GENERAL CESÁRIO E A MÍSTICA DA SACRALIDADE MILITAR

 

André F. Falleiro Garcia    

 

     A vida humana compõe-se de incontáveis atos rotineiros, nos quais o dia-a-dia profissional ou familiar contribui para o progresso de uma cidade, região ou país. Mas não há apenas essa rotina, quase sempre estafante nos dias atuais. Há momentos especiais, que marcam fases da vida individual ou social, proporcionam um clímax de emoção, revestem de gala pessoas e ambientes.

     É o cerimonial que torna sensível a diferença entre uma coisa e outra. As cerimônias emolduram circunstâncias que ficariam banais e se confundiriam com a rotina se não fossem vividas segundo certo ritual.

     Celebra-se de forma cerimoniosa o batizado, a colação de grau, o casamento, o enterro. Ou a tomada de posse de um prefeito, governador ou presidente. Nas monarquias a coroação de um rei é coisa estupenda. As cerimônias militares estão entre as mais belas jóias que reluzem na sociedade temporal.

     Os adornos, formas, cores e movimentos têm grande importância para valorizar esses atos. Quando as pessoas são vazias de valores, nessas horas ficam cheias apenas de faceirice. Esta, como é inconsistente, proporciona contentamento fugaz que logo desce de clave e busca a hilaridade e a trivialidade, chegando muitas vezes até o vulgar.

     Mas se os participantes do cerimonial se voltam para o significado intrínseco daquilo que se passa, então percebem a sacralidade do momento. O acontecimento passa a ter uma dimensão superior. O teto se abre e a ligação com o infinito se estabelece. É o momento da aliança entre o homem que sobe até Deus, e Deus que desce até o homem. Este é o significado da sacralidade. Há uma espécie de superação do presente, que então se acresce do passado e do futuro.

General Cesário

     Não compareci à Passagem de Comando realizada no dia 11 de março de 2009 no Salão Nobre do Palácio Duque de Caxias, quando o General-de-Exército Luiz Cesário da Silveira Filho transmitiu o Comando Militar do Leste para o General-de-Exército Rui Alves Catão.

     Mas posso avaliar o alto significado do ato e a grandeza de espírito de seus participantes através das palavras pronunciadas pelo general Cesário: "As solenidades militares não se esgotam nos seus aspectos visíveis e formais, senão no seu significado profundo de ritual e símbolo, que deve ser interpretado e explicitado, para que se cumpra o seu verdadeiro papel de síntese do que se quer preservar do passado, de testemunho das aspirações do presente e de arauto do que se deseja anunciar do futuro."

     Constato, em suas palavras, a presença de um bem inapreciável: a mística da sacralidade militar. Ela não morreu. Sobreviveu às medalhadas, às caricaturas e ao postiço.

     Mas é preciso interpretar e explicitar o significado intrínseco do que se passou naquele momento. Sem esse esforço, esvazia-se o conteúdo sacral e resta o mero profissionalismo, hoje quase sinônimo de venalidade.

     Eis como o general Cesário apresentou seu testemunho dessa ligação com o sacral militar que o nimbou ainda no berço: "Meu pai, também orgulhoso oficial de cavalaria, vaticinara no meu nascimento 'se fores militar, sejas oficial do Exército, ele é o cerne da nacionalidade brasileira e dentre as armas escolhe a imortal Cavalaria, ela é a doce brisa dos campos de batalha e sobre ela Deus, Deus somente'. Cumpri os seus desígnios."

     Essas palavras inspiradas reduzem à unidade os três elementos da cosmologia militar: a terra, o homem, Deus. Conectam-se o amor à pátria, a carreira militar e o serviço divino. Daí decorre uma mística: de um ato de enlevo à brasilidade, nascido em peito varonil que empunha uma arma, e que sobe como um rojão ao mais alto. Esse enlevo não produz arrogância nem mesmo afetação: gera a abnegação, da qual decorrem o serviço, a obediência e o holocausto.

     O noviciado na arte militar foi realizado pelo general Cesário nesse mesmo espírito, seguindo essa mesma mística: "Ainda na Academia Militar, berço esplêndido de brasilidade e origem de todos nós, aprendi a grandeza e a servidão da vida militar. A par de exaustivos conhecimentos que nos eram transmitidos, absorvi o Espírito Militar que, oxigenado pela camaradagem, é formado por coragem, lealdade, ética, dignidade, espírito público e amor incondicional ao Brasil, virtudes tão escassas nos dias atuais, mas que, naquele templo de amor ao Brasil, jamais deixaremos de ensinar."

     Nas palavras do general Cesário que citamos, podemos identificar o núcleo ideológico que compõem a mística militar: o serviço, a obediência e o holocausto. Pois o conteúdo desse espírito é o serviço à pátria, a obediência à hierarquia de comando e o primado do senso de holocausto sobre o instinto de conservação.

     É justamente o senso de holocausto que ele ressalta, ao se referir ao seu batismo de fogo: "Ainda como cadete do último ano, participei ativamente da Revolução Democrática de 31 de março de 1964, ocupando posição de combate no Vale do Paraíba, oportunidade na qual aprendi que, se necessário for, o soldado deve dispor da própria vida para que os interesses maiores da Pátria se sobreponham às ambições pessoais."

     Mais uma vez, em sua fala, o general retorna ao momento crucial de 1964 — vivido sob as ordens do general Médici que na época comandava a Academia Militar das Agulhas Negras — para exaltar o serviço, a obediência e o senso de holocausto: "Rendo a minha homenagem àqueles que junto comigo, magnetizados pela liderança de nosso Comandante e dos nossos Instrutores, não titubearam diante da possibilidade de derramar o seu próprio sangue, se necessário fosse, sem se importar em sacrificar a sua juventude e as suas esperanças em prol do interesse maior da Pátria".

     A obediência militar, para ser sacral, deve ser governada pela prudência. É preciso uma ordem, vindo de um superior legítimo, que ordene dentro do campo onde pode exerce sua autoridade. Se aquele que manda ultrapassa o âmbito de seu direito de mandar, não há ordem, mas abuso de poder. A um abuso de poder corresponde ao subalterno não o dever da obediência, mas o dever da resistência. São noções que orientaram – e ainda orientam – o procedimento sempre modelar do general Cesário.

     Quem ler o  encontrará também nele traços dessa mística sacral militar. O reducionismo que tentam impor ao militarismo brasileiro não se limita a transformar seu corpo em cavalgadura de um civil. Mais que isso: querem roubar-lhe a alma.

     Está gizado de modo sucinto o perfil de alma do soldado brasileiro, do único exército de Caxias, que ontem, hoje e amanhã serve como sentinela dos nossos campos, dos nossos mares, dos nossos ares. Para ele, “a farda não é uma vestimenta que se despe, mas uma segunda pele que adere definitivamente à alma...”. A farda veste seu corpo, a mística da sacralidade militar reveste sua alma.

 

     _________