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O espírito de cavalaria num episódio da guerra aérea de 1943

 

André F. Falleiro Garcia

 

Charles "Charlie" Brown

Charles "Charlie" Brown, de 21 anos, pilotava o B-17
     Em dezembro de 1943, após participar de uma missão de bombardeio de uma fábrica em Bremen, ficou muito danificado um Boeing B-17 do 379º Grupo de Bombardeio de Kimbolton, Inglaterra. O piloto Charlie Brown e outros membros da tripulação estavam seriamente feridos. Sem bússola, ao invés de voltar para a Inglaterra, a aeronave penetrava no território alemão.

     Quando o B-17 passou em baixa altitude por um aeródromo inimigo, o piloto Franz Stigler recebeu ordem de decolar e abatê-lo. Franz logo percebeu o péssimo estado da tripulação e do avião. Balançou as asas de seu Me 109, indicando ao piloto norte-americano, Charlie Brown, que virasse 180 graus. Depois escoltou e guiou o bombardeio avariado, sobre o Mar do Norte, na direção da Inglaterra. Por fim, Franz saudou Charlie Brown e retornou à Alemanha.

Franz Stigler
O ás da aviação alemã deu um belo exemplo de cavalheirismo

     Stigler disse ao seu comandante que havia derrubado o avião inimigo sobre o mar e nunca revelou a verdade a ninguém. Charlie Brown e seus colegas fizeram um relatório detalhado. Receberam ordens de não comentar o incidente com ninguém, para não prejudicar o autor do generoso gesto.

     Quarenta anos após o final da II Guerra, Charlie Brown resolveu procurar o piloto alemão que se recusou a abater o B-17 com sua tripulação ferida. Escreveu numerosas cartas para a Alemanha, sem sucesso, até que afinal um jornal de ex-pilotos da Lutwaffe estampou uma resposta. Franz Stigler, um ás da aviação alemã em 500 missões de combate, com 28 vitórias confirmadas em combates aéreos e mais de 30 prováveis, apresentou-se. Questionado sobre os detalhes, não restou dúvida de que tinha sido protagonista no episódio.  

Franz Stigler e Charles "Charlie" Brown

Franz Stigler ao centro, entre Brown e o designer

     Stigler, após a guerra, emigrara para o Canadá e vivia perto de Vancouver, na Columbia Britânica. Após uma troca de cartas, Brown voou para lá, em 1989, para encontrar-se com Stigler. “Quase quebrou minhas costelas, ele me deu um grande abraço de urso”, disse Brown.

     Os dois ex-pilotos se visitaram com freqüência desde aquele dia e apareceram juntos em eventos militares nos EUA e Canadá. No Air Force Ball de Miami em 1995, ambos receberam homenagens. Franz Stigler faleceu em 22 de março de 2008, aos 92 anos de idade.

     O episódio tem o sabor das virtudes cristãs outrora praticadas na cavalaria medieval. Comentou Stigler: “Não tive coração para aniquilar aqueles bravos homens. Voei ao lado deles por um longo tempo. Eles tentavam desesperadamente voltar para casa e permiti que o fizessem. Eu não podia ter atirado neles. Seria a mesma coisa que atirar num homem descendo num pára-quedas”.

     Se Stigler tivesse obedecido às ordens superiores, teria abatido o inimigo ferido e indefeso. Mas a obediência cristã não é cega e inexorável como a pagã. Está sujeita às regras morais. Há situações em que é lícito não obedecer às ordens superiores e tomar uma atitude independente. Esse belo fato de guerra reviveu o antigo espírito da cavalaria medieval. E proporcionou aos Cruzados do Século XXI uma lição prática sobre os limites da obediência e a legitimidade do direito de resistência.

 

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