Outro conto sobre a sacralidade e o caos

 

FELICIDADE QUE DEIXOU SAUDADES

 

André F. Falleiro Garcia

 

     O tráfego de automóveis e ônibus era intenso naquela avenida do centro da cidade. As calçadas fervilhavam de pessoas apressadas e agitadas. De repente, meu colega de trabalho, Norbert, ao meu lado, gritou: tio Otto! tio Otto! E acenou para o outro lado da rua.

      Vamos atravessar! Venha conhecer o tio Otto, disse-me com insistência.

     Atravessamos a rua. Do outro lado, no ponto de ônibus, aguardava o tio Otto. Já tinha ouvido falar dele. Magro e alto, tranqüilo e sério, atento ao que se passava a sua volta. Fomos apresentados e nos cumprimentamos. Foi uma experiência inesquecível.

     Tio Otto olhou-me dentro dos meus olhos. Seu olhar adentrou no mais profundo da minha alma. Com palavras, só disse “muito prazer” e estendeu a mão para o cumprimento. Mas o olhar investigativo, sem dizer uma só palavra, indagou-me: “Você é aquilo que aparenta ser? Quem realmente é você? Quero ver como é por dentro e sem máscaras”. Passada essa rápida etapa investigativa, alguma coisa nele mudou, como se abrisse internamente uma porta para mim. Tive a percepção de uma enorme bondade numa pessoa muito simples.

     De súbito, a chegada do ônibus interrompeu esta conversa quase sem palavras. E a atenção dele se voltou para a subida no veículo. Não sei por que estava num ponto de ônibus no centro da cidade. Tinha seu próprio automóvel. Não era milionário, mas homem de posses com bom padrão de vida.

      Tio Otto, vou lá hoje à noite, disse meu colega.

      Apareçam, respondeu ele, acenando enquanto subia as escadas do ônibus.

     Fiz questão de aceitar o convite e à noite nos reencontrarmos. Estava na varanda de sua casa. Sua mulher, dona Isolde, conversava na sala de estar com uma vizinha. Tio Otto chamou-a e pediu-lhe que trouxesse cervejas e alguma coisa para os visitantes comerem. “Salsichas, de preferência”, sugeriu ele.

     Falou-se a respeito de muitos assuntos. Estava distendido e alegre. Contou-nos que quando era mocinho gostava de viajar para uma estação de águas. Não havia estradas asfaltadas no interior. Quando chovia as viagens eram muito demoradas, correntes eram colocadas nos pneus dos automóveis que encalhavam no barro. A estância hidromineral consistia num grande prédio principal, no qual estava o refeitório; a partir dele formava-se uma rua, com casas de ambos os lados, alugadas para os visitantes e suas famílias. A direção da rua apontava para um rio que não ficava distante.

     “Era lá que eu caçava borboletas, à beira do rio”, contou-nos. “Até havia um tipo de borboleta miúda, que tinha desenhado em cada uma das asas um número, 44 se não me engano. Depois prendia as borboletas em quadrinhos. À noite aquele lugar ficava com um céu estrelado como nunca vi igual. Não havia poluição, nem cidade muito próxima. O céu forrado de estrelas luminosas espalhava alegria e paz. Era como se os anjos do céu estivessem nos vendo com olhos brilhantes.”

     Enquanto comíamos as salsichas, tio Otto dava mais detalhes daquele mundo maravilhoso que só ele conheceu. “Não havia televisão naquela época. Então, à noite, depois do jantar, as mesas eram tiradas do refeitório e ficavam apenas os bancos. Os hóspedes sentavam-se e começava a reza do rosário em conjunto. Aquilo parecia um ambiente de igreja. Aquele povinho do interior tinha muita fé. Ficava no ambiente um imponderável desse fervor. Quando a oração cessava, a multidão ia aos poucos se dispersando. As crianças faziam correrias e brincavam contentes. Os adultos logo iam conversar fora do prédio e fumar. As mulheres continuavam ali mesmo conversando entre si como se não se vissem há muito tempo e tivessem conversa atrasada para pôr em dia.”

     A narração do tio Otto nos transportou para um ambiente interiorano e simples, de habitações modestas, costumes antigos, pessoas sem afetação, com hábito de oração, que hoje são incompreensíveis para nós. O que era aquilo? Uma estação de águas de propriedade de alguma paróquia? Não parecia. Tio Otto contou que o governo estadual estava construindo no local um grande hotel. Todas aquelas casinhas e o prédio central logo seriam demolidos. O governo na época estava investindo nas estâncias hidrominerais. Todo aquele ambiente descrito por ele estava com os dias contados. Hoje temos dificuldade em acreditar que isso tenha existido.

     A essa altura da conversa, meus olhos estavam cobertos de lágrimas. Rolavam pela face e não havia como escondê-las. Tio Otto percebeu e então me disse:

     ― O que aconteceu? Você está chorando?

     ― Não. Só lacrimejando...

     ― Desculpe, rapaz, vou mudar de assunto. Não sabia que essas lembranças impressionam tanto.

     ― Continue, o tema está ótimo. É a primeira vez que experimento o Meerrettich. Arde pra burro!

     Frau Isolde servira o Meerrettich, condimento feito de raiz-forte, para comer com a salsicha juntamente com a mostarda escura. Dadas as devidas explicações, e após muito riso, a conversa continuou.

     Pedimos para ele prosseguir a narração. Os olhos de tio Otto brilhavam quando contava essas coisas. “Isso tudo se passou nos anos 50 e 60. A partir da década de 70 não voltei mais lá. Retornei uma vez só, nos anos 90. Tudo tinha mudado. Havia asfalto por toda a parte. Um luxuoso hotel havia sido construído. As casinhas, o local da água medicinal, tudo foi modificado. Em seu lugar foram instalados os spas.”

     “Fiquei esperando as orações da noite, é claro que nada aconteceu”, lamentou. “Nem havia mais o antigo prédio. Os hóspedes não se relacionavam entre si, todos se isolavam em sua adorada privacidade. Lá fora, só vi casais passeando e procurando lugares escuros. Havia estrelas no céu, mas não como antes. Tudo muito diferente. No hotel percebia-se o ambiente de ‘turismo 5 estrelas’. Nos spas, a idolatria do corpo. O encanto simples de outrora tinha desaparecido completamente. No balcão do hotel me informaram que no dia seguinte, na capela ecumênica, seria celebrada a missa dominical.”

     Agora sim, comecei a sentir um aperto no coração, com a narração do tio Otto. Pois senti que essa descrição caminhava para alguma forma de desastre. Mas disfarcei minha tensão. O Norbert perguntou para o tio se havia mais cerveja. Tudo parou, à espera da chegada das geladinhas. Vieram a Frau Isolde, a vizinha, novas quantidades de salsichas vermelhas, o Meerrettich, a mostarda escura e um vidro de compotas de onde ela tirou o gostoso chucrute. E tio Otto retomou o fio de sua descrição.

     “Perto do meio-dia, no domingo, apareceu o padre. Franjinha na testa, costeleta à la Elvis Presley, ar de galanteador do interior. Fazia gestos estudados para impressionar. Deu-me também a impressão de um pouco adamado. Seu sermão foi todo sobre o amor. Amor humano, é claro. Estava todo voltado para o seu público. O amor divino, bem... este seria o sermão do domingo seguinte. Ou talvez tivesse sido o do domingo anterior. Ama e faze o que quiseres..., pregava. E acrescentava: para os puros, tudo é puro; nenhum alimento que vem de fora pode sujar o coração do homem.”

     Tio Otto considerou que a homilia do padre foi didática, interessou a todos e sobretudo despertou a imaginação. Contou que recorreu, com riqueza de pormenores e calculado desembaraço, ao caso de um monge que, no início do Cristianismo, ao deparar com uma mulher despida, teria elevado um hino de amor a Deus pela formosura... Paremos por aqui, disse para o Norbert, que ouvia com os olhos arregalados.

     O semblante do tio Otto expressava tristeza. Não compreendia como tal sermão não causasse sobressaltos ou desagrados visíveis nos demais hóspedes do hotel. Pensei comigo mesmo: houve a Teologia do Corpo de João Paulo II, depois veio a primeira encíclica de Bento XVI sobre o amor, inclusive sobre Eros. E os jornais noticiaram escândalos de pedofilia na Igreja em muitos países. Como o conteúdo e as exterioridades da Igreja mudaram! Trocou-se o sagrado pelo humano. Deu certo?

     Quando terminou a narração, fez-se silêncio na varanda. Todo um mundo havia desabado para ele. Tio Otto não via continuidade entre o que ele conheceu na sua mocidade e o que reviu depois. Só notava ruptura explícita que dilacerava a sua alma. A essa altura todos estávamos dilacerados.

     E o que eu poderia dizer a ele? Perguntar se foi reclamar com o Bispo? Ou se enviou carta ao Papa? Seria exigir demais que um simples particular tomasse essas providências. Se eventualmente reclamou, nada, absolutamente nada, terá acontecido, a não ser sentir-se ainda mais frustrado e incompreendido. Mas sua fé continuou a mesma, enquanto acentuou-se o seu distanciamento psicológico e físico em relação aos padres progressistas e sua liturgia demolidora do sagrado.

     Esta foi minha primeira conversa com ele. Considero que foi muito proveitosa. Noto hoje que nos últimos quarenta anos as transformações na sociedade e na Igreja foram imensas. O que aconteceu com tio Otto, aconteceu só com ele? Não foi só o mundo dele que desabou. O meu também. Mas foi dito a todos que a reconstrução era maravilhosa e o progresso estupendo. Na realidade, o mundo ficou muito violento, mais triste e sem graça. Resultado: até os spas afugentaram a spes a esperança sobrenatural. Qual será o desfecho dessa situação? Haverá algum remédio humano para a imensa crise do sagrado?

 

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    Para ver o primeiro conto aqui publicado:

    

 

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