DOIS AUTOMÓVEIS DUAS ÉPOCAS

E MENTALIDADES

 

André F. Falleiro Garcia

 

     Ao longo dos últimos 80 anos, as melhorias técnicas alcançadas na indústria automobilística constituem um fato incontestável e motivo de orgulho para os fabricantes das grandes marcas mundiais. De um lado, o avanço do progresso técnico propiciou maior segurança e conforto. De outro, a introdução do carro popular tornou acessível essa utilidade e comodidade às classes de menor renda e projeção social. Todavia, o confronto entre os anúncios de dois automóveis, cada um representando a excelência em sua respectiva época, permite constatar notável diferença de padrões. Pode-se afirmar que nos últimos 80 anos, a par do progresso material, houve também uma proporcional evolução ética e moral, refletida nos costumes, nos modos de ser, nas mentalidades?

     Na foto ao lado, vê-se o modelo Willys Knight, ano 1926, de seis cilindros. Podemos através do conteúdo de sua propaganda ter certa noção das mentalidades nesse período histórico, conhecido como entre les deux guerres. É o que veremos, conforme o anúncio que reproduzimos segundo a ortografia da época.

     É quasi impossível descrever este bello e novo WILLYS-KNIGHT. A belleza do seu desenho e o radiador mais estreito e mais alto, emprestam ao conjuncto esta apparência aristocrática que se encontra somente nos automóveis europeos de alto preço. As guarnições do acabamento ao centro da carosseria, espessos e elegantes estribos, pneumáticos balloon, almofadas e refinamentos do interior, são requintes de distincção que todas as pessoas de bom gôsto sabem apreciar.

     Há todo um universo de valores para o qual esta propaganda remete. É o mundo da beleza "quase impossível de descrever", refletida nas formas que emprestam ao objeto material uma aparência aristocrática européia. Elegância nos acessórios, refinamentos no interior do veículo, requintes de distinção, próprios a atrair o apreço das pessoas de bom gosto. A mensagem difundida nesta propaganda não contém apenas um significado comercial. Difunde um padrão de civilização superior, para o qual remete o leitor ou eventual comprador.

     Na foto à esquerda, a propaganda de um veículo Peugeot modelo 2005. O que antes era um automóvel europeu importado e de alto preço, passou a ser produzido na indústria brasileira a preço mais acessível.

     Para além da proposta comercial, a propaganda remete para um elevado padrão de civilização? Do automóvel Knight (cavaleiro ou fidalgo), chegamos ao automóvel 307 (número). Não se trata de comparar avanços técnicos do Peugeot 307 em relação ao Willys Knight. A questão é mensurar o valor cultural que vem agregado à comercialização do produto.

     Segurança, conforto, estabilidade. Tudo que uma mulher procura em um homem e um homem procura em um carro.

     O que primeiro se constata, é a baixa de nível cultural, do padrão aristocrático para o burguês. Segurança, conforto, estabilidade são valores idolatrados pela burguesia. Também estavam presentes no Willys Knight de 1926, em toda a medida permitida pelo avanço tecnológico da época. Mas ali não eram destacados. A sociedade paulistana da época estava voltada para o superior padrão europeu, que salientava os valores que remetiam mais ao espírito, não tanto à matéria. Lá, Hitler provocou o desmoronamento desse padrão. Aqui, Getúlio Vargas.

     Mas também se nota na propaganda do Peugeot 307 o apelo ao egoísmo. O desejo que o homem tem do automóvel é desvinculado do valor social de representação e prestígio que ele confere, como também não há referência a um padrão superior de civilização. Cultua-se o egoísmo humano que, no caso, é o ter algo, encerrado em si mesmo, em seu próprio gozo. Quando se cultiva o egoísmo, reduz-se o valor humano. O que a mulher mais deseja e encontra no homem, pode ser encontrado pelo homem numa máquina. A mulher se apequenou? O homem se tornou menor?

     Infelizmente a propaganda do Peugeot 307 é um retrato da civilização que perdeu o referencial superior. Por isso, proliferam entronizados por toda a parte homens-miniatura e chefes de Estado caricatos.

 

  

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