O EIXO OBAMA-LULA E O FUTURO DA AMÉRICA LATINA

 

DESTAQUE INTERNACIONAL

 

O presidente Obama, na política que inaugurou para a América Latina, parece haver escolhido caminhos equivocados: estendeu a mão aos líderes mais radicais da esquerda e depositou sua confiança em um “moderado útil”, o presidente Lula, que se dedica a colocar panos quentes sobre os desmandos desses radicais

 

     A recente Cúpula das Américas, realizada em 18 e 19 de abril de 2009, na cidade de Puerto España, Trinidad Tobago, serviu para consolidar as recentes – mas já estreitas – relações entre o presidente Obama, dos Estados Unidos, e o presidente Lula, do Brasil. Tais relações estão formando uma nova e enigmática co-liderança continental.

     Na Cúpula, Obama foi pródigo em apertos de mãos, abraços, gestos e palavras, com os líderes da esquerda radical latino-americana. Também estendeu a mão para a ditadura comunista de Cuba, chegando a oferecer-lhe “um novo começo”. As cenas protagonizadas pelo presidente estadunidense em Puerto España resultaram chocantes, pelo que significaram em matéria de queda dos “muros psicológicos” – de recusa da opinião latino-americana ao regime castrista e aos governos autoritários de Chávez na Venezuela, Correa no Equador, e Morales na Bolívia. Mas também pelo que significaram, de desalento e debilitamento, para as respectivas oposições que nesses países se esforçam, sob circunstâncias sumamente adversas, para salvar as liberdades.

     Mas a responsabilidade – pela diluição psicológica desses “muros” de recusa às esquerdas – não foi só de Obama. Com efeito, segundo reconheceram diversos analistas, detrás dos bastidores atuou intensamente o presidente Lula, levando adiante uma “diplomacia oculta”, atuando como se fosse parceiro oculto de Obama e tentando consagrar seu papel de “mediador extra-oficial” entre os Estados Unidos, por um lado, e Cuba comunista juntamente com o grupo de governos de extrema esquerda latino-americanos, pelo outro lado.

     A estreita relação entre ambos os mandatários começou em 14 de março pp., poucos dias depois de Obama assumir a presidência de seu país. Lula foi o primeiro presidente latino-americano recebido pela Casa Branca, em um gesto de deferência indiscutivelmente importante. Para a realização desse encontro, foi escolhido um sábado, de maneira que as conversações entre ambos puderam ser realizadas sem as restrições de horários do protocolo dos dias de trabalho normal. Os elogios mútuos e a intensa relação pessoal estabelecida entre ambos, foram notados pelos meios de comunicação.

     Pouco depois do encontro presidencial, estando ainda em território estadunidense, Lula colocou as cartas na mesa. Fez publicamente um incrível arrazoado a favor de Cuba comunista, afirmando que não existiria, desde o ponto de vista da “racionalidade humana”, nada que impeça o restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba.

     Em Londres, em 13 de abril pp., durante a reunião do G-20, Obama aproveitou para impulsionar sua co-liderança continental com Lula, ao dizer em uma roda de governantes, entre sorrisos e apertos de mão: “Esse é o cara. Eu adoro esse cara. É o político mais popular da Terra”.

Obama cumprimentou Lula, olhou para o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, e disse, apontando para Lula: "Esse é o cara! Eu adoro esse cara!". Em seguida, enquanto Lula cumprimentava Rudd, Obama disse, apontando novamente para Lula: "É o político mais popular da Terra".

     Na véspera da Cúpula das Américas, Obama falou por telefone com Lula para coordenar posições e ouvir sugestões. Nessa circunstância, o presidente brasileiro aproveitou para instá-lo a ceder o mais possível com relação a Cuba comunista. Antes de subir no avião que o conduziria a Trinidad Tobago, em entrevista para a rede de televisão CNN, Obama destacou sua estreita colaboração com Lula como um exemplo da “nova era” que se abria entre Estados Unidos e América Latina.

     A pergunta ineludível é: até onde este eixo político estabelecido entre Obama e Lula poderá conduzir a América Latina? Os primeiros resultados, a julgar pelo que ocorreu durante a Cúpula das Américas, são preocupantes.

     Obama, em sua política para a América Latina, lamentavelmente parece haver escolhido caminhos equivocados, que não auguram coisas boas: a aproximação com os líderes mais radicais da esquerda e a confiança nos bons serviços de um “moderado útil”, o presidente Lula, que, tal como o temos mostrado em numerosos editoriais, se dedica a colocar panos quentes em volta dos abusos desses líderes radicais, assim como a amortecer as reações das respectivas oposições políticas e a desalentá-las. Estaremos presenciando uma reedição das velhas políticas de “ceder para não perder”?

     Além do que já foi exposto chama a atenção a apatia – e até a indiferença – com que setores do centro e direita da opinião latino-americana, estadunidense, e dos próprios exilados cubanos de Miami, vão acompanhando essas gigantescas transformações, mudanças e contradições políticas em nível continental, sem que se levantem clamores ou, pelo menos, reações proporcionais.

     Certos fatos ocorridos na própria Cúpula das Américas servem para ilustrar a dimensão dessa apatia. Por exemplo, durante o evento, vários dentre os 35 governantes falaram contra o “embargo” externo norte-americano, sem referir-se, sequer de passagem, à causa do problema, que é o “embargo” interno do regime comunista, que já dura meio século. Pois bem, não houve sequer um mandatário que colocasse os pontos nos is. A Cúpula das Américas, em seu conjunto, colaborou dessa maneira com um terrível “embargo externo”, sobre o qual poucos falam, que é a negação da solidariedade moral e da compaixão cristã com relação a 12 milhões de irmãos cubanos, desgraçadas vítimas do comunismo há 50 anos.

     Nesses mesmos dias da Cúpula, Fidel Castro escreveu que as concessões de Obama eram insuficientes, porque o problema central seria o “embargo cruel” norte-americano, e poucos na América Latina se levantaram para recordar que Castro deveria ver a trave em seu próprio olho, porque o regime que implantou é o exemplo vivo das maiores crueldades realizadas em Cuba, mas também em todo o continente, por meio dos movimentos guerrilheiros inspirados e treinados por Havana.

     É difícil entender como tudo isto possa estar ocorrendo sem que se levante um proporcionado clamor de indignação. Destaque Internacional tem abordado os problemas de apatia e as anestesias psicológicas coletivas que estão afetando vastos setores dirigentes e a população em geral. Um estudo recentemente publicado na edição digital das Atas da Academia Nacional de Ciências (PNAS), dos Estados Unidos, traça uma interessante relação entre a velocidade com que a mídia transmite os numerosos acontecimentos contemporâneos, e a apatia e a falta de compaixão, as quais, por sua vez, produzem a falta de vontade de digerir essa voragem de acontecimentos. Identificar e caracterizar os fenômenos de apatia, indiferença e anestesia psicológica, já é meio caminho andado para encontrar as causas e reverter esse processo.

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     Referências em ordem cronológica:


     Patrícia Campos Mello, "Lula pede fim de embargo a Cuba", O Estado de São Paulo, 17 de março de 2009; Agências de Notícias, "Obama: 'Amo a este tipo'", El País, Montevideo, domingo 05 de abril de 2009; EFE, desde Madrid "Meios digitais: Rapidez estimula indiferença - Cientistas avaliam reações de admiração e compaixão", O Estado de S. Paulo, 14 de abril de 2009; Fabiana Uchinaka e Thiago Varella, "Cuba e crise são principais assuntos do primeiro encontro de Obama com líderes das Américas", UOL Notícias, São Paulo, 16/04/2009 - 21h03; AA.VV., "Por telefone, Lula e Obama afinam posições", O Estado de S. Paulo, 17 de abril de 2009; Ruth Costas, "Obama acena com 'relação de iguais'. Líder dos EUA promete nova era no relacionamento com América Latina", O Estado de S. Paulo, 17 de abril de 2009; Denise Chrispim Marin y Patrícia Campos Mello, "Brasil atua para facilitar diálogo entre Washington e Havana", O Estado de São Paulo, 19 de abril de 2009; Enviada especial de La Nación a Puerto España, "Lula y Uribe, protagonistas detrás de bambalinas. Fueron los encargados de la diplomacia oculta", La Nación, Buenos Aires, domingo 19 de abril de 2009.

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     – Destaque Internacional - Informes de Coyuntura - Año XII - No 275 - San José - 21 de abril de 2009 - Responsable: Javier González.

     – Tradução: André F. Falleiro Garcia.

 

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