O NEOMARXISMO INDIGENISTA DANSA NO RITMO DE OBAMA

 

André F. Falleiro Garcia

 

     A nova Constituição da Bolívia, de viés estatizante e indigenista, foi votada num quartel a portas fechadas, sem a presença da oposição, com quase metade do parlamento tendo se recusado a votar. Depois, foi aprovada num referendo popular marcado pela fraude eleitoral. Seu texto conjuga o anacronismo histórico indigenista com as mazelas da pós-modernidade, ao favorecer, por exemplo, a liberalização do aborto e a agenda homossexual.

     O laicismo é reivindicado pelas esquerdas quando se trata da Igreja Católica, mas não no caso do indigenismo que celebra os cultos pagãos anteriores à descoberta da América. Enquanto no Primeiro Mundo o laicismo procura eliminar radicalmente as marcas das raízes cristãs, na "Nossa América", o continente comuno-tribalista em gestação, Evo Morales sente-se à vontade para exaltar a divindade Mãe Terra, a Pachamama do Império Inca, e outras divindades pagãs, e lhes assegura presença no texto constitucional.

     No último ato do show da greve de fome encenado por Morales, o Congresso da Bolívia aprovou, com o apoio da oposição, a polêmica lei de transição constitucional, que é fundamental para o andamento da revolução indigenista e socialista.

     No caldeirão da utopia boliviariana também foi lançado o ingrediente do neomarxismo. Na 7ª Cúpula da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), realizada em 16/04/09, à qual compareceu Raúl Castro, foi reafirmado o compromisso pelo retorno urgente de Cuba à OEA. No fundo, o que os dirigentes cubanos desejam, é receber dos Estados Unidos a mesma ajuda econômico-financeira que vinha da extinta URSS. No momento em que Obama manipula quantias astronômicas para estatizar a economia norte-americana, na casa dos trilhões de dólares, alguns bilhões serão bem-vindos às burras do magro erário cubano.

     Mas se enganaria quem julgasse necessário os neomarxistas indigenistas iniciarem a louvação do imperialismo norte-americano para serem beneficiados pelos novos ventos de esperança soprados por Obama. Tanto a 7ª Cúpula da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), realizada em 16/04/09, quanto a 5ª Cúpula das Américas reunida em Port of Spain, capital de Trinidad e Tobago, que terminou 19/04/09, constituem avanços no sentido do levantamento do embargo econômico contra Cuba. Nestes cenários contracenam declarações categóricas com manifestações ambíguas e consensuais.

Raúl Castro na cúpula da Alba

Evo Morales proclamou-se marxista

     Na 7ª Cúpula da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), Evo Morales afirmou:

     "Cuba foi expulsa por ser leninista, marxista, comunista. Eu quero dizer aos membros da OEA, aqui, eu quero declarar-me marxista, leninista, comunista, socialista. E agora, que me expulsem, quero que me expulsem da OEA. Não se pode crer que, por ser marxista leninista, me expulsem da OEA." [1]

     Que efeito produziu a confissão de Evo Morales? A revelação não surpreendeu as esquerdas. Nem impressionou as direitas que continuamente alertam sobre as atividades do Foro de São Paulo. Como terão reagido os que constituem o majoritário centro decisivo?

     "Onde está a prova de que Evo Morales é comunista marxista? Ele não passa de um inofensivo populista, um moderado às vezes influenciado pelas fanfarronices de seu amigo e vizinho Hugo Chávez. Ambos não são levados a sério pelos dirigentes internacionais e pelos analistas políticos". Até agora, este foi o refrão dos centristas ingênuos, sempre otimistas e condescendentes com os líderes esquerdistas sul-americanos. Mas Evo Morales acaba de passar declaração pública de alinhamento ideológico com Cuba, ao fazer sua profissão de fé marxista, leninista, comunista, socialista. Mesmo assim, seu rompante não irá interromper o sono anestésico dos centristas.

     Prossegue o espetáculo da fantasia no teatro globalizado. A intensificação do colorido vermelho de Evo Morales está sendo compensada pelo proporcional aumento da dosagem "moderada" na figura midiática do presidente Lula. E pela imagem de Obama, disposto a corrigir os supostos erros cometidos no passado pela política norte-americana anticastrista. Mas labora em erro quem julgar que os diretores da cena se encontram em Havana. Na realidade é nos misteriosos corredores e salas do Departamento de Estado norte-americano que estão sendo elaborados os enredos e determinados os papéis.

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    [1]

 

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BOLÍVIA: NEOMARXISMO INDIGENISTA, ABORTO E HOMOSSEXUALISMO *

 

Juan C. Sanahuja

 

Com paramentos vermelhos, o marxista-tribalista Evo Morales

     Entrou em vigor a nova Constituição da Bolívia em 7 de fevereiro de 2009.

     Nesse dia, o presidente Evo Morales proclamou "o nascimento da república do socialismo comunitário e antiimperialista".

     A Constituição, ditada pelo indigenismo neomarxista, foi aprovada no referendum realizado em 25 de janeiro, por 60% dos votos a favor, contra 40%.

     Panteísmo sincrético indigenista

     O preâmbulo constitucional consagra o retorno aos cultos pagãos anteriores à descoberta da América, o que tem sido uma característica do governo de Morales.

     "Em tempos imemoriais as montanhas se ergueram, os rios correram em seus leitos, foram formados os lagos. Nossa Amazônia, nosso Chaco, nosso altiplano e nossas planícies e vales foram cobertas de relva e flores. Povoamos esta sagrada Mãe Terra com rostos diferentes, e compreendemos desde então a pluralidade vigente em todas as coisas e nossa diversidade como seres e culturas. Assim conformamos nossos povos, e jamais compreendemos o racismo até que o sofremos a partir dos funestos tempos coloniais. ... Cumprindo o mandato de nossos povos, com a força de nossa Pachamama, e graças a Deus, refundamos a Bolívia".

     Nessas breves palavras, há uma pouco dissimulada fobia anti-hispânica, que é uma fobia anticristã.

     Em 2006, o jornal Los Tiempos, de Cochabamba (20/06/06), dizia: "Evo Morales assumiu o poder político da nação com um espetacular desdobramento de rituais religiosos alusivos a Pachamama (Mãe Terra), o Deus Inti, as Achachilas e todas as divindades da religião natural vigente nos tempos do Collasuyo (território do Império Inca, situado mais ao sul). .... Honrar a terra ou Pachamama, para que dê frutos; o sol e as altas montanhas, para que com seus raios e riachos, respectivamente, fertilizem a tão querida e venerada Deusa.  ... O Palácio de Governo de La Paz foi cenário de cerimônias com rituais religiosos andinos, nos quais os atores mais pareciam 'Callahuayas' ou sacerdotes aimaras, do que autoridades do Estado. Um governo, o de Evo Morales, colado na religião natural andina, mas com cola de sincretismo religioso. Um dia encabeça as 'milluchadas' [2] em honra a Pachamama, noutro dia, aos santos nos templos católicos".

     Uma nova religião

     A oposição da hierarquia eclesiástica ao novo texto constitucional produziu em Evo Morales a grosseria que deu mostras na reunião do Foro Social Mundial (Belém do Pará, Brasil, 27/01/09 a 01/02/09). "Na Bolívia apareceram novos inimigos, não só na imprensa de direita, mas também em grupos da Igreja Católica, os hierarcas da Igreja católica que são inimigos das transformações pacíficas", disse Evo. "Quero dizer-lhes que, assim como se grita ‘Outro mundo é possível’, eu quero dizer-lhes que outra fé, outra religião, outra igreja também são possíveis", vociferou Morales (Los Tiempos, 30/01/09), enquanto era aplaudido pelos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; do Equador, Rafael Correa; do Paraguai, Fernando Lugo, e da Venezuela, Hugo Chávez, acompanhados de Leonardo Boff.

     A Conferência Episcopal, em sua crítica ao Projeto de Constituição de 15 de janeiro de 2009, havia advertido que "o Projeto da nova Constituição não reconhece a profunda realidade religiosa do povo boliviano, que majoritariamente professa a fé cristã, e ignora a importância histórica, cultural e social da Igreja Católica e de outras igrejas cristãs na formação da identidade e desenvolvimento nacional. Surge como contraditório o texto proposto: ‘O Estado é independente da religião’ (art. 4), com o estabelecido no art. 98, inc. II, que estabelece: ‘O Estado assumirá a existência de culturas indígenas originárias camponesas, depositárias de ... espiritualidades e cosmovisões’, que pode interpretar-se como significando que o Estado assume só as espiritualidades indígenas originárias camponesas".

     A Constituição viola os princípios não negociáveis

     O indigenismo neomarxista, promovido pela Teologia da Libertação, que está mais ativa do que nunca em sua versão eco-indigenista – como no Equador e no Paraguai –, rende-se ao imperialismo dos países centrais quando se trata de oprimir a vida humana e a família. A Constituição boliviana é outro exemplo de submissão dos países do Sul às regras ditadas pelos países do hemisfério Norte. Não respeita os princípios não negociáveis enunciados por Bento XVI.

     Diz a Conferência Episcopal no documento já citado:

     – "O Projeto da nova Constituição não reconhece o direito à vida 'desde a concepção'" (Art. 15, I);

     – A ambigüidade dos chamados direitos sexuais e reprodutivos (Art. 66), coloca em perigo a integridade da família em sua função procriadora, e debilita o direito dos pais de exercer em relação aos seus filhos a missão educativa. Persiste o perigo de limitar a autoridade dos chefes de família sobre seus filhos e é colocado em risco o ideal da pessoa humana, família e sociedade, sob o aspecto dos valores cristãos ou culturais nativos, no marco do respeito à dignidade humana. O caráter ambíguo da formulação constitucional do 'casamento entre uma mulher e um homem' (Art. 63) e do reconhecimento estatal das 'famílias' (Art. 62), como se fossem uma das várias espécies de casamento ou de família, abre a possibilidade de que se considerem como tais as relações entre casais formados por pessoas do mesmo sexo".

     Por outro lado, a Conferência Episcopal destaca que estão em perigo os direitos dos pais dentro do sistema educativo institucionalizado e o reconhecimento do direito de ensino pelas entidades religiosas.

     Embora os bispos não tenham reparado nisso, o texto favorece o reconhecimento social e jurídico da homossexualidade, ao sancionar a suposta discriminação por "orientação sexual, identidade de gênero" (Art. 14, II).

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     NOTA:

    [2] Rito indígena que se pratica para chamar os "ajayus" (espíritos extraviados, para que retornem ao corpos), ou para afastar coisas negativas e insuflar boa sorte nas atividades.

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     * Artigo publicado em 12-03-2009, no site argentino http://www.noticiasglobales.org

 

     – Tradução: André F. Falleiro Garcia.

 

 

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