COMENTÁRIO PRÉVIO

ANDRÉ F. FALLEIRO GARCIA

 

     A Colômbia desenvolve sua luta contra as Farc em duas frentes. Uma delas, no interior do país. Outra delas, no plano internacional. Mais exatamente: a batalha diplomática em Washington é tão importante quanto a que se trava no campo da luta armada.

     Por isso, os mais hábeis negociadores, os colombianos com mais possibilidade de influenciar deveriam estar a postos, servindo seu país na mais importante das embaixadas mantidas no exterior. Para lá desenvolver um trabalho metódico junto aos políticos, empresários, jornalistas e publicitários, figuras da nova direita americana, de modo a robustecer os laços de aproximação com o país que até agora forneceu substancial ajuda à Colômbia em sua luta contra o narcoterrorismo.

     O coronel Villamarín, analista de assuntos estratégicos, com lucidez e destemor faz a impressionante denúncia estampada em seu artigo: a diplomacia colombiana que atua nos EUA – e também no mundo em geral – está acomodada. Ao passo que a atividade da diplomacia paralela das Farc está muito intensa. Se esse quadro não mudar, a batalha na segunda frente de luta, situada no hemisfério norte, será perdida, com evidente prejuízo para o andamento geral dessa guerra. As Farc, mesmo derrotadas no plano militar, podem emergir do conflito vitoriosas no cenário político-diplomático.

 

A CHANCELARIA COLOMBIANA ENGATINHA DIANTE DA ESTRATÉGIA DA DIPLOMACIA PARALELA DAS FARC E SEUS CÚMPLICES *

 

Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido * *    

 

     Uma enxurrada de fatos recentes atesta que as Farc, seus delegados políticos, integrantes da chamada Frente Internacional e cúmplices, contam com a vantagem de estar anos à frente em relação aos acomodados embaixadores, cônsules e demais burocratas colombianos dependentes do Ministério de Relações Exteriores. Estes, entretanto, pela natureza de suas funções, deveriam assumir a defesa do renome do país, revelar as atrocidades terroristas e esclarecer o mundo inteiro, como é necessário, sobre as verdadeiras intenções das Farc e dos conspiradores do Foro de São Paulo.

     A declaração do vice-presidente Francisco Santos, em entrevista concedida a Yamid Amat, de que já não se necessita do Plano Colômbia, parece ser a metástase da inépcia do corpo diplomático colombiano acreditado em Washington. E isso se reflete na arrogante indiferença da senhora Clinton diante do Plano Colômbia e do Tratado de Livre Comércio (TLC), e também na prepotência com que Barack Obama afirmou, diante de Lula da Silva, que há tratados de livre comércio com alguns países que não podem ser feitos, em evidente referência à Colômbia.

     Nessa ordem de idéias, é mais clara a inoperância da Chancelaria colombiana e de seus embaixadores, quando não apenas Lula da Silva tem proximidade com as Farc e é inimigo acérrimo do capitalismo norte-americano, como também nomeia a si próprio como representante da América Latina, vai a Washington e diz aos americanos que parem de interferir na Venezuela, em Cuba e na Bolívia. Enquanto isso, Lula esconde sua simpatia pelas Farc e se mostra indiferente diante das sistemáticas violações aos direitos humanos da ditadura castrista e do regime chavista.

     É evidente que esta promoção de Lula foi consentida por Obama e pelos democratas americanos que são contrários ao presidente Uribe, não por ser Uribe, mas porque foi aliado do republicano George Bush. E tem a ver com a incapacidade dos diplomatas colombianos de fazer com que os desorientados democratas entendam que o Plano Colômbia não é uma esmola, como dá a entender a senhora Hillary Clinton.

     Além de injusto, é inconveniente para as duas nações e para o continente americano o tratamento de terceira categoria que a Casa Branca dá atualmente para o único governo amigo e leal que tem na região. Tanto as Farc, como o narcotráfico e o narcoterrorismo, são não apenas problemas locais de ambos os países, mas graves fatores negativos para a segurança continental.

     Por esta mesma razão, as Farc e seus representantes do Partido Comunista, enganam os democratas com a questão dos assassinatos de sindicalistas, com a real intenção de bloquear o TLC e o Plano Colômbia, não só para desprestigiar o atual presidente colombiano, como também para ganhar tempo e espaço no desenvolvimento do Plano Estratégico das Farc.

Com "John 40" foram apreendidos três computadores e 40 memórias USB

     São tão indolentes e incapazes os diplomatas colombianos, que não têm sabido nem querido aproveitar a sobremesa de mamão papaia que as Farc lhes deixaram, para desmascará-las diante de todo o mundo. Como narcotraficantes, com o que foi encontrado nos computadores de John 40.[1] Como terroristas, com as descobertas feitas nos computadores de Reyes e Lozada. E como violadores dos direitos humanos, com os testemunhos de milhares de desmobilizados.

     Ou com a realidade dos sindicalistas. Por exemplo, a captura, pela segunda vez, de um dirigente da Fensuagro (Federação Nacional Sindical Unitária Agropecuária) fazendo um trato com as Farc, proporcionou informações que complementam as provas que já conduziram a ativista "Sara", da mesma organização sindical, ao cárcere. E os novos dados, que apontam a conexão dos dirigentes da Fensuagro com as Farc, encontrados em recentes decodificações de outros arquivos eletrônicos confiscados no acampamento de Raúl Reyes.

     Mas, ao contrário, observa-se nesses acomodados uma apatia total. Uma marcante indiferença. Uma inépcia e incapacidade para defender a Colômbia, disfarçada na desculpa das boas maneiras para o relacionamento. Enquanto isso, as Farc atiçam a fogueira em Washington, com a questão dos sindicalistas mortos; sem que ninguém esclareça ao mundo que deixarão de morrer sindicalistas na Colômbia no dia em que os sindicatos se mantenham na linha, se depurem e expulsem todos os membros da Farc, camuflados por meio das fachadas do Partido Comunista Clandestino ou do Movimento Bolivariano das Farc.

Quando "Negro Antonio" foi capturado, junto dele estava Juan Efraín Mendoza, Secretário-Geral da Fensuagro

     A verdade é que as Farc estão instaladas dentro dos sindicatos. É o que se deduz dos fatos relacionados com a Fensuagro. Alguns terroristas, vestidos como civis e disfarçados de sindicalistas, são ligações logísticas, administrativas e operacionais das Farc com a ala radical do sindicalismo. Servem de agentes de inteligência para identificar vítimas potenciais de seqüestro. Atuam como contato humanitário nas libertações, depois de generosos pagamentos. Cooperam na organização das milícias urbanas Antonio Nariño, e são ligações chaves para o contato com dirigentes políticos ou com sacerdotes ansiosos em aparecer na mídia.

     Por esta razão têm sido assassinados, quase sempre, pelos grupos de justiça privada, que em sua maioria são integrados, de forma paradoxal, por ex-combatentes farianos, que os conhecem e sabem de suas malfeitorias.

     Esta realidade indica que enquanto os terroristas das Farc estão dedicados a tecer as redes de sua estrutura integral, os representantes diplomáticos do Estado, aqueles que deveriam assumir amplamente a defesa da ordem institucional colombiana, para pelo menos tratar de justificar os elevados salários que recebem em dólares, euros ou libras esterlinas, estes dormem o sono dos justos à espera que apareça um ser providencial que lhes faça suas tarefas.

     De forma estrepitosa, Salud Hernández, colunista de El Tiempo, destampou outra situação de podridão, ao reafirmar que a diplomacia colombiana está longe, muito longe de impedir a atividade de proselitismo e de busca de financiamento para a luta armada desenvolvida pelas Farc.

     Com efeito, a municipalidade de Sevilla (Espanha) transferiu mais de 80.000 euros a um calejado dirigente comunista colombiano, destinada para obras sociais de um casario de Tolima. Mas depois de uma investigação jornalística, ficou demonstrado que os supostos beneficiários não tinham conhecimento desses aportes de apoio para o seu desenvolvimento sócio-econômico.

     Salud Hernández questionou se o camarada veterano pensava apropriar-se desse dinheiro. A quem agisse com cuidado e sutileza, e cotejasse os arquivos eletrônicos de Reyes com os costumeiros procedimentos farianos, não causaria estranheza que esses fundos terminassem nas arcas do Secretariado das Farc, em razão da combinação que fazem de todas as formas de luta.

     Mas é claro que, de imediato, com o eterno cinismo comunista, os camaradas legais e ilegais negariam qualquer nexo, e diriam que se trata de propaganda contra eles feita pela CIA. Foi assim que fizeram quando houve a captura do sindicalista da Fensuagro que estava ao lado do "Negro Antonio".[2]

     E assim poderiam ser enumerados muitos outros casos, tais como a aberta simpatia para com as Farc da parte dos partidos comunistas do México, Paraguai, Equador, Argentina, Canadá, Bolívia, Venezuela, República Dominicana, Itália, Suécia, Dinamarca, França, El Salvador, Nicarágua e Brasil. Em todos eles as Farc superaram amplamente a modorrenta diplomacia colombiana.

     De forma clandestina ou aberta, os difusores da propaganda fariana bateram em portas, geraram opinião, despertaram simpatias, abalaram seus adversários ideológicos que, supõe-se, ocupam cargos diplomáticos com a missão de difundir a imagem real da Colômbia.

     A par deste trabalho subversivo fariano, os membros do Foro de São Paulo circulam por todas as partes e desenvolvem sua estratégia integral. É aflitiva a diferença entre a atividade difusora por parte dos conjurados contra Colômbia, e os corpos diplomáticos colombianos no exterior.

     Enquanto os acomodados burocratas conjugam o verbo estar, e inclusive outros andam em campanha eleitoral, como acontece com a inconstante embaixadora em Londres, os comunistas bajulam os sinuosos democratas norte-americanos; Piedad Córdoba persiste em introduzir o Cavalo de Tróia com o acordo humanitário arranjado; os estultos de plantão rasgam as vestes com críticas ácidas contra quem destape as verdades ocultas como estas; Lula da Silva encabeça, com argúcias, a estratégia integral de seus aliados do Foro de São Paulo. E o sempre desinformado povo colombiano continua sem se dar conta de que a Chancelaria engatinha, diante da estratégia publicitária e política das Farc e seus cúmplices.

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    * Publicação original em castelhano: La Cancillería colombiana está en pañales frente a la estrategia de la diplomacia paralela de las Farc y sus cómplices.

     http://www.eltiempo.com/

     – Tradução de André F. Falleiro Garcia

 

     *  * Coronel aposentado do exército colombiano, escritor, analista de assuntos estratégicos, especialista em guerra assimétrica e contraterrorismo urbano e rural. www.luisvillamarin.co.nr

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     NOTAS:

 

         [1] Em setembro de 2009 no acampamento de Gener García Molina, codinome "John 40", foram apreendidos três computadores e 40 memórias USB. A informação assim obtida é igual ou maior que a dos computadores de Raúl Reyes, afirmou o ministro da Defesa colombiano.

         [2] O líder sindicalista encontrado no acampamento das Farc, secretário-geral da Fensuagro, justificou-se dizendo que havia sido seqüestrado. "Simpatizo com a causa dos pobres, não com a luta armada", alegou. O outro caso recente foi o de Liliana Patricia Obando Villota, assessora da Fensuagro, que fazia parte da comissão internacional das Farc. Abundante material sobre ela foi encontrado nos computadores de Raúl Reyes, com o qual mantinha relação amorosa.


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