A CRUELDADE FANÁTICA DA

CULTURA DA MORTE VITIMOU ELUANA

 

André F. Falleiro Garcia

 

     Eluana Englaro, italiana de 38 anos, morreu em 9 de fevereiro de 2009. Sofrera um acidente automobilístico em 1992. Desde então permaneceu em estado de coma. Seu próprio pai (!) obteve autorização judicial, em última instância, dada pelo Tribunal de Apelação de Milão, após 10 anos de disputa nos tribunais, para levá-la à morte privando-a de comida e bebida.

     O neurologista que acompanhou o caso, Carlo Alberto Defanti, esperava que a morte dela ocorresse após 12 ou 14 dias de ausência de alimentação e água. Entretanto, por razões até agora desconhecidas, o óbito se deu em apenas três dias. Morreu só, sem ter ao seu lado um médico, um enfermeiro, um familiar.

A esquerda fanática e desumana desfilou em Roma para pedir a eutanásia para Eluana

     Foi um caso emblemático. Estava em jogo a cultura da morte, não a cultura da vida. Era preciso assegurar-lhe o “direito humano” de ser assassinada e “não sofrer mais”. Eluana não morreu de morte natural, e sim por que os fanáticos da cultura da morte tiraram-lhe a comida e a água. Sobretudo havia empenho em matá-la para inaugurar e consagrar a aplicação da eutanásia na Itália.

     O dicionário Aurélio apresenta dois sentidos para o termo eutanásia.

     1) “Morte serena, sem sofrimento.”

     Não compreendo como possa haver serenidade e ausência de sofrimento na privação completa de comida e de água durante dias a fio. O desconforto e mal-estar já se fazem sentir se ficamos poucas horas nessa privação. Quanto mais se é definitiva, até levar ao óbito...

     2) “Prática, sem amparo legal, pela qual se busca abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável.”.


Declarou o cardeal Camillo Ruini : "É um homicídio".

     No caso de Eluana, houve a autorização judicial para o assassinato, emanada da mais alta corte judiciária italiana. Sim, juízes autorizaram o assassinato em novembro de 2008. Será preciso de modo explícito qualificá-los moralmente? A decisão dos tribunais inaugura uma seqüência de homicídios. No decurso do tempo haverá provavelmente milhões de casos...

     A legião de assassinos teve pressa em realizar a infâmia. Correram para tirar a vida de uma pessoa totalmente indefesa em leito hospitalar. Como o primeiro-ministro Silvio Berlusconi havia iniciado o procedimento para a aprovação urgente de um projeto de lei no Senado, que impedisse a aplicação da eutanásia neste caso, urgia que a pobre vítima morresse antes que a votação legislativa lhe garantisse o direito à vida.


Presidente da Itália, o comunista Giorgio Napolitano garantiu a morte de Eluana

     O Presidente do Governo Berlusconi inclusive chegou a fazer um decreto, aprovado pelo Conselho de Ministros, para impedir o desenlace fatídico. Todavia, o Presidente da Itália, Giorgio Napolitano, ex-dirigente do Partido Comunista italiano, recusou-se a assiná-lo, sob a alegação de inconstitucionalidade. Mas então, ser condenada a morrer de fome e sede é constitucional?

     Sabe-se que o Comitê Verdade e Vida (Comitato Verità e Vita) apresentará à Procuradoria da República de Udine, província situada no norte da Itália, denúncia por homicídio voluntário. Pois quando há um assassinato, a justiça humana deve indagar a responsabilidade penal pessoal daqueles que colaboraram com o fato criminoso.[1]

     Católicos desidratados x católicos pró-vida

     Mas não apenas comunistas defenderam a cultura da morte. No que foi denominado um “novo pacto Molotov-Ribbentrop”, Gianfranco Fini, Presidente da Câmara dos Deputados, político de raízes fascistas, não se condoeu com o triste fim de Eluana. Infelizmente também importantes católicos, de um catolicismo “desidratado” não se importaram com o destino de Eluana. Entre eles, o senador Giulio Andreotti, que foi grande expoente da Democracia Cristã. Suas palavras foram apropriadas para encerrar de modo péssimo uma carreira política nefasta. Considerou que “um governante não pode envolver-se num assunto totalmente privado” que seria para ele como uma saia justa. Não sem razão Camillo Langone referiu-se, nas páginas de Il Foglio de 10/02/2009, aos “católicos desidratados que abandonaram Cristo para adorar a Constituição”.[2]

     “Ficam impedidos de receber a Sagrada Eucaristia os políticos, legisladores, médicos, familiares e todos os que de algum modo colaboraram para levar Eluana Englaro à morte por desidratação e desnutrição”, declarou o Arcebispo Albert Malcolm Ranjith, Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. As penas canônicas no crime de eutanásia são as mesmas aplicadas na hipótese de aborto. É oportuno lembrar que a Igreja pune o crime do aborto com a pena canônica da excomunhão automática (cânon 1398).[3]

     Conforme noticiou a agência Zenit, "os bispos italianos haviam pedido repetidas vezes que ela fosse mantida viva, pois não dependia de máquinas para viver, mas unicamente do fornecimento de alimentação e hidratação". E a Conferência Episcopal Italiana publicou um comunicado para manifestar sua "grande dor" e expressar a esperança de que sua morte una "aqueles que crêem na dignidade da pessoa e no valor inviolável da vida, sobretudo quando é indefesa".[4] 

     Bento XVI, dirigindo-se aos milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro do Vaticano em 01/02/2009, ressaltou que "a eutanásia é uma falsa solução para o drama do sofrimento, uma solução que não é digna do homem", porquanto "a verdadeira resposta não pode ser a de provocar a morte, por mais 'doce' que seja, mas testemunhar o amor, que ajuda a enfrentar a dor e a agonia de forma humana".[5]

     É clinicamente injustificável a morte de Eluana pela eutanásia

     São espantosas as informações transmitidas pelo neurologista Carlo Alberto Defanti que acompanhou o caso. Ao lhe serem retiradas a nutrição e a água, o neurologista da morte afirmou ser “ótimo o estado físico” dela. Inclusive disse que em outubro de 2008 Eluana havia sofrido uma hemorragia interna “da qual se recuperou sem transfusões, o que é um sintoma de sua boa condição física”.[6] Por que então matá-la de fome e sede, senão por um desumano e cruel fanatismo?

     Vale lembrar que 25 neurologistas de grande prestígio em julho de 2008 enviaram uma petição ao Tribunal de Apelação de Milão. Segundo explicaram os neurologistas, "o paciente em estado vegetativo não precisa de máquinas para continuar vivendo. Não está conectado a nenhuma tomada". "Não é um doente em coma, nem um enfermo terminal, mas um deficiente grave que só precisa de uma assistência básica atenta, como acontece em muitas outras situações de lesões graves de algumas partes do cérebro, que limitam a capacidade de se comunicar e de se sustentar."[7] 

     Para estes neurologistas, "A nutrição e a hidratação do paciente, ainda que sejam assistidas, não podem ser confundidas com um tratamento médico .... o tubo pelo qual lhe é oferecida a alimentação não altera essa verdade elementar; ele pode ser comparado com uma prótese ou outro tipo de ajuda."

     Do ponto de vista antropológico, os neurologistas confirmaram "que o paciente em estado vegetativo não é um vegetal, mas uma pessoa humana". Do ponto de vista neurológico, "o paciente em estado vegetativo não está em morte cerebral, pois seu cérebro, de maneira mais ou menos imperfeita, nunca deixou de funcionar; respira espontaneamente, continua produzindo hormônios que regulam muitas de suas funções, digere, assimila os nutrientes."

     E afirmaram: " Apesar de que as possibilidades de recuperação são cada vez menores com o passar do tempo desde o acidente cerebral, hoje o conceito de estado vegetativo permanente deve ser considerado superado e se documentaram casos, ainda que sejam raros, de recuperação parcial do contato com o mundo exterior, inclusive depois de uma longa distância de tempo. Portanto, é absurdo falar de certeza de irreversibilidade."

     O Dr. Gonzalo Alvear Téllez, médico chileno católico, fez um comentário sobre as informações desse neurologista. Considerou inaceitável, sob o ponto de vista médico, a aplicação da eutanásia no “caso de Eluana”, sob três pontos de vista. Reproduzimos a seguir suas palavras:[8]

     "1) Não estava sob nenhum tratamento médico para fazê-la viver artificialmente. A meu ver, só estava com 'ajuda' para comer e beber graças à gastrostomia. A gastrostomia é um procedimento médico comum, que permite aos doentes que não podem ingerir alimentos (nem mesmo líquidos) por si mesmos, o poder fazê-lo através de um tubo conectado diretamente ao estômago, pelo qual são introduzidos o alimento e a água. Isto inclusive não necessita – de modo algum – de nenhuma máquina. Basta introduzir a comida pelo tubo. Usa-se normalmente em pacientes com seqüelas de acidentes vasculares, em enfermidades neuromusculares que afetam os músculos da deglutição etc.

     "2) Não estava enferma. O próprio neurologista que cuidava dela declarou: “Durante a primeira semana sem alimentação e hidratação, não deverá correr grandes riscos. Seu estado físico é ótimo. Provavelmente estará em condições de resistir mais do que o normal. Quanto a lesões cerebrais, Eluana é uma mulher sã. Jamais teve uma enfermidade, jamais necessitou sequer de antibióticos. Os órgãos internos não estão lesionados. Os exames realizados na clínica de Lecco, onde esteve internada até sua transferência para La Quiete, em Udina, em 2 de fevereiro de 2009, resultaram normais.

     "3) Não sabemos se ela sofria. Certamente sofria sua família. Sofriam seus médicos. Sofriam todos os que a conheciam... mas ela sofria? E se assim fosse, sabemos como ela encarava esse sofrimento? Por que não poderia ter feito como um sem-número de santos que se alegravam e pediam a Deus todos os sofrimentos possíveis?" 

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   NOTAS:

 

    [1] Cf. Site Fattisentire.net – 11/02/2009.

 

     

 

    [2] Cf. Site Fattisentire.net – 11/02/2009.

     

 

    [3] Site Fattisentire.net 09/02/2009. Entrevista exclusiva com Mons. Malcolm Ranjith.

     

 

    [4] Agência Zenit, quarta-feira, 11/02/2009.

     

 

    [5] Agência Zenit, domingo, 01/02/2009.

     

 

    [6] Cf. site Terra.cl – 09/02/2009.

     

 

    [7] Agência Zenit, quinta-feira, 28/07/2008.

     

 

    [8] Blog La Reacción Católica

     

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