Analista dos assuntos cubanos considera os recentes expurgos como medida defensiva tomada pela ditadura decrépita

 

O EXPURGO NO REGIME CUBANO PODE SER UM ATO DEFENSIVO *

 

Andrés Oppenheimer * *    

Segundo Oppenheimer, na ilha-prisão a ditadura familiar castrista promove mudanças econômicas cosméticas para produzir efeitos externos

     Os “castrólogos”, ou praticantes da obscura ciência que é a interpretação das mudanças na ditadura dos irmãos Castro, em Cuba, estão divididos com relação ao significado do expurgo realizado no governo nas últimas semanas. Alguns o consideram como sinal de mudança, outros o vêem como sinal de resistência à mudança.

     Antes de compartilhar com os leitores minha própria visão dos fatos, vou fazer uma rápida revisão das três principais teorias sobre os motivos da demissão de uma dúzia de altos funcionários públicos cubanos, entre eles o ex-chanceler, Felipe Pérez Roque, e o ex-czar da economia, Carlos Lage. Há tempos corriam rumores de que ambos estavam entre os prováveis sucessores do velho presidente Raúl Castro (77 anos).

     Pérez Roque, de 44 anos, ex-ajudante pessoal de Fidel Castro e a quintessência da fidelidade ao tirano, era da linha dura. Homem de limitado alcance intelectual, que se orgulhava de ser considerado um “talibã” cubano, uma vez me disse, com cara séria, que em Cuba havia mais liberdade de imprensa do que em Miami. Se assim fosse, lhe respondi, Cuba teria autorizado, há muito tempo, formadores de opinião anticastristas em sua mídia.

     Lage, ao contrário, era quase universalmente visto como um reformista. Médico de profissão, 57 anos, planejou as reformas econômicas que permitiram que Cuba saísse do “período especial” que se seguiu ao colapso do bloco soviético.

     No fim da semana passada, como costuma acontecer com os funcionários públicos removidos nos regimes estalinistas, Pérez Roque e Lage fizeram seu respectivo “mea culpa”, depois que Fidel Castro (82 anos) escreveu um artigo publicado na imprensa oficial, afirmando que eles tinham sucumbido às “doçuras do poder”, e declarou que “o inimigo externo estava cheio de ilusões a respeito deles”.

     Entre as explicações mais freqüentes do expurgo feitas pelos “castrologistas” estão:


     • A teoria do “sinal de mudança”: o presidente Raúl Castro consolida seu poder destituindo os homens leais a Fidel e substituindo-os pelos leais a ele mesmo – quase todos militares – nos cargos mais altos do governo, antecipando-se a eventuais mudanças da administração de Obama que relaxem as sanções norte-americanas contra Cuba. Ao rejeitar os leais a Fidel e substituí-los pelos seus próprios protegidos, Raúl também promove uma nova geração de líderes, que serão mais adequados para resolver as novas realidades diplomáticas e políticas, segundo a mais difundida teoria sustentada entre os cubanólogos.

     • A teoria da “resistência à mudança”: antecipando-se às mudanças da administração de Obama que relaxem algumas sanções norte-americanas em relação a Cuba, os irmãos Castro destituíram os membros do governo mais jovens, mais conhecidos e mais relacionados internacionalmente, para enviar um claro sinal de que não haverá rachaduras políticas no regime. Chamem isso de reconcentração de poder, se quiserem. Se os Estados Unidos relaxarem suas sanções, o governo cubano pretende apresentar-se como um bloco monolítico, afirma essa teoria.

     • A teoria do “bode expiatório”: a característica mais notável do regime castrista, como de todas as ditaduras, é a busca constante de bodes expiatórios. Como assinalou na semana passada o jornalista independente cubano Odalis Alfonso Toma, “sempre que atingimos o pico das crises administrativas ou executivas, aparecem novas acusações de apropriação indevida do dinheiro público e de abuso de poder, lançadas contra funcionários públicos dos altos escalões governamentais".[1]

     Uma combinação de teorias

     Minha opinião: minha modesta conjetura é que o ocorrido na semana passada foi uma combinação da segunda com a terceira teoria. O artigo escrito por Fidel Castro declarou que Pérez Roque e Lage tinham proporcionado aos inimigos de Cuba “ilusões” de mudanças na ilha, o que me leva a crer que o expurgo foi uma medida defensiva tomada pela ditadura decrépita.

     Foi o que já ocorreu e acontece novamente. Cada vez que fatos externos ameaçam pressionar Cuba para que permita as liberdades fundamentais, ou que alguém do governo cubano surge como potencial sucessor da dinastia familiar, os irmãos Castro têm reagido cerrando suas fileiras e entrincheirando-se na posição de linha dura.

     No final da década de 1980, quando a extinta União Soviética iniciou o processo de abertura política da perestroika, Fidel Castro destituiu – e depois executou – o carismático herói do exército e renomado reformista, o general Arnaldo Ochoa. Em 1992, em meio à democratização dos ex-aliados cubanos do leste europeu, Castro destituiu Carlos Aldana, o segundo funcionário mais poderoso do Partido Comunista Cubano e mais famoso reformista dentro da hierarquia do governo cubano. Como as vítimas do expurgo da semana passada, estes e outros funcionários públicos afastados sempre fizeram declarações públicas confessando seus alegados pecados.

     Agora que Washington se compromete a relaxar as sanções norte-americanas, a família governante cubana provavelmente continuará a a promover limitadas mudanças econômicas, que disfarçam a continuidade do regime. Internamente, cerram as fileiras, para tentar protelar o efeito da pressão internacional no sentido de uma política de abertura.

     _________

 

     NOTA

 

    [1] Ver a declaração no site: www.cubanet.org

     

     _________

 

    * Publicação original em inglês:

     

 

     – Tradução de André F. Falleiro Garcia

 

     *  * O jornalista e escritor argentino Andrés Oppenheimer é colunista no The Miami Herald.


 

     _________