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PARA ONDE VAI O ELEITORADO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO?

André F. Falleiro Garcia

 

     Seria temerário apresentar esta análise como se fosse a última palavra sobre as eleições norte-americanas, como também seria arriscado nela apostar todas as fichas, em época de acontecimentos tão caóticos e sujeitos a vaivéns como a nossa. Mas é razoável e útil observar os movimentos da opinião publica, a modelagem das mentalidades, a flutuação das apetências e a sua saturação, para sondar para onde se movimenta o eleitorado dos EUA. A partir desse primeiro e profundo insight, conjecturar então as reais capacidades dos candidatos republicanos entrarem em sintonia com as melhores disposições dos eleitores e de personificarem o líder capaz de confrontar e superar os graves desafios que sua nação enfrenta no momento. 

Trump e Cruz
Donald Trump e Ted Cruz num debate.

    Com efeito, para formar opinião sobre qual dos candidatos republicanos é o mais adequado para representar o eleitorado conservador na disputa eleitoral, convém notar o estado atual da opinião conservadora e inclusive o do segmento de direita. E depois disso investigar se a imagem do candidato tem o condão de simbolizar essa aspiração profunda e de ser fator unificador. Por fim, avaliar se tem chance de primeiro vencer as prévias e depois Hilary Clinton ou Bernie Sanders e tirar a esquerda do poder nos EUA.

     A saturação do permissivismo moral

     Décadas de relativismo moral, de consequente decadência dos costumes, perda de identidade, massificação e despersonalização dos indivíduos, geraram em parte da opinião pública ocidental e norte-americana a inconformidade e saturação com essa situação. A novidade do movimento hippie, a turbulência dos acontecimentos da Sorbonne em 68 e o festival de Woodstock em 69 fascinaram a juventude da época, mas o decurso do tempo deixou à vista a precariedade do novo modelo cultural e a inconsistência dos novos ídolos. Há hoje o desinteresse generalizado pelos temas internacionais, a sensação de não se sentir representado pela classe política, a decepção por notar que os republicanos e os democratas quando chegam ao poder impõem a mesma agenda.

   A inversão no movimento pendular: as novas apetências

     Num movimento pendular, depois da desilusão do permissivismo veio para certa parcela da opinião pública a apetência de restauração da ordem. A indústria cultural, que não deixou de apontar para a mudança de paradigmas e a ruptura dos padrões tradicionais, não conseguiu evitar o surgimento de novas tendências, profundas e irreversíveis. Onde reinava o relativismo, brotou a busca de certezas; onde tudo era permitido, ressurgiram regras; onde o subjetivismo era a lei, espocou a procura de referência objetiva. A figura do líder permissivista e pacifista perdeu encanto, as atitudes contundentes e eficazes hoje têm glamour.

     O jogo mundial de influências

     O cenário político norte-americano não é estanque ou isolacionista. Três são as figuras de projeção mundial que aparecem quase diariamente nos noticiários e podem influenciar a opinião pública ocidental em geral e a norte-americana em particular: o presidente Barack Obama, o Papa Francisco e o presidente russo Vladimir Putin. Como são vistas pelo eleitor médio republicano?

     O americano conservador não parece ter nenhuma dúvida com relação a Obama, com seu nítido viés esquerdista, sua política externa capitulacionista, promoção da revolução cultural dentro dos EUA, investida contra o uso de armas, favorecimento do aborto etc.

Papa Francisco e Obama

Papa Francisco e Barack Obama

     O Papa Francisco critica continuamente o sistema capitalista e corteja líderes socialistas, faz declarações controvertidas que favorecem a revolução cultural esquerdista, e choca o conservadorismo americano com pronunciamentos que alimentam a agenda gay e a ideologia de gênero que Obama promove.

    
     O presidente Putin tem sido apresentado como símbolo de masculinidade, força e certeza, ao proibir manifestações homossexuais e clamar contra o permissivismo. Tem encontrado simpatia e apoio na direita ocidental tanto europeia quanto americana. Aparece como líder mundial preocupado com a restauração dos valores cristãos, mas não oculta sua propensão stalinista. Sua índole imperialista, explícita na conquista da Crimeia, tem sido temperada, para que a presença militar russa na Ucrânia e na Síria não assuste o ocidente.

     Obama criticou Trump: “Continuo achando que Trump não será presidente. Ser presidente é um trabalho sério. Isto aqui não é apresentar um ‘talk-show’ ou um ‘reality show’”. Putin, conforme o papel que representa, elogiou o candidato Donald Trump, e o mesmo respondeu com cortesia política. O Papa Francisco, por sua vez, comentou: “Trump não é cristão”. E a réplica foi imediata: “O Papa desejaria e rezaria para que eu fosse presidente se o Vaticano for atacado pelo Estado Islâmico. Estou orgulhoso de ser cristão, e como presidente não tolerarei que se enfraqueça e se ataque de forma constante a cristandade, como acontece agora com nosso atual presidente”.

     A metamorfose do comunismo

     Putin utiliza em seu favor a propaganda e a desinformação através dos meios que dispõe: o amplo “know how” da KGB/FSB, o canal de TV Russia Today, a mídia esquerdista ocidental, a rede de agentes de influência e intelectuais orgânicos etc. Não é por acaso que sua propaganda pessoal (conforme a técnica russa denominada “glasnost”) é meticulosamente graduada para satisfazer as novas apetências afloradas na direita ocidental. Recebe cobertura midiática diária para aparecer exatamente como convém perante a opinião pública ocidental e granjear simpatia pelas suas aparentes qualidades.

Patriarcado de MoscouPutin, ex-diretor da KGB até 1999, cumprimenta o Patriarca Kirill, ex-agente da KGB com o codinome Mikhaylov.

     Em contrapartida, tais qualidades estão ausentes em Obama e nas demais lideranças ocidentais. Obama, por sua vez, aparece (e o é) como o malandro risonho e vazio. O contraste entre os dois estereótipos, entre os conservadores, favorece Putin. Isto explica que no campo tendencial e das mentalidades obtenha a simpatia de setores da direita, não obstante seu eurasianismo imperialista que não se compagina com seu “new look” cristão.

     Em contrapartida, tais qualidades estão ausentes em Obama e nas demais lideranças ocidentais. Obama, por sua vez, aparece (e o é) como o malandro risonho e vazio. O contraste entre os dois estereótipos, entre os conservadores, favorece Putin. Isto explica que no campo tendencial e das mentalidades obtenha a simpatia de setores da direita, não obstante seu eurasianismo imperialista que não se compagina com seu “new look” cristão.

     É espantoso notar como Putin, para efeitos norte-americanos e mundiais, é associado com o conservadorismo. É o fruto de hábil campanha de desinformação e propaganda, desenvolvida pela KGB desde os tempos de Gorbachev, e continuada pela atual FSB, com vistas ao lançamento de um líder russo criptocomunista apresentado com as virtudes civis, morais e religiosas valorizadas no ocidente. Talvez seja este o maior e mais requintado lance de guerra psicológica revolucionária no campo temporal até hoje promovido por Moscou. Aliás, foi o próprio diretor da KGB, Vladimir Putin, que em 1999 subiu ao poder e de lá não saiu mais.

     A autenticidade pessoal em confronto com a servidão partidária

     Há outros aspectos a serem mencionados e que de algum modo influem na disputa eleitoral norte-americana. A candidatura de Bernie Sanders, de perfil claramente comuno-socialista, de um lado, jogou habilmente Hillary Clinton para a posição de centro-esquerda. De outro lado, a divisão instalada na opinião pública norte-americana se tornou ainda mais patente com a surpreendente popularidade de Sanders. Com isso os abismos já existentes se aprofundam, as heterogeneidades se exacerbam e podem preparar uma futura desestabilização e possível fragmentação dos EUA.  

     Qual líder político poderia congregar os conservadores norte-americanos? Até se iniciar o processo eleitoral, Jeb Bush avançava como favorito. Essa promoção midiática ilusória não se sustentou e o candidato derrotado e envergonhado abandonou a disputa. E o candidato de verniz católico, Marco Rubio, até agora não venceu nenhuma das três prévias em que competiu.

     Os republicanos tem necessidade premente de um líder com carisma suficiente para congregar a parte melhor da opinião pública e propulsionar a reação conservadora de direita nos EUA. É preciso um candidato de perfil aguerrido e prático, empreendedor e simplificador, além de unificador. E, principalmente, capaz de vencer a Hilary Clinton ou o Sanders.

     A rigor, ainda há três candidatos viáveis na corrida republicana: Trump, Cruz e Rubio. Contudo, o recente resultado na prévia eleitoral da Carolina do Sul de tal modo favoreceu a candidatura de Donald Trump, que dispensa, ao menos por ora, a análise dos outros dois.  

Personalidade carismática

Nesta fase da campanha o que mais conta é a personalidade do candidato e não tanto o seu progrma.

     Trump não se apresentou como o mais conservador entre os candidatos republicanos. Sem ser o candidato ideal, parece o mais viável. Enquanto pessoa é carismático, líder, empresário de sucesso, decidido e pragmático. Tem personalidade e criou um estilo próprio e original, tendo como base o "American Dream". Como celebridade empresarial e midiática, assumiu toda carga simbólica do “self made man” voltado para o sonho americano: trabalho duro, dedicação, competência, eficiência, pragmatismo e sucesso financeiro. Sem fazer minuciosa e escrupulosa análise de valores morais e princípios, contenta-se basicamente com a ideia de que a redenção vem pelo sucesso financeiro, como descreve Max Weber. Note-se que ele é protestante. 

     Como candidato Trump se apresenta com carga simbólica clara e inequívoca, que representa em grande medida o espírito americano. Sobressai pelo perfil aguerrido, pela fala clara, pelos ditos espirituosos, pelas soluções práticas e em sentido contrário ao comportamento politicamente correto. Além do sonho americano, ele evoca John Wayne, o mítico cowboy de revólver em punho a toda hora. Fugiu do velho e calejado discurso político do partido. Não teve medo de romper com o “establisment” do partido, de abordar questões espinhosas e apresentar soluções que agradam e satisfazem as apetências profundas da mentalidade conservadora americana.  

     Konrad Adenauer, que na Alemanha do pós-guerra foi chanceler, dizia que a principal tarefa de uma corrente de opinião que quer se expandir é atrair antes de tudo aqueles que normalmente a ela pertencem ou sentem natural atração para ela. Neste quesito Trump tem se revelado exímio aglutinador. Se for vitorioso nas prévias, partirá muito embalado para a conquista do centro decisivo da opinião pública. Personalidade carismática atrativa desse naipe, entre os republicanos, foi Ronald Reagan. Diz o que muitos gostariam de ouvir, e aí está a sua vantagem. Se de fato irá depois fazer o que promete, é outro assunto, a ser levantado se e quando for eleito. Seu discurso claro sobre pontos essenciais e sua atitude aguerrida já estimularam muitos bons americanos e escandalizaram o “establishment” republicano acostumado a ter "puppets" em Washington.


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     REFERÊNCIAS PARA CONSULTA:

A Neurologist Has Tried to Pinpoint What Bugs Him About Ted Cruz’s Face.

Stop calling Ted Cruz a conservative: This self-promoting narcissist is a fraud and a nihilist.

Greta Van Susteren SLAMS Ted Cruz: HORRIBLE! ... This Is APPALLING!

Trump: Cruz is a 'basket case".

Papa Francisco diz que Donald Trump não é cristão.

Donald Trump transforma o Partido Republicano.

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     ARTIGOS DE INTERESSE RELACIONADOS:

    • Obama considera relacionamentos homossexuais legítimos e admiráveis como os heterossexuais.

     Obama mostrou muita ousadia durante evento promovido pelo movimento homossexual Human Rights Campaign em Washington – por André F. Falleiro Garcia. Sacralidade também apresenta as traduções de artigo de Pete Winn e de notícia publicada em site argentino – 03 novembro 2009.

    • O meteoro Obama.

     O desastre do "meteoro" Obama ao chocar-se com o conservadorismo americano – Luis Dufaur – 12 outubro 2009.

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     André F. Falleiro Garcia é advogado e editor do Site da Sacralidade.

     Postado em 24/02/2016.

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