UNIVERSIDADES INCITAM ADOLESCENTES A CONVIVER COM DROGADOS *

    

José Maria e Silva

A melhor forma de um jovem se precaver do uso de drogas ainda é seguir a velha receita de seus pais — evitar as más companhias.

Mas, para os acadêmicos que defendem a política de redução de danos, o adolescente que se afasta de um drogado é preconceituoso.

 

     Há muitos anos, desde o final da década de 80, o Estado brasileiro adotou, como estratégia de combate às drogas, a política de redução de danos — dogma defendido por boa parte dos intelectuais de todo o mundo, especialmente os que gravitam em torno das universidades francesas. Trata-se de uma estratégia defensável, desde que empreendida com responsabilidade — o que não vem ocorrendo no Brasil. Como afirmei no artigo "A Ciência Viciada", publicado na seção "Tendências/Debates" da Folha de São Paulo, em 23 de março de 2009, a política de redução de danos adotada no país nada tem de científica e não passa de "entulho ideológico do Maio de 68".

     A cartilha Drogas Psicotrópicas, exemplo de irresponsabilidade na aplicação da estratégia de redução de danos

Para o sociólogo e jornalista José Maria, a universidade brasileira, na ânsia de criar um novo mundo, especializou-se em destruir o existente.

     Exemplo disso é a cartilha Drogas Psicotrópicas, elaborada pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), da Universidade Federal Paulista (antiga Escola Paulista de Medicina), e referendada pelo próprio Ministério da Saúde. A cartilha começou a ser produzida em 1987, em forma de folhetos. Até 2003, mais de 2 milhões de exemplares já tinham sido distribuídos no país, o que levou o Cebrid a editá-los num opúsculo de 64 páginas, disponível na Internet. Como informa o prefácio da obra, os folhetos têm um caráter "ao mesmo tempo informativo e de prevenção ao abuso das substâncias psicotrópicas" e são "dirigidos ao público em geral, principalmente a estudantes a partir dos 12 anos de idade".

     Começa aí o problema. É possível fazer prevenção para crianças e adultos, sobre qualquer assunto, especialmente sobre drogas, valendo-se, para os dois grupos, da mesmíssima linguagem e dos mesmíssimos métodos? Não há nenhuma diferença cognitiva e emocional entre crianças de 12 anos e adultos de 20, 40 ou 60 anos? A experiência de vida de uma criança de 12 anos é a mesma de um adulto de 22, não havendo entre eles nenhuma mudança psicológica fundamental capaz de interferir em sua percepção sobre o mundo, em geral, e sobre as drogas, em particular?

     Mesmo no interior de uma faixa etária específica, os diferentes contextos sociais precisam ser levados em conta em qualquer campanha de prevenção. Uma política de prevenção de doenças, por exemplo, jamais poderá ser a mesma em regiões distintas, ainda que os destinatários da campanha tenham a mesma idade. Entre executivos de 40 anos da Bolsa de Valores, o risco das doenças cardíacas fará das caminhadas uma estratégia de prevenção, enquanto entre catadores de caranguejo da mesma idade, a higiene será um dos enfoques principais, para evitar doenças infecciosas.

     A campanha do Ministério da Saúde contra as drogas padece de graves problemas didáticos

     No caso de uma política de redução de danos, o seu próprio nome determina o que ela deve ser — reduzir danos implica em admitir que os danos já ocorreram. Logo, toda política de redução de danos deve restringir-se ao grupo prejudicado por alguma coisa a fim de que esse prejuízo seja reduzido. A campanha de prevenção do Ministério da Saúde — aberta a todas as pessoas, inclusive crianças da 6ª série do ensino fundamental — vale-se de uma linguagem comum para todos, como se fosse conveniente falar de merla para uma menina de 12 anos que brinca de boneca e tem a proteção dos pais do mesmo modo que se fala de droga para o menino de 12 anos que testemunha a mãe viciada em crack fazendo sexo na sua frente para adquirir a droga.

     Só esse grave problema didático já seria mais do que suficiente para invalidar toda a política de redução de danos do Ministério da Saúde. Nos moldes em que é praticada, ela não passa de uma política de indução de danos, uma vez que leva a experiência do drogado — inclusive sua linguagem e seus modos — para pessoas que nunca viram drogas, como a maioria das crianças do ensino fundamental. Ela parte do pressuposto de que toda criança de 12 anos tem acesso a crack e precisa saber como ele funciona — não só os males que causa, mas o prazer que provoca. O que é uma temeridade.

     Desde que o norte-americano David Elkind, discípulo de Piaget, publicou, em 1967, um clássico estudo sobre o egocentrismo na adolescência (retomado em 1978), tornou-se amplamente aceito na psicologia que o adolescente costuma ter um pensamento mágico em relação à vida, que faz com que se considere invulnerável, capaz de se expor a situações de risco sem ser atingido por elas. Daí, por exemplo, os casos de gravidez precoce, que continuam crescendo, por mais que o adolescente seja informado dos riscos de uma relação sexual desprotegida.

     O mesmo vale para as drogas, lícitas e ilícitas. Todo aquele que toma sua primeira dose de álcool ou fuma seu primeiro cigarro — geralmente na adolescência, num momento mágico inaugural — jamais consegue se imaginar bêbado ou devastado pelo câncer. Por isso, é uma irresponsabilidade discutir abertamente todo tipo de drogas com crianças e adolescentes, porque não há nenhuma garantia de que a descrição das conseqüências devastadoras do vício será suficiente para sobrepujar a sedução dos efeitos prazerosos do uso. Até mesmo os males causados pelas drogas podem despertar a curiosidade do adolescente, que tende a se fantasiar de herói em situações de perigo e por isso almeja aventuras.

     A cartilha Drogas Psicotrópicas não tem esse tipo de preocupação. Ela padece do mal congênito do intelectual moderno: a idéia de que tudo pode ser dito, de qualquer modo, para qualquer pessoa, inclusive crianças. Salvo se o ouvinte ou leitor integrar o rol oficial de excluídos. Nesse caso, é preciso medir palavras, para não ferir sua susceptibilidade. Partindo desse princípio, a cartilha beira a esquizofrenia: ora é vulgar, recorrendo à gíria das bocas-de-fumo; ora é acadêmica, enredando-se em digressões bizantinas.

     Os erros da cartilha chegam a ser irônicos. Ao falar dos solventes, o Cebrid conta que, em 1991, uma fábrica de cola do interior do Estado de São Paulo fez ampla campanha publicitária afirmando que finalmente havia fabricado uma cola de sapateiro "que não era tóxica e não produzia vício", porque não continha tolueno. Os autores da cartilha indignam-se: "Essa indústria teve um comportamento reprovável, além de criminoso, já que o produto anunciado ainda continha o solvente n-hexano, sabidamente bastante tóxico".

     Ora, como classificar, então, a atitude do próprio Cebrid, que, ao longo da cartilha, fornece o nome de fantasia de todas as drogas vendidas no mercado, exibindo o selinho de copyright no alto de cada marca de cola de sapateiro, como se estivesse fazendo publicidade do produto? Nem o jornalismo revela o nome comercial de medicamento tarja-preta em suas reportagens, para não induzir a automedicação. Mas a cartilha do Cebrid fornece até o nome de fantasia do propoxifeno (substância utilizada como substituto da heroína pelos viciados). E ainda explica para as crianças de escola o modo mais freqüente de usá-lo — através de injeção na veia. E se o adolescente ficar desacorçoado, achando que não poderá comprar essas e outras drogas, por precisar de receita especial, o Cebrid informa: "Algumas farmácias desonestas, para ganhar mais dinheiro, vendem essas substâncias por baixo do pano". A cartilha antecipa até as tendências do mundo das drogas, num tom de quem recomenda aos retrógrados usuários brasileiros a modernidade de usuários de drogas ingleses e norte-americanos:

     "Nos Estados Unidos, a metanfetamina (uma anfetamina) tem sido muito consumida na forma fumada em cachimbos, recebendo o nome de 'Ice' (gelo). Outra anfetamina, metilenodioximetanfetamina (MDMA), também conhecida pelo nome de 'êxtase', tem sido uma das drogas com maior aceitação pela juventude inglesa e agora, também, apresenta um consumo crescente nos Estados Unidos."

     Notem que a palavra aceitação é completamente absurda ao se falar do consumo de drogas, especialmente numa cartilha destinada a crianças e adolescentes. Quando se fala da aceitação de um produto qualquer pelos consumidores, fala-se de uma relação de livre-arbítrio entre quem compra e quem vende. Por mais que a publicidade seja capaz de influenciar e até condicionar o consumidor, o ato de comprar um perfume, uma roupa, um sapato, é pautada por uma série de atos racionais, previamente acertados, entre comprador e vendedor. Mesmo que se trate de um consumidor impulsivo, ele compra o produto às claras, escolhendo, experimentando e pagando, o que pressupõe um mínimo de decisão da sua parte, mediada por uma série de relações sociais institucionalizadas, que vão desde a fonte de renda necessária para comprar o produto até o Código de Defesa do Consumidor, que lhe permite devolvê-lo, caso não fique satisfeito. Logo, se muitos consumidores, agindo dessa forma, levam para casa o perfume de marca X, pode-se falar que aquele perfume está tendo grande aceitação no mercado, pois ele não se impõe arbitrariamente ao consumidor, precisa ser aceito por eles. Mas não dá para falar de aceitação quando se trata de jovens consumindo drogas numa balada. Quase sempre o jovem experimenta a droga sob a influência de amigos, numa situação em que sua capacidade de refletir encontra-se fortemente inibida. A dança frenética, o som ensurdecedor, a sedução de quem oferece a droga e mais o álcool que costuma antecedê-la são fatores que transformam a droga de produto em fetiche. Logo, não dá para falar que ela é aceita pelo consumidor. Na verdade, é quase imposta já na primeira vez em que ele a consome.

     A cartilha sonega a informação sobre o que é mais importante e eficaz

     A melhor forma de um jovem se precaver do uso de drogas ainda é seguir a velha receita de seus pais — evitar as más companhias. Mas a cartilha sobre drogas do Cebrid não faz, em nenhum momento, esse tipo de recomendação. É como se o jovem, uma vez dispondo do conhecimento técnico sobre drogas, estivesse apto a evitá-las em qualquer ambiente. Na verdade, usar ou não usar droga é uma decisão muito mais emocional do que racional, tornando o conhecimento ou desconhecimento sobre as substâncias psicotrópicas uma questão secundária. Prova disso é que o uso de drogas sempre foi proporcionalmente maior entre intelectuais do que no restante da população, como mostra qualquer pesquisa atual sobre o assunto. E mesmo o intelectual é levado a consumir drogas por influência do meio, não por decisão racional. Entretanto, afastar-se das más companhias não é mais conselho que se permita às escolas oferecer ao aluno. Pelo contrário, toda pedagogia contemporânea alicerça-se no principio de cabe aos cordeiros reeducar os lobos. Em reportagem da Agência Brasil sobre a epidemia de crack no país, a psicóloga e socióloga Sílvia Ramos, doutora em Saúde Pública pela Fiocruz e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, afirma:

     "Os próprios jovens são muito preconceituosos e contribuem para isolar o adolescente que usa crack. Ele se descontrola e rapidamente se torna dependente. E isso não contribui para que ele peça ajuda, peça socorro" (grifo meu).

     A orientação adotada em matéria de educação e saúde pública está levando à morte a sociedade brasileira

     A que ponto chegamos. Em seu tempo, Durkheim já indagava profeticamente: "De que serviria uma educação que levasse à morte a sociedade que a praticasse?" Pois essa educação já chegou. A educação que se pratica hoje no Brasil está levando à morte a nossa sociedade. O pai que entrega seu filho para a escola pública não sabe que o está matriculando na escola do crime e que só o acaso poderá salvá-lo. Se uma criança ou adolescente afasta-se de um usuário de crack, a própria escola — ao invés de estimulá-lo a manter essa atitude — tacha a sua prudência como preconceito. E não só isso: culpa-o também pelo descontrole do viciado.

     É isso que a psicóloga e socióloga Silvia Ramos entende por "segurança e cidadania", como diz o pomposo nome do núcleo que ela dirige numa universidade conceituada, com 105 anos de existência? Kant ensinava que o homem deve agir de tal maneira que a máxima que norteia sua ação possa se tornar uma regra universal, valendo para todos os homens. Mas é pouco provável que a doutora Sílvia Ramos e seus pares sigam a ética kantiana. Se um deles tiver uma filha de 15 anos e a menina resolver terminar um namoro ao descobrir que o namorado é viciado em crack, duvido que eles lhe digam: "Não seja preconceituosa, menina! Continue com ele para ajudar na sua recuperação". Obviamente, os doutores universitários não são loucos — eles jamais aplicam na escola privada onde estudam seus próprios filhos as teses que com desencaminham, na escola pública, os indefesos filhos dos pobres.

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     * O texto integral do artigo pode ser acessado em:

     http://reliquiasdacasaverde.blogspot.com/      

 

     * * José Maria e Silva. Jornalista e sociólogo, com graduação em Jornalismo (1995) e mestrado em Sociologia (2003) pela Universidade Federal de Goiás. Foi redator-chefe do Jornal Opção, de Goiânia.

 

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