Mediante uma misteriosa “lógica do absurdo”, vão se deteriorando as estruturas políticas, sociais, econômicas, mentais e morais da Argentina. E a pergunta inevitável é: se tudo isto está ocorrendo espontaneamente ou não.

 

PARADOXAL NAUFRÁGIO DE UMA GRANDE NAÇÃO SUL-AMERICANA

 

DESTAQUE INTERNACIONAL

 

Ruralistas protestaram em 2008 e voltam às ruas e estradas em 2009: o caos se repete

    Vista de fora, a situação da Argentina desperta preocupação e inclusive compaixão. Desperta preocupação, porque o atual governo vem promovendo graves medidas econômicas, políticas e judiciais, que inexoravelmente erodem o princípio da propriedade privada, base moral e econômica do ordenamento social.

     A estatização do sistema de aposentadorias com o literal confisco das poupanças dos futuros aposentados. A nacionalização de empresas como as Aerolíneas Argentinas e os Correios. As intervenções estatais em diversas companhias de serviços públicos que foram privatizadas. A sistemática deterioração do estado de direito, com a diluição das garantias individuais e perseguições judiciais contra opositores, com o intuito de seu extermínio político. Os enfrentamentos do Poder Executivo com o Poder Judiciário.

     E, mais recentemente, a asfixia do campo, através de sucessivas retenções impositivas, de caráter confiscatório, e de medidas absurdas como a proibição da exportação da carne de primeira, supostamente para evitar o desabastecimento interno, o que levou ao fechamento de numerosos frigoríficos, à ruína dos pecuaristas e ao desemprego em dezenas de cidades do interior. São estes alguns exemplos que mais chamam a atenção dos observadores externos.

     Esta situação desperta também compaixão e solidariedade cristã por que se trata de uma nação irmã com um elemento humano privilegiado, que outrora esteve entre as primeiras da América do Sul, e hoje naufraga em meio a um ambiente de incerteza, temores, fantasmagorias, fragmentação e caos, que fazem recordar, sob certos aspectos, o pesadelo kafkiano.

     Nesse contexto, a atual presidente, a Sra. Cristina Fernández de Kirchner, em mensagem dirigida ao Congresso Nacional argentino, chegou a insinuar que os líderes mundiais estariam tomando o exemplo econômico de seu governo como um modelo para enfrentar a crise mundial.

     Se o que foi dito não fosse para chorar, seria para rir. Não se consegue entender por que o país sofreu durante 2008 uma fuga recorde de capitais, enquanto a recente lei de repatriação de capitais está abrindo as portas do país a todo o tipo de capitais de origem duvidosa. Tampouco se entende por que os governos de outros países haveriam de querer se inspirar em um “exemplo econômico” que mantém estancadas as receitas argentinas, praticamente no mesmo nível de 1974, sendo que nesse período os Estados Unidos duplicaram suas receitas, a Coréia do Sul as multiplicaram por oito e os chilenos vizinhos triplicaram-nas.

Piqueteros bloqueiam ruas

      A tudo isso se poderia somar a impunidade dos chamados piqueteros, grupos anarco-esquerdistas tolerados e até incentivados pelo governo, que impõem sua “lei” de medo e prepotência nas ruas de Buenos Aires, e também o aumento da criminalidade, com índices assustadores e com cifras oficiais que indicam que entre oitocentos mil e um milhão de jovens argentinos estão dentro da categoria dos “marginais estruturais”, que podem servir como bucha de canhão para surtos de violência nos bairros e ruas.

     Outro fenômeno estranho é a difusão de rumores que colocam em desequilíbrio psicológico a população, ou setores específicos dela, para depois aparentemente resultarem em nada, ou permanecerem pendentes como espadas de Dâmocles. Este foi o caso das versões – ainda não desmentidas – sobre os projetos governamentais de estatização do mercado de cereais.

     O ambiente surrealista do país também tem sido acentuado por fatos como a continuação, nos últimos dois anos, da interrupção do trânsito pela ponte internacional para o Uruguai, promovido por pequenos grupos piqueteros da província de Entre Ríos que alegaram a suposta contaminação ambiental de uma indústria de papel construída no país vizinho, algo que até agora não foi comprovado.

     Nesse cenário de paradoxal naufrágio kafkiano parece prevalecer uma misteriosa “lógica do absurdo”, mediante a qual se deterioram as estruturas políticas, sociais e econômicas do país, mas, sobretudo, vão se deteriorando as estruturas morais, mentais e psicológicas, o que, em certo sentido, constitui um efeito muito pior e mais profundo.
Uma pergunta inevitável é se o que foi dito está ocorrendo espontaneamente ou não. Trata-se de uma pergunta sumamente delicada, do ponto de vista sociológico e político, para a qual os próprios argentinos teriam que dar uma resposta.

     É verdade que existem fatores de esperança, como as vozes lúcidas que se tem manifestado para diagnosticar a grave situação do país e denunciar a autodemolição da sociedade impulsionada pelo governo. Trata-se de autênticas reações, vindas da área rural, que, ao que parece, são independentes de certos líderes agrários concessivos em relação ao governo. Espera-se que os melhores esforços desses setores mais lúcidos do campo, com instinto de conservação mais vivo, não se vejam neutralizados mediante a velha fórmula “divide e reinarás”.

     Os argentinos têm a palavra para expressar em que medida o quadro acima traçado reflete ou não a realidade do seu país. De qualquer maneira, esta análise, necessariamente sintética e incompleta, foi feita com a intenção de ajudar, na medida do possível, a que os próprios argentinos encontrem o caminho para sobrepor-se à atual situação. Estas palavras não são de pessimismo, mas de esperança de que a inteligência, o talento e o característico espírito de fidalguia herdado da Pátria Mãe pelos argentinos, se manifestem para buscar uma saída para um futuro de prosperidade cristã que seja um exemplo para toda a América Latina, que é o que merece essa grande nação irmã. Ver, julgar e atuar!

     Mereceria uma análise à parte: como o vazio institucional da Argentina, a perda do apoio legislativo, e alguns revezes eleitorais sofridos pela coalização no poder, poderiam estar preparando internamente o caminho para aventuras autoritárias no estilo chavista-populista, em uma receita na qual caberiam ingredientes indigenistas, castristas e anti-ocidentais em geral. Externamente, esse cenário favoreceria aos governos de Chávez, Morales e Correa, que se veriam fortalecidos com uma eventual virada interna na Argentina dessa natureza. Trata-se de uma hipótese que não deveria ser descartada sumariamente, diante da imprevisibilidade dos acontecimentos nesse país.

 

 

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