e os galardões do seu setor de atividade.

     No atual cenário de guerra e paz na Colômbia, o Estado tem a iniciativa estratégica e a vantagem tática, mas não pode ceder. Nem pode repetir o que fez a administração de López Michelsen, logo após a histórica Operação Anorí contra o primeiro Exército de Libertação Nacional (ELN), quando o Exército colombiano aniquilou todas as quadrilhas de bandoleiros lideradas pelos irmãos Vásquez Castaño. Nessa ocasião, graças a um acordo engambelado e politiqueiro urdido por Alfonso López, seu ministro sem pasta e demagogo de Cartagena, o ELN reviveu, depois de estar à beira da extinção.

     No xadrez do conflito, as Farc acabam de realizar uma jogada audaciosa. O governo nacional está obrigado a jogar suas fichas no mesmo tabuleiro. Do contrário, poderia se repetir o vergonhoso episódio de Caguán e a conseqüente continuação de combates e ações terroristas sem fim, com uma guerrilha que se tornou crônica, com chefes fiéis à linha ortodoxa comunista, convencidos de que o socialismo está em vias de implantação, em particular pelo estímulo que recebem de Daniel Ortega, Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa  e de determinados setores do PT de Lula da Silva.

 

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     NOTAS DO TRADUTOR:

    [1] As Farcs atuam formando blocos; por exemplo, o bloco José Maria Córdoba que reúne as frentes 34, 36, 36 e 58, atua nos departamentos de Antioquia e Chocó.

    [2] O PCCC é um partido comunista ilegal na Colômbia, politicamente ligado às Farc, que fundou o partido em 2000, e liderado pelo guerrilheiro Guillermo León Sáenz, também conhecido como “Alfonso Cano”.

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     * Publicação original em castelhano:

     http://www.eltiempo.com/

 

    * * Coronel aposentado do exército colombiano, escritor, analista de assuntos estratégicos, especialista em guerra assimétrica e contraterrorismo urbano e rural.

 

    - Tradução: André F. Falleiro Garcia

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