O FORO DE SÃO PAULO

VAI ÀS COMPRAS...

 

Percival Puggina

    

Será bem difícil me convencer de que estamos nos armando para fins dissuasivos em relação a nossos vizinhos quando estamos rodeados por parceiros ideológicos aos quais nosso presidente faz concessões com a mesma solicitude com que o vovô atende os pedidos do netinho.

Estará sendo costurado um novo Pacto de Varsóvia ou cogitar disso é teoria da conspiração?

Estou convencido de que temos prioridades maiores, inclusive no seio das corporações militares. Estamos zelando por uma segurança nacional que não está em risco e desatentos à nossa objetiva insegurança pessoal, familiar e social.

Essa aquisição não nos habilita a uma briga com cachorro grande e é desnecessária para uma muito improvável briga com os guaipecas da volta. Não vislumbro qualquer possibilidade de conflito armado contra inimigo externo, mas vejo que estamos perdendo, por absoluta inferioridade de meios, uma guerra real, no front interno, contra o crime organizado.

 


Puggina: Há algo no ar e ainda não são os aviões Rafale. Estará sendo costurado um novo Pacto de Varsóvia?

     O Foro de São Paulo vai às compras... e seus parceiros mostram os dentes. Deve estar acontecendo algo muito grave na América Latina. Tem gente, por aí, sabendo de coisas que não nos foram contadas. Não encontro outra explicação para o sofisticado equipamento bélico que o Brasil pretende adquirir da França.

     São quatro submarinos convencionais, um submarino nuclear, 51 helicópteros de combate, as obras de um estaleiro e de uma base para os submarinos e mais a anunciada intenção de compra de 36 aviões militares de caça. O pacote todo chega à casamata dos R$ 36 bilhões! É grana para fazer o Sarkozy subir de joelhos a escadaria da Lapa.

     Nos últimos seis anos, os orçamentos militares dos países sul-americanos cresceram 91%. E o Brasil, com essa compra, cujos contratos de financiamento já foram aprovados pelo Senado Federal, tornou-se o player que fala mais grosso no meio da turma. Estará sendo costurado um novo Pacto de Varsóvia ou cogitar disso é teoria da conspiração? É? E quem iria supor que meses após a queda do Muro de Berlim os partidos de esquerda da América Latina criariam o Foro de São Paulo, para salvar aqui o delírio que se perdera com o fim da URSS e do socialismo no Leste Europeu? E quem poderia antever que, decorridos 19 anos, aqueles partidos estariam governando mais de uma dezena de países do continente? E quem poderia imaginar Lula, o pai dos pobres, fazendo a alegria dos fabricantes franceses de armamentos?

     Levar a sério a afirmação de que os submarinos são necessários para defender o pré-sal demanda total ausência de senso de humor. E os 36 jatos de combate? São para proteger nossos três satélites? Não se assume um compromisso financeiro de tais proporções por motivos tão descabidos. Será bem difícil me convencer de que estamos nos armando para fins dissuasivos em relação a nossos vizinhos quando estamos rodeados por parceiros ideológicos aos quais nosso presidente faz concessões com a mesma solicitude com que o vovô atende os pedidos do netinho. Lula fez campanha e não mediu palavras para explicitar sua torcida pela eleição deles. Então, não me engana que eu não gosto.

     Fiz as contas. Com R$ 36 bilhões seria possível, por exemplo, duplicar o programa habitacional popular, ampliando-o para dois milhões de unidades, ou permitiria ao governo, que sonha com a volta da CPMF, construir e equipar 150 hospitais regionais com 300 leitos cada! Isso para não falar do disparate que representa armar-nos com sofisticado equipamento de combate, para defender-nos de inimaginável agressão externa, quando estamos perdendo para o crime organizado, no front interno, uma guerra real, por falta de tudo — recursos humanos, legislação, inteligência, articulação, armas, munição, viaturas, presídios e políticas sociais. Estamos zelando por uma segurança nacional que não está em risco e desatentos à nossa objetiva insegurança pessoal, familiar e social.

     Procure no Google “corrida armamentista”. Vai encontrar, em língua portuguesa, 67 mil referências. Basta isso para mostrar que o processo iniciado pela Venezuela e logo seguido por vários outros países do continente está chamando a atenção da mídia nacional impressa e eletrônica. Há algo no ar e ainda não são os aviões Rafale.

     Para concluir: o que diria Lula se essa mesma aquisição tivesse sido feita por Fernando Henrique Cardoso, ou por Itamar Franco, ao tempo em que ele, Lula, pedalava na bicicletinha oposicionista?

     Na boca do jacaré


Lula combinou com Sarkozy a compra de 36 aviões Rafale o mais caro da concorrência e com custo operacional altíssimo sem ouvir a FAB

     No Brasil as coisas são assim. Vamos do oito aos oitenta sempre longe do ponto de equilíbrio. Nossas Forças Armadas vivem à míngua de recursos financeiros e materiais. Nossos soldados andam vestidos e equipados à moda da primeira metade do século passado. Nossos oficiais são mal pagos. Tem recruta brigando por espingarda de rolha nos quartéis. E aí decidimos comprar um sortimento de submarinos, helicópteros e aviões condenados a permanecer no solo porque cada movimento ou operação dará um tombo no custeio do ministério da Defesa. Estou convencido de que temos prioridades maiores, inclusive no seio das corporações militares.

     Ademais, essa aquisição não nos habilita a uma briga com cachorro grande e é desnecessária para uma muito improvável briga com os guaipecas da volta. Por fim, não vislumbro qualquer possibilidade de conflito armado contra inimigo externo, mas vejo que estamos perdendo, por absoluta inferioridade de meios, como sublinhei em artigo anterior, uma guerra real, no front interno, contra o crime organizado.

     No entanto, o presidente Lula deu um soco na mesa das argumentações, declarando que a decisão é sua. E ponto final. É ele que vai determinar, inclusive, qual o avião que mais convém ao Brasil. Entendeu? Foi ele que escolheu o Aerolula de US$ 56 milhões e será ele quem escolherá os 36 Rafale de 140 milhões de euros cada. Desnecessário lembrar ao leitor que o comando da Aeronáutica foi surpreendido pelo majestático anúncio que atropelou o processo de escolha em curso.

     O robusto argumento de Lula reforçou minha convicção de que nosso sistema de governo já é um caso de camisa de força. Quem gosta dele tem que se tratar. Não é possível atribuir-se a uma mesma pessoa, seja Lula ou não Lula: a) as funções de chefe de Estado, chefe do governo, chefe da administração; b) o poder de legislar sobre o que mais importa ao país através de medidas provisórias; c) a competência para indicar os membros do Supremo Tribunal Federal, para escolher a partir de listas os ministros que ocupam vagas no STJ e no TST (bem como nos respectivos tribunais regionais) e para indicar o Procurador Geral da República. Além disso, o presidente, através de diversos, sinuosos e torpes mecanismos, compra e aluga maioria parlamentar.

     Dirá meu leitor à esquerda, que como todo esquerdista é um eterno insatisfeito com o poder que detém: “Mas quem comanda o Brasil é o poder econômico!” Será mesmo? Indique-me um grande empresário que não vá, semanalmente, por si ou por seus representantes federativos, fazer genuflexões diante de Lula. E sabe por quê? Porque não lhe bastasse todo o poder que descrevi acima, o kaiser do Palácio do Planalto comanda 20% do PIB nacional através do orçamento da União! Mesmo assim, meu leitor à esquerda continua achando pouco e os outros parecem não atribuir importância a tamanha concentração de poder. Brincam de colocar a cabeça na boca do jacaré.

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     Percival Puggina (64) é arquiteto, empresário, escritor, articulista de Zero Hora e de dezena de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo e de Cuba, a tragédia da utopia.

     Fonte: Blog do Percival Puggina

 

 

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