ESQUERDA EM CRISE RETROCEDE NA EUROPA

 

Francisco Vianna

    

     Há uma tendência global ao retrocesso da social-democracia. Os partidos socialistas da França, Grã-Bretanha, Espanha e Itália estão em crise.

É uma tendência confirmada pelo recente exemplo do que ocorreu na Alemanha.

Tanto na Espanha, como na Grã-Bretanha, a esquerda poderá perder as próximas eleições.

O que, afinal, aconteceu?

 

     A  ruidosa queda do Partido Social Democrata (SPD), nas eleições de domingo passado na Alemanha, confirmou a crise em que se encontram os partidos europeus surgidos da matriz socialista, particularmente na França, Grã-Bretanha, Espanha e Itália.


Bernard-Henri Lévy, filósofo político, crítico social e socialista, disse recentemente que o Partido Socialista Francês "já está morto. Ninguém se anima em dizê-lo. Mas todos sabem disso".

     Atribui-se tal crise à perda de identidade ideológica, à incapacidade notória e antiga de oferecer uma alternativa para a resolução da crise financeira e econômica, às ambições e corrupção dos políticos que compõem a esquerda na Europa.

     "Há uma tendência global ao retrocesso da social-democracia desde há 20 anos", constata o cientista político francês Philippe Braud. Pesa contra o socialismo o fato concreto de nunca, em época alguma, essa ideologia ter proporcionado qualquer tipo de progresso considerável à sociedade, aliado ao fato de que a estatização da economia só gera falta de liberdade política, corrupção e ineficiência administrativa.

     No mesmo dia em que os eleitores alemães infligiram ao SPD a sua pior derrota desde a Segunda Guerra Mundial, os socialistas portugueses perderam a maioria absoluta no Parlamento e, com apenas 23% da intenção de voto para as eleições de maio próximo, as enquetes colocaram o governante Partido Trabalhista britânico em terceiro lugar, atrás dos conservadores e do Partido Liberal Democrata.

     O trabalhismo (esquerdista) poderá perder o poder depois de 14 anos. O mesmo poderá ocorrer na Espanha nas eleições legislativas de 2012. De fato, uma enquete publicada ontem pelo diário El País revelou que 61% dos espanhóis desaprovam as medidas tomadas pelo governo socialista de José Luis Rodríguez Zapatero para enfrentar a crise. O oposicionista Partido Popular tem a vantagem de quatro pontos percentuais em relação ao socialismo no que tange à intenção de voto.

     A exceção parece ser a Grécia. O PASOK, de George Papandreou, ganhou ontem por ampla margem as eleições legislativas antecipadas.

     Em julho, os eleitores também castigaram os partidos de esquerda nas eleições para o Parlamento Europeu. Em abril de 2007 infligiram uma rotunda derrota à candidata socialista-comunista francesa Ségolène Royal, nas eleições presidenciais que levaram Nicolas Sarkozy ao Palácio de Champs Elisée.

     Mais grave ainda: nos países onde perderam o poder, os socialistas estão cada vez mais divididos, e sem qualquer representatividade, como no caso da França, da Itália e agora da Alemanha. Quando, há poucas semanas, foi perguntado ao filósofo socialista francês Bernard-Henri Lévy se acreditava que seu partido estava moribundo, ele respondeu: "Não, já está morto. Ninguém se anima em dizê-lo. Mas todos sabem disso".

     Há dez anos, a situação da social-democracia na Europa era completamente diferente. A esquerda estava no poder em 12 dos 15 países membros da UE. O Novo Trabalhismo de Tony Blair e o reformista SPD de Gerhard Schröder se autodefiniam como os "novos radicais", e invocavam uma "terceira via" do socialismo, com uma atitude aberta em relação à economia de mercado. O que, então, aconteceu?

     Por um lado, "todo mundo, inclusive a direita, se tornou ‘social-democrata’: até Nicolas Sarkozy e Angela Merkel defendem a ‘proteção social’, o salário mínimo, o seguro de saúde estatal”, afirma Braud. E, numa época em que a globalização tem sido imposta à economia de mercado, "a direita parece paradoxalmente mais tranquilizadora", acrescenta.

     Simultaneamente, "a esquerda se deslocou para o centro e começou a se apresentar como uma força moderada e responsável, aos poucos abandonou os dogmas do ‘progresso social estatizante’, se desproletarizou e se transformou no partido da classe média alta", afirma o teórico britânico Stuart Thomson, autor de um trabalho acadêmico sobre o dilema social-democrata.

     Na França, por exemplo, o Partido Socialista é o representante dos "bo-bo" (bourgeois bohèmes, ou ‘burgueses boêmios’). Essa nova classe de profissionais de sucesso se nutriu na ideologia de 1968, e foi se movendo para a direita a partir da chegada de François Mitterrand ao poder em 1981, e, sobretudo, depois da queda do Muro de Berlim, em 1989.

     Na Alemanha, o processo foi similar dentro do SPD. Na Espanha, ocorreu a mesma coisa com o PSOE. E na Grã Bretanha, onde o Novo Trabalhismo de Tony Blair dissolveu os últimos restos de marxismo num molho neoliberal, aceitável para amplos setores da sociedade que, tradicionalmente, consideravam o trabalhismo ou o socialismo como "idiotas úteis a serviço do comunismo". A crise da esquerda chegou (ou inclusive começou) nos países escandinavos, onde o modelo social-democrata parecia formar parte do patrimônio genético.

     Essa corrida à direita dos partidos socialistas, após a queda do império soviético, teve outra consequência: com suas novas vestimentas mais apresentáveis, a esquerda deixou de ser a via que canalizava o voto de protesto do proletariado, das classes mais desfavorecidas e dos setores populares que se sentem mais ameaçados. Num mundo em crise, os partidos de direita ganharam votos prometendo mais eficiência do que a esquerda e, ao mesmo tempo, reduzindo impostos, promovendo maior regulação financeira e um melhor futuro para a gente mais graúda.

     "A direita européia tem sido capaz de se adaptar ao modernismo", afirma o historiador francês Michel Winock. Em sua opinião, esse é um processo que necessariamente deve assumir a esquerda se quiser recuperar seu antigo papel.

     Como achar novas fórmulas para lutar contra a disparidade de renda e assegurar a proteção social em economias cujos recursos diminuem? Como fazer frente à fragmentação social e cultural da sociedade? Para responder a esses "novos" velhos desafios, "o socialismo europeu deve fazer um trabalho político e ideológico de profundidade", adverte Alain Bergounioux, historiador e diretor de La Revue Socialiste. "Não pode voltar à visão estatizante e de distribuição de renda da social--democracia do início da década de 1980", prossegue. Se quiserem sobreviver, "os socialistas terão que refletir e decidir sobre como pretendem reformar o capitalismo e pensar com seriedade no que o Estado pode e não pode fazer no século XXI", insiste Winock. Caso não consigam fazer isso, conclui, "sua queda inevitável será uma notícia muito exemplar para o futuro da democracia na América Latina".

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     Fontes:

La izquierda pierde poder en Europa

La derecha encuentra en la crisis a su mejor aliada

Izquierda en crisis — Los partidos socialdemócratas europeos pierden aceleradamente su relevancia política de antaño

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