A evolução das esquerdas e direitas européias e o caso hondurenho

 

André F. Falleiro Garcia

 


A vencedora Angela Merkel (d), ao lado de Frank-Walter Steinmeier (e), líder do Partido Social-Democrata, de viés socialista, que sofreu a maior derrota de sua história

     A crise do socialismo manifestada nas recentes eleições européias, inclusive na eleição de 27 de outubro que provocou a  ruidosa queda do Partido Social-Democrata (SPD) alemão[1], não representa o triunfo da democracia liberal ou do sistema capitalista. Decorre em boa medida de um processo de transformação das esquerdas e direitas.

     De fato, a convergência, rumo à qual ambas caminham no velho continente, supõe um desbotamento ideológico do comunismo e inclusive do socialismo. E, de modo similar, implica numa variável atenuação no perfil das direitas.

     Seguindo a dinâmica do processo revolucionário de distensão e aproximação entre capitalismo e socialismo, a direita veste roupagem social-democrata e a esquerda se metamorfoseia em centro-esquerda. O desbotamento das tonalidades ideológicas torna essa manobra política mais atraente e aceitável para a opinião pública, especialmente pelos otimistas e ingênuos. Mas tem custo político elevado, auferido em derrotas eleitorais e crise de identidade ideológica dos partidos políticos de esquerda.

     O estado de coisas que a convergência vai estabelecendo na Europa não é o de um Gulag repressivo, mas o de um continente destroçado nas suas estruturas político-sociais e psicológicas. Não apenas está morto o Partido Socialista Francês, como afirmou o filósofo socialista Bernard-Henri Lévy. A própria sociedade européia está em franca agonia, senão morta. E esse estado de coisas, mórbido, caótico e desagregador, cruzou o Atlântico e se instalou na América. Na Argentina, por exemplo, a presidente Kirchner pôde até afirmar de modo capcioso ser ela a alternativa para o caos completo. Como se o casal dirigente não tivesse responsabilidade direta pela propagação desse mesmo caos.

     Nesse amplo contexto, a agonia de nossa civilização acontece de modo lento e gradual, na marcha morosa do caos apático, sacudida por episódicos lances de caos factual que aceleram esse pavoroso processo, que se encontra em fase já bastante adiantada.

     Não é nessa crise da social-democracia européia que devemos colocar nossas esperanças, e sim, na resistência e na luta sustentada pelos que aqui na América se recusam a aceitar a fórmula convergencialista.

     Oxalá a pequenina e valente Honduras continue a dar ao mundo o bom exemplo, e recuse as propostas convergencialistas que lhe estão sendo exigidas, senão impostas, nas tratativas em curso. Ao contrário do que a grande mídia e os governos dão a entender, o grande vulto político nesse episódio não é Manuel Zelaya. Como afirmou João Mellão Neto, Zelaya é "um cadáver político" e "como tal, já se encontra em estado avançado de putrefação[2]. A política desvairada do Itamaray procura agora se livrar de seus restos mortais e minimizar os efeitos desastrosos de sua infeliz intervenção nos assuntos internos hondurenhos.


4 jornalistas foram expulsos da embaixada brasileira pela mulher de Zelaya

     A vergonha brasileira não poderia ser maior: como se fosse a dona da casa, hoje mesmo a ex-primera-dama Xiomara Castro de Zelaya expulsou de nossa embaixada em Tegucigalpa quatro jornalistas: uma jornalista nicaragüense, um fotógrafo venezuelano da rede Telesur, um repórter hondurenho. E... o que causa ainda mais pasmo: um correspondente brasileiro [3] foi expulso da embaixada de seu próprio país, por uma estrangeira. Pela esposa de um ex-presidente que ali também se encontra alojado, ambos na condição de "hóspedes", ao arrepio do Direito Internacional e da Constituição brasileira[4]. Se os partidos políticos brasileiros de direita ou centro-direita não fossem convergencialistas e não estivessem amalgamados com os de esquerda, com certeza ouvir-se-ia ressoarem altos brados de impeachment em nosso Congresso Nacional.

     Diante de tanto despropósito e descalabro, o presidente Roberto Micheletti tem se apresentado com grandeza de estadista que não se dobra às pressões internacionais, dotado de energia férrea na defesa das instituições de seu país face à agressão do bolivarianismo, com qualidades que fazem lembrar a postura heróica de Churchill na sua luta contra o nazismo.

     Para a política convergencialista mundial, mais importante do que a vitória de Zelaya é a capitulação de Micheletti, se este aceitar uma fórmula de acordo concessiva que faça tabula rasa dos posicionamentos que sustentou até agora. Nessas condições, se for acordada a impunidade para Zelaya e garantido seu retorno ao poder, com "anistia" para as partes, "ipso facto" o país estará sob a ditadura do relativismo político que iguala procedimentos antitéticos. E num segundo momento, que não tardará, os criminosos "anistiados" agirão como ditadores bolivarianos, e os autênticos defensores das instituições hondurenhas também "anistiados" serão vilipendiados e encarcerados.

     Não se pode esperar outra coisa da revolução bolivariana e seus agentes hondurenhos. Ao cotejar Europa e América, percebe-se nítida variação cromática: aqui, a coloração vermelha é muito mais carregada do que nos ambientes europeus de direita e esquerda permeados pelo cromatismo matizado e enganador das esquerdas.

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     NOTAS:

 

    [1] A respeito da crise das esquerdas européias, ver:

La izquierda pierde poder en Europa

La derecha encuentra en la crisis a su mejor aliada

Izquierda en crisis — Los partidos socialdemócratas europeos pierden aceleradamente su relevancia política de antaño

    [2] Cf. artigo de João Mellão Neto, Ninguém é louco, publicado no OESP em 09/10/2009.

    [3] Segundo jornais locais, o nome do correspondente brasileiro é Laubana Santana.

    [4] Cf. Periodistas internacionales abandonan embajada brasileña.

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     Artigos relacionados:

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Caos apático e factual na revolução tribalista peruana

 

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