Um conto sobre a sacralidade e o caos

 

MEMÓRIA

 

André F. Falleiro Garcia

 

     Quando entardecia, o rapaz gostava de passear a pé, para contemplar a estética das casas, observar o desenho dos jardins, analisar a fisionomia das almas. Ainda não tinha chegado aos quinze anos de idade. Os turbulentos anos 60 marcavam essa época. Esses passeios vespertinos, quase noturnos, favoreciam a elevação de seu espírito, e lhe proporcionavam momentos de reflexão e paz.

     Às vezes, passava em frente a uma das igrejas da cidade provinciana. Encostado ao muro, costumava estar nesse horário um sacerdote, com talvez setenta anos de idade. Espírito vivaz, voz alta e sonora. Usava uma piteira de ouro para fumar. De vez em quando, com discrição, abençoava as crianças ou outros conhecidos que passavam pela rua. Via-se reluzir em seus olhos a bondade de seu coração.

     Com sotaque carregado, não acentuando adequadamente algumas palavras da língua portuguesa, o padre ucraniano católico comentava as suas lembranças do terrível “komunismus” que flagelou seu país. Depois, enaltecia as virtudes da “democrácia”. Acrescentava ainda mais algumas palavras sobre a “poésia” do crepúsculo. Como de costume, não nos despedíamos sem que ele tivesse mencionado o clássico Beethoven e a Yma Sumac, notável contralto peruana cuja voz alcançava a extensão de mais de cinco oitavas.

     O jovem o conhecia de bem perto. O sacerdote já viera abençoar a sua casa e nela participara de alguns almoços dominicais. Dele conservava essa lembrança indelével: o recolhimento. Durante a Santa Missa, mesmo quando se voltava para o povo, como celebrante mantinha o olhar recolhido. Olhava para o chão, mas quem o via, compreendia que ele estava todo imerso na consideração de Deus.

     Vendo-o mais pensativo do que o costume, o jovem interrompeu seu passeio. Aproximou-se e iniciou um diálogo com ele.

     — Pe. Rafael, no que o Sr. está hoje pensando?

     — Meu filho, respondeu ele, eu estava pensando sobre o que acontecerá com o mundo nas próximas décadas. Eu não mais estarei vivo, mas vejo o futuro com muita preocupação.

     — Pe. Rafael, o Sr. acha que o comunismo um dia vai dominar o Brasil?

     — Não é bem nisso que eu pensava, meu filho. Os militares não deixariam isso acontecer. Eu refletia sobre uma outra coisa.

     — Como assim, Pe. Rafael?

     — O que vai acontecer no futuro? Deus cada vez mais se afastará do mundo? Ou os homens ainda vão se aproximar novamente de Deus?

     A questão ficou sem resposta na ocasião. Não se sabe se o sacerdote chegou a encontrar uma explicação para essa situação antes de falecer, nos anos 80.

     Quarenta anos depois, a conversa retornou à memória daquele jovem. Já homem maduro, ele me contou o caso, quando o encontrei recentemente numa fila de padaria. Perguntei-lhe se ele encontrara alguma resposta. Ele me respondeu que Deus não o levaria desta vida sem que antes a encontrasse. Contou-me que iria morar com um filho que vive nos Estados Unidos. Então nos despedimos. Comovidos, nos abraçamos e nos separamos.

     O problema levantado há quarenta anos continua atual. Agora há mais elementos para a sua solução, ou, pelo menos, para compreendermos melhor a formulação da questão.

     A distância que Deus tomou em relação ao mundo é cada vez mais patente. Se hoje estivesse vivo, Pe. Rafael diria que o caos em que vivemos parece ser o prelúdio do reino do demônio, o início dos tempos apocalípticos do Anticristo. De outro lado, diria que a chama da verdadeira Fé ainda está acesa em alguns corações, e que a expansão desse espírito de Fé realiza o retorno da sacralidade ao mundo, aproximando novamente os homens de Deus. Mas qual desses fatores prevalecerá? E quando? Quem o poderá saber?

     É próprio aos profetas o discernimento dos caminhos de Deus para a humanidade e a História. Somente um profeta enviado por Deus pode indicar o caminho em direção à luz, para os que estão no meio do túnel escuro. A ele é dado interpretar os acontecimentos mais incompreensíveis e descobrir neles o sentido último dos planos divinos. Talvez as cogitações do Pe. Rafael o tenham conduzido para a consideração do papel do profetismo na História da Igreja. Se fosse possível voltar atrás no tempo para participar daquela conversa, eu lhe faria algumas perguntas sobre os profetas.

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     Para ver outro conto aqui publicado:

          

 

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