COMENTÁRIO PRÉVIO

 

ERGUENDO MURALHA

CONTRA O AVANÇO DO CAOS

 

André F. Falleiro Garcia

 

     Um dos métodos do caos para o avanço do processo revolucionário é o apodrecimento das instituições do Estado ou da Sociedade. A corrupção generalizada numa instituição militar — por exemplo, uma Academia de Formação para Oficiais da Polícia Militar — faz com que empalideçam os nobres ideais que deveriam brilhar aos olhos dos cadetes. Ao mesmo tempo os mais altos oficiais deixam de ser símbolos vivos desses ideais perante seus subalternos. Então a perda da autenticidade demole internamente a instituição. Atacada por fora e por dentro, soçobra.

     Em todos os graus da hierarquia da corporação instala-se a decepção e o descontentamento. Uma crise criteriológica abala nas mentes os princípios institucionais. A degradação dos superiores é acompanhada pela opressão dos inferiores. O cenário cotidiano passa a ser composto pela revolta contra os regulamentos e autoridades, o abuso de poder, a utilização indevida dos bens da corporação em proveito próprio, a desvalorização das categorias inferiores e o mais.

     Exemplo de salutar reação contra o processo de apodrecimento e corrupção tem sido dado por altos oficiais e também por praças e oficiais inferiores da Polícia Militar do Rio de Janeiro. No cerne dessa reação estão dois grupos, denominados como os "40 da Evaristo" e os "Coronéis Barbonos".

     Um dos protagonistas dessa reação — o Coronel Paulo Ricardo Paúl — usa linguagem forte e destemida. Para um observador que considere essa nobre reação numa ótica simplista, faz a defesa das vantagens corporativas frente aos interesses mesquinhos das lideranças políticas do momento. Mas num entendimento profundo, ergue uma muralha contra o avanço do caos desagregador numa instituição vital para o Estado e a Sociedade.

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O NOSSO DESTINO É O DOS HERÓIS JUNTOS SOMOS FORTES!

 

Temos que abandonar o “politicamente correto” e restaurarmos a identidade da Instituição.

Se formos submissos à política oportunista, a corporação se enfraquece e se escraviza. O nosso destino é o destino dos heróis, não o dos omissos ou dos fracos.

 

CEL PM PAULO RICARDO PAÚL *

 

Marcha Democrática da PM em janeiro de 2008

     No ano de 2007, Oficiais e Praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, iniciaram uma mobilização cívica – pacífica e ordeira –, com o objetivo de resgatar a CIDADANIA do Policial Militar e do Bombeiro Militar, através da concessão de salários dignos e de adequadas condições de trabalho.

     Um Soldado de Polícia e um Soldado Bombeiro Militar ganhavam ultrajantes salários, menos de R$ 30,00 por dia, para arriscarem as suas próprias vidas. Hoje mais de 2 anos depois, ganham um pouco mais de R$ 30,00 por dia, apesar das promessas de campanha.

     A mobilização é uma manifestação democrática que nasceu no seio da tropa e ganhou as ruas do Rio de Janeiro. O primeiro grupo, constituído de Oficiais e de Praças, foi denominado “40 da Evaristos” e o segundo grupo, composto por 9 Coronéis de Polícia, se autodenominou “Coronéis Barbonos”. Ambas as denominações são referência ao antigo Quartel dos Barbonos, atual Quartel General, situado na Rua Evaristo da Veiga, no centro do Rio.

     A mobilização incomodou os maus políticos, pois expôs as entranhas da segurança pública como nunca tinha sido feito, porém também incomodou muito interna corporis. E por quê?

     Os Oficiais e os Praças mobilizados, evidentemente, não fazem parte da tenebrosa “banda podre”, para quem os salários pouco importam, o que importa são a carteira, as armas, as viaturas e as fardas que facilitam a prática dos desvios de conduta. A mobilização os incomodou sobremaneira.

     Os jovens “40 da Evaristo” estão em todos os lugares, portanto, com a sua capilaridade podem abrir todas as feridas das duas instituições militares estaduais, isso é muito perigoso para o status quo.

     Os Coronéis Barbonos, que chegaram a ser chamados de “bobos”, dentre outras qualificações mais degradantes, realizaram um fato inédito nos 200 anos de existência da Polícia Militar no Brasil. Eles abriram mão do poder, das funções e das gratificações, inclusive não aceitaram o aumento da gratificação DG de R$ 2.200,00 para R$ 7.500,00, valor pago atualmente.

     Isso era inimaginável, Coronéis de Polícia lutando pelo salário dos Soldados da Polícia e do Corpo de Bombeiros Militar. Isso incomodou muita gente que estava preso em suas cadeiras, sentados sobre suas vantagens. Os Coronéis do Corpo de Bombeiros, lamentavelmente, não ombrearam com os Coronéis Barbonos e não participam da mobilização.

     As represálias do poder político já foram citadas em vários artigos postados neste espaço democrático, verdadeiros atos arbitrários e em total desacordo com o estado democrático de direito. Cabe ao fiscal da lei – o Ministério Público –, a recondução à normalidade democrática.

     Nestes tristes dias, quando as denúncias de irregularidades povoam a mídia, destruindo a imagem institucional, o desprendimento dos Coronéis Barbonos e dos 40 da Evaristo, precisa ser lembrado. O nosso sacrifício não foi para assistirmos à situação atual. Fomos idealistas, destemidos e acima de tudo, honrados.

     Urge que as autoridades públicas adotem as medidas corretas para reconduzir a nossa amada e heróica Polícia Militar ao seu devido lugar, uma instituição democrática e com a missão de servir e proteger o cidadão. Chega de desculpas, basta de "meias" soluções.

     A Polícia Militar pertence ao povo do Rio de Janeiro, pelo cidadão arriscamos as nossas próprias vidas. Temos que abandonar o “politicamente correto” e restaurarmos a identidade da Instituição.

     Todos os políticos têm um poder transitório, efêmero, a Polícia Militar é sempre forte, porém a sua força é a soma da força dos seus integrantes. Se formos fracos, submissos à política oportunista, a corporação se enfraquece e se escraviza. O nosso destino é o destino dos heróis, não o dos omissos ou dos fracos. JUNTOS SOMOS FORTES!

     Por favor, aprendam essa verdade, ombreiem conosco ou saiam da frente.

 

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     * Paulo Ricardo Paúl é coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Está na ativa, na Diretoria Geral de Pessoal, até o dia 21/04/2009, quando será transferido compulsoriamente para a inatividade. É editor de um blog destinado à discussão sobre segurança pública e resgate da dignidade do Policial Militar do RJ.

     http://celprpaul.blogspot.com/

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