COMENTÁRIO PRÉVIO

 

André F. Falleiro Garcia

 

     Entre os anos 1975/6, quando morava no Rio de Janeiro, fui muitas vezes ao aeroporto para contatar os recém-chegados refugiados angolanos. Esperava ali encontrar pessoas indignadas, reativas, dispostas a lutar contra o comunismo e o socialismo. Infelizmente só percebi a chegada de seres humanos abatidos e medrosos, que tinham receio de falar sobre o horror do qual haviam escapado e de aqui sofrer algum tipo de represália.

     Os refugiados foram fraternalmente recebidos pela próspera colônia portuguesa do Rio de Janeiro. Providenciava-se hospedagem e empregos para os que chegavam. Dava-se neles um banho de capitalismo para esquecerem Angola e só pensarem em ganhar dinheiro e recomeçar a vida.

     É claro que foi elogiável a solidariedade que os acolheu. Sem embargo, não pude deixar de perceber que o testemunho anticomunista e anti-socialista desses milhares de refugiados que chegaram ao Brasil foi completamente abafado por eles mesmos e pelos que generosamente os receberam.

     Com efeito, a mentalidade dos ricos portugueses ou daqueles abastados aqui nascidos e integrados na vida da colônia portuguesa do Rio, em geral não os predispunha para a luta anticomunista. Aplicam-se a esse estado de espírito as palavras do socialista António Barreto: "a esquerda perdoa o terror, desde que cometido em seu nome; a esquerda é capaz de tudo, da tortura e do assassinato, desde que ao serviço do seu poder; a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso; a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam".

     O holocausto angolano não foi devido apenas à falta de vigilância – que tudo esquece e perdoa desde que floresçam os negócios – de centristas e direitistas. Houve, ademais, incontáveis traições promovidas pelas altas cúpulas dirigentes. Geert Wilders, na conferência que realizou em Nova York, alertou para o fato das elites dirigentes do Ocidente se colocar ao lado dos inimigos. No caso de Angola, houve vergonhosa traição por parte das autoridades portuguesas. Uma delas, apontada no artigo de António Barreto reproduzido a seguir, foi a de uma alta patente militar, o almirante Rosa Coutinho.

     Também serão reproduzidas, infra, as palavras comovedoras de Américo Cardoso Botelho, aos noventa anos de idade, autor de Holocausto em Angola, pronunciadas no lançamento de sua obra.

 

 

ANGOLA É NOSSA! *

 

António Barreto * *    

 


     Só hoje me chegou às mãos um livro editado em 2007, Holocausto em Angola, da autoria de Américo Cardoso Botelho (Edições Vega). O subtítulo diz: "Memórias de entre o cárcere e o cemitério".

     O livro é surpreendente. Chocante. Para mim, foi. E creio que o será para toda a gente, mesmo os que "já sabiam". Só o não será para os que sempre souberam tudo.

     O autor foi funcionário da Diamang, tendo chegado a Angola a 9 de Novembro de 1975, dois dias antes da proclamação da independência pelo MPLA. Passou três anos na cadeia, entre 1977 e 1980. Nunca foi julgado ou condenado. Aproveitou o papel dos maços de tabaco para tomar notas e escrever as memórias, que agora edita. Não é um livro de história, nem de análise política. É um testemunho. Ele viu tudo, soube de tudo.

     O que ali se lê é repugnante. Os assassínios, as prisões e a tortura que se praticaram até à independência, com a conivência, a cumplicidade, a ajuda e o incitamento das autoridades portuguesas. E os massacres, as torturas, as exacções e os assassinatos que se cometeram após a independência e que antecederam a guerra civil que viria a durar mais de vinte anos, fazendo centenas de milhares de mortos. O livro, de extensas 600 páginas, não pode ser resumido. Mas sobre ele algo se pode dizer.

     O horror em Angola começou ainda durante a presença portuguesa. Em 1975, meses antes da independência, já se faziam 'julgamentos populares', perante a passividade das autoridades. Num caso relatado pelo autor, eram milhares os espectadores reunidos num estádio de futebol. Sete pessoas foram acusadas de crimes e traições, sumariamente julgadas, condenadas e executadas a tiro diante de toda a gente. As forças militares portuguesas e os serviços de ordem e segurança estavam ausentes. Ou presentes como espectadores.

     A impotência ou a passividade cúmplice são uma coisa. A acção deliberada, outra. O que fizeram as autoridades portuguesas durante a transição foi crime de traição e crime contra a humanidade. O livro revela os actos do Alto-Comissário Almirante Rosa Coutinho, o modo como serviu o MPLA, tudo fez para derrotar os outros movimentos e se aliou explicitamente ao PCP, à União Soviética e a Cuba. Terá sido mesmo um dos autores dos planos de intervenção, em Angola, de dezenas de milhares de militares cubanos e de quantidades imensas de armamento soviético.

     O livro publica, em fac simile, uma carta do Alto-Comissário (em papel timbrado do antigo gabinete do Governador-geral) dirigida, em Dezembro de 1974, ao então Presidente do MPLA, Agostinho Neto, futuro presidente da República. Diz ele:

     "Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados estão à terra esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir. A FNLA e a UNITA deixarão assim de contar com o apoio dos brancos, de seus capitais e da sua experiência militar. Desenraízem-nos de tal maneira que com a queda dos brancos se arruíne toda a estrutura capitalista e se possa instaurar a nova sociedade socialista ou pelo menos se dificulte a reconstrução daquela."

     Estes gestos das autoridades portuguesas deixaram semente. Anos depois, aquando dos golpes e contragolpes de 27 de Maio de 1977 (em que foram assassinados e executados sem julgamento milhares de pessoas, entre os quais os mais conhecidos Nito Alves e a portuguesa e comunista Sita Valles), alguns portugueses encontravam-se ameaçados. Um deles era Manuel Ennes Ferreira, economista e professor. Tendo-lhe sido assegurada, pelas autoridades portuguesas, a protecção de que tanto necessitava, dirigiu-se à Embaixada de Portugal em Luanda. Aqui, foi informado de que o vice-cônsul tinha acabado de falar com o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Estaria assim garantido um contacto com o Presidente da República. Tudo parecia em ordem. Pouco depois, foi conduzido de carro à Presidência da República, de onde transitou directamente para a cadeia, na qual foi interrogado e torturado vezes sem fim. Américo Botelho conheceu-o na prisão e viu o estado em que se encontrava cada vez que era interrogado.

     Muitos dos responsáveis pelos interrogatórios, pela tortura e pelos massacres angolanos foram, por sua vez, torturados e assassinados. Muitos outros estão hoje vivos e ocupam cargos importantes. Os seus nomes aparecem frequentemente citados, tanto lá como cá. Eles são políticos democráticos aceites pela comunidade internacional. Gestores de grandes empresas com investimentos crescentes em Portugal. Escritores e intelectuais que se passeiam no Chiado e recebem prémios de consagração pelos seus contributos para a cultura lusófona.

     Este livro é, em certo sentido, desmoralizador. Confirma o que se sabia: que a esquerda perdoa o terror, desde que cometido em seu nome. Que a esquerda é capaz de tudo, da tortura e do assassinato, desde que ao serviço do seu poder. Que a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso. Que a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam. A esquerda e a direita portuguesas têm, em Angola, o seu retrato. Os portugueses, banqueiros e comerciantes, ministros e gestores, comunistas e democratas, correm hoje a Angola, onde aliás se cruzam com a melhor sociedade americana, chinesa ou francesa.

     Para os portugueses, para a esquerda e para a direita, Angola sempre foi especial. Para os que dela aproveitaram e para os que lá julgavam ser possível a sociedade sem classes e os amanhãs que cantam. Para os que lá estiveram, para os que esperavam lá ir, para os que querem lá fazer negócios e para os que imaginam que lá seja possível salvar a alma e a humanidade. Hoje, afirmado o poder em Angola e garantida a extracção de petróleo e o comércio de tudo, dos diamantes às obras públicas, todos, esquerdas e direitas, militantes e exploradores, retomaram os seus amores por Angola e preparam-se para abrir novas vias e grandes futuros. Angola é nossa! E nós? Somos de quem?


     _________

     * Artigo publicado no jornal português Público em 13/04/2008.

     * * António Barreto é cronista, cientista social, ex-ministro da Agricultura e destacado militante do Partido Socialista português. Participou em 1992 da reunião de Bilderberg.

    

 

DISCURSO DE AMÉRICO CARDOSO BOTELHO NO LANÇAMENTO DE SEU LIVRO HOLOCAUSTO EM ANGOLA ***

 

     Exmas Senhoras, Exmos Senhores, Prezados Amigos,

Américo Cardoso Botelho dedicou seu livro à legião de vítimas anônimas do comunismo, aos companheiros de prisão e ao futuro de Angola

     A minha primeira palavra, é uma palavra de agradecimento, a todos quantos aqui se encontram, e vieram partilhar comigo este momento tão especial da minha vida.

     Grato me sinto também por a Reitoria da Universidade de Lisboa, na pessoa do seu Reitor, Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa, ter permitido aqui o lançamento deste meu livro, por o jornalista José Manuel Fernandes, Director do Jornal Público não se ter escusado à sua apresentação e por ter ao meu lado quem tenho: o Prof. Doutor Adriano Moreira, o General Silvino Silvério Marques, o Dr. Fernando Corvelo e o editor, Assírio Bacelar.

     Para todos o meu Bem Hajam.

     Cumpre-se, hoje, um dos mais significativos objectivos da minha já longa jornada.

     Fala este livro, que hoje se apresenta, de um período relativamente curto da minha vida – um pouco mais de três anos -, mas pleno de acontecimentos. Quando olho para trás, dos meus 90 anos, vejo uma vida preenchida por muitos desafios e empreendimentos, mas este conta-se entre os que contemplo com mais carinho.

     Cheguei a Angola no dia 9 de Novembro de 1975, com motivações profissionais, para integrar os quadros administrativos da Diamang, transportado no avião 747 da TAP, no seu último vôo antes da independência que ocorreu dois dias depois, mas que guardo a recordação de que éramos apenas cinco passageiros, certamente caso único no mundo, num avião desta grandeza e numa viagem tão longa como a de Lisboa a Luanda.

     Estive preso sem culpa formada, na minha casa no Dundo, na Lunda Norte. Meses depois o administrador Sr. Engº Mário Paiva Neto teve de fugir, em segredo, também do Dundo, num avião Canadiano Hércules, para também não ser preso. Ele o mais importante responsável da nossa companhia, confiscada depois da independência.

     Durante os anos de cativeiro nas prisôes angolanas, de 1977 a 1980, fiz de todas as oportunidades uma ocasião para tornar esse tempo um reservatório de memórias. Procurei os meios para arquivar o que via e ouvia, quando comecei a perceber que estava num dos palcos da tragédia angolana – a cadeia de São Paulo, depois de ter passado pela Casa de Reclusão.

     As páginas deste livro são feitas, de facto, de memórias, as memórias dos acontecimentos e dos testemunhos. Tirando alguns períodos de maior agressividade, consegui alguma liberdade de circulação dentro da prisão. Achavam que eu era um cota inofensivo.

     Um problema inicial se colocava (na cadeia era proibido possuir papeis) como registar a informação? Todos saberão que o universo prisional é um antro de tabaco. Os invólucros dos maços de tabaco que todos deitavam fora tornaram-se, para mim, um bem precioso, permitindo a anotação de  tudo o que ouvia e conversava com os companheiros de destino, num código por mim forjado, recuperando a minha já remota experiência militar. Antes de ter uma cela só para mim, servia-me sobretudo dos períodos de entretenimento que os outros presos passavam a ver televisão. Mas vivi, de facto, um risco capital. Eu não teria saído vivo de Angola se, na prisão, tivessem encontrado os meus apontamentos. Algumas vezes escapei por um triz.

     Outro problema. Como fazer sair da cadeia aquela informação? É preciso não esquecer que estes contextos de violência arbitrária são lugares onde a corrupção cresce com facilidade. Assim, segundo expedientes que só conheci depois de sair de Angola, aqueles que me davam apoio faziam-me chegar à prisão malas (semanalmente vindas de Lisboa), com diversas coisas necessárias para o quotidiano. Com as malas iam muitos outros produtos pedidos, que eu nem chegava a ver, para satisfazer as autoridades. Dentro desses sacos vinha uma folha de cartão que lhes dava forma. Ele era constituído por inúmeras folhas prensadas que eu separava cuidadosamente. Depois voltava a juntá-las, mas agora com os meus manuscritos codificados, no interior delas. A operação seguinte era voltar a dar à folha de cartão o seu aspecto original. Os sapatos conheceram a mesma utilidade. Descoladas as forras, os enchimentos e as solas, escondia aí muitos apontamentos cifrados. Foi assim que, durante cerca de três anos e meio, emigraram da prisão uns quatro mil apontamentos, narrativas do quotidiano, desabafos, pequenas histórias de vida, denúncias, etc.

     De que falam esses apontamentos? É preciso ter em conta que eu estava preso quando se deu a tentativa de golpe nitista de 27 de Maio de 1977. O período que se seguiu pode ser descrito como uma feroz limpeza política. Na prisão, conheci muitas vítimas e testemunhas directas desses processos. A prisão tornou-se rapidamente um retrato da geografia do terror, com narrativas acerca de confissões arrancadas com recurso à tortura, condenações sumárias, fuzilamentos, etc. Em certos casos, alguns daqueles que eram mandados para o fuzilamento acabavam por escapar, por várias razões, e iam parar à prisão. Noutros casos, os que participavam no transporte dos condenados ou nos pelotões de fuzilamento acabavam também por cair em desgraça mais tarde. Essas testemunhas confiaram-me algumas descrições de pormenor.

     Nunca existiram dados controláveis relativos ao número de prisioneiros que permaneceram em contextos diversos de reclusão. São Nicolau, Moxico, Sapu, Huambo, Kibala são alguns dos «campos de reeducação» que pude identificar na informação obtida junto dos outros presos. Em São Paulo, pude recolher os dramáticos testemunhos de numerosos prisioneiros oriundos do Campo da Kibala e, por isso mesmo, este é o campo de que o livro fala com informação mais abundante e concreta. Entre os meus companheiros de reclusão, ir parar à Kibala era uma das piores coisas que podia acontecer.

     Quando conheci de novo a liberdade, a minha primeira missão foi descodificar todos aqueles apontamentos, pois havia o risco de eu perder a memória de muitos dos pormenores que eram essenciais para a interpretação dos fragmentos. Foram anos de trabalho diário, realizado em Lisboa e em Paris. O resultado foi uma vasta documentação de recolha oral que fechei no cofre de um Banco. Demorei também vários anos para ganhar a coragem e a disponibilidade necessárias para construir um livro que honrasse a memória dessa experiência. O trabalho era gigantesco. Acabei por escolher dentro dessas notas um determinado percurso. O que neste livro se apresenta corresponde a menos de metade dessas anotações. Hoje é, por isso, um dia de gratidão. Não posso deixar de agradecer a todos os que tornaram esta edição possível.

     Falo de holocausto em Angola para chamar a atenção para o tamanho da tragédia. Não pretendo desrespeitar a memória daquele «holocausto» que a Europa conheceu em pleno século XX. Pretendo sim encaminhar para as vítimas angolanas os mesmos sentimentos de solidariedade e o mesmo ímpeto de responsabilização. Tenho a esperança de que esta ampla relação de factos e testemunhos honre a memória de todos os que me confiaram o seu sofrimento.

     DEIXEM QUE RECORDE PARTICULARMENTE TODOS OS QUE VI PARTIR DE FINS DE MAIO A OUTUBRO DE 1977 para o destino de fuzilamento.

     MUITOS RECEBERAM DE MIM O ÚLTIMO ABRAÇO QUE LEVARAM DESTA VIDA.

 

     _________

 

     *** O livro Holocausto em Angola – Memórias de entre o Cárcere e o Cemitério, de Américo Cardoso Botelho, foi lançado publicamente em 12 de dezembro de 2007, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa. Os vídeos, com os discurso dos membros da mesa de honra do evento, estão disponíveis no site www.youtube.com (search: Holocausto em Angola) e no seguinte endereço:

        

 

 


 

     _________