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A NOBREZA, FONTE ESPIRITUAL DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL [1]

 

Ricardo da Costa

 

Nobilis, non vilis, cuius et nomen et genus scitur.
É nobre, e não vil, aquele cujo nome e cuja raça são conhecidos
Isidoro de Sevilha, Etimologias X, 184.

 

Carlos Magno e seu filho Luís

 

A nobreza medieval forjou a gênese de nossa civilização.

A Idade Média não inventou a nobreza, mas a aprimorou, a lapidou sob os valores cristãos.

Retornar periodicamente à nobreza do Velho Mundo, reinterpretá-la, resgatá-la, é beber do tesouro inesgotável que é a cultura antiga e medieval, é examinar novamente os nossos próprios fundamentos histórico-culturais, principalmente em um momento crítico como esse, em que presenciamos o ocaso de seus frutos.

Só poderemos aspirar a um futuro mais compreensivamente generoso com o estudo de nosso passado mais universal. A universalidade histórica clama pela generosidade espiritual. E certamente a aristocracia e a nobreza no mundo antigo e medieval podem nos proporcionar essa amplitude do espírito, tão necessária nos obscuros dias hodiernos.

 

     A simplicidade e concisão da definição do bispo de Sevilha não deixam dúvidas: o que então distinguia e hierarquizava os homens na Alta Idade Média era o conhecimento que esses privilegiados tinham de pertencer a uma raça sagrada, antiga noção de nobreza (nobilis, “que se pode conhecer”, “que é conhecido”). Isso porque ainda não havia um estatuto jurídico próprio que se perpetuasse através do sangue – condição sine qua non para a constituição de uma nobreza, já dizia Marc Bloch (1886-1944). Isso só ocorreu bem mais tarde, por volta do século XII.[2] Mas o primeiro alicerce já fora lançado: só era nobre aquele cujo nome fosse conhecido, e, posteriormente, aquele que, com seu nome, pudesse provar a nobreza de seus antepassados.

     Quando Isidoro de Sevilha (c. 56-636) escreveu aquelas palavras, a obscuridade quase se tornara lei. Para se ter uma idéia disso, as genealogias dos camponeses medievais islandeses (sim, dos camponeses) são mais bem conhecidas por nós que a dos barões continentais![3] Essas famílias, essas raças, sofriam uma notável e constante renovação, até mesmo extinções. De qualquer modo, a distinção de nascimento era aceita também pelo fato de não existirem escravos entre seus antepassados – o que também sucintamente diz Isidoro. E pelo seu conceito oposto, isto é, nobre era que tinha o gozo da
libertas, a faculdade de dispor de si e de seus bens – e de ser generoso com eles (a famosa largueza cavaleiresca).[4]

     Além disso, a posse de uma terra, mesmo que alodial, tornava o seu detentor, ainda que um modesto camponês (sim, um camponês), alguém distinto dos outros, alguém honorável. Contudo, a riqueza não era condição indispensável (embora sempre fosse postulada – na Espanha eles não eram os ricos-homens?): poderia haver — e havia — nobres ricos e pobres, como camponeses ricos e pobres![5] Por exemplo, a nobreza polonesa (de 8 a 10% da população), em pleno século XVI, isto é, já no período moderno, tinha um nível de vida que não diferia muito do de seus camponeses.[6]

     Mas, acima de tudo, o poder de mando. Marc Bloch, sempre muito sensível a tudo que é humano, pergunta: “Houve alguma vez motivo mais seguro de prestígio do que o de poder dizer: ‘eu quero’?”.[7] Não. Igualmente honorável era o exercício do poder (especialmente o de julgar, o poder de ban) ou a proximidade dele (especialmente o monárquico), embora isso também não concedesse a nobilitas per se. Somado a isso, a coragem no campo de batalha, e o desejo do combate — a cavalo, claro: pouco a pouco, com o tempo, cavaleiro passou a ser sinônimo de nobre. Todas essas peculiaridades conferiam ao seu detentor um orgulhoso sentimento de distinção, de pertença a um grupo de escol.

     Em via de regra pouquíssimo numerosa, a nobreza era aberta, pois não totalmente endogâmica. Nesse sentido, as mulheres desempenhavam um papel fundamental. Elas eram as responsáveis pela transmissão do sangue, o elemento permanente e consubstancial da raça livre.[8] Essa é a origem laica da valorização feminina na Idade Média.[9] Mas o herdeiro deveria fazer jus ao herdado pela família, ao direito patrimonial, mesmo um rei. Para fazer valer sua potestas real, o monarca, primus inter pares, deveria saber impor-se, com sua personalidade, com sua inteligência, e, sobretudo, com sua coragem. Sem isso, ele teria o poder, mas não a autoridade.[10]

     A nobreza medieval forjou a gênese de nossa civilização. Mais do que seu caráter guerreiro, foi na nobreza que brotou a literatura, expressão máxima de uma cultura digna do nome.[11] Poemas, novelas, genealogias, cronologias, tratados, enciclopédias, crônicas, hagiografias, com eles a nobreza européia exprimiu e difundiu os códigos sociais universais. Por isso, ela foi o substrato que moldou a cultura exportada para o mundo com a Modernidade.

     Contudo, a Idade Média não inventou a nobreza, mas a aprimorou, a lapidou sob os valores cristãos. Em uma profunda camada histórica abaixo do mundo medieval, o terreno já fora muito bem preparado e sedimentado pela Antigüidade, pela arete nobiliárquica grega.[12] Notavelmente, todas as características da nobreza medieval já estão presentes na poesia do período homérico, tanto na Iliada quanto na Odisséia – por exemplo, a coragem em campo de batalha e o profundo sentido do dever, a honra e o orgulho de pertencer a seu grupo social, e, acima de tudo, a elevação da posição feminina.[13] Trata-se, portanto, de uma gestação inscrita na longa duração, como diria Fernand Braudel (1902-1985), no tempo quase imóvel do movimento mais profundo das marés.[14] Por isso sua perenidade, densidade e profundidade.

     Retornar periodicamente à nobreza do Velho Mundo, reinterpretá-la, resgatá-la do historicismo sem limite, nesta noite em que todos os gatos são pardos, como bem disse Werner Jaeger (1888-1961)1[15] é beber do tesouro inesgotável que é a cultura antiga e medieval, é examinar novamente os nossos próprios fundamentos histórico-culturais, principalmente em um momento crítico como esse, em que presenciamos o ocaso de seus frutos.[16] Pelo contrário, só poderemos aspirar a um futuro mais compreensivamente generoso com o estudo de nosso passado mais universal. A universalidade histórica clama pela generosidade espiritual. E certamente a aristocracia e a nobreza no mundo antigo e medieval podem nos proporcionar essa amplitude do espírito, tão necessária nos obscuros dias hodiernos.

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     NOTAS:

    [1] Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Acadêmico Correspondente n. 90 da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona. Site: www.ricardocosta.com

    [2] BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 297.

    [3] Embora saibamos que muitas das genealogias camponesas tenham sido inventadas (como, de resto, a nobreza também fazia). Para isso, ver SAWYER, Peter H. “The Twelfth Century”. In: SAWYER, Peter H. Kings and Vikings: Scandinavia and Europe AD 700-1100. London: Routledge, 2003, p. 8-23.

    [4] GÉNICOT, Léopold. “Nobreza”. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval II. Bauru, SP: EDUSC; São Paulo, SP: Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 281. “A largueza era a terceira das virtudes necessárias ao cavaleiro. Idealmente, ela realizava o gentil-homem, instaurando a distinção social, pois o cavaleiro tinha o dever de nada reter em suas mãos. De sua generosidade ele hauria a força que possuía e o essencial de seu poder – ou, pelo menos, o renome e a calorosa amizade que o cercava. Em Ramon Llull, a largueza (largesa, larguea, larguesa) significava o mesmo: abundância em dar, generosidade, liberalidade, a caridade do cavaleiro, o respeito pelos feridos na batalha.” – COSTA, Ricardo da. “A ética da polaridade de Ramon Llull (1232-1316): o conhecimento necessário dos vícios e virtudes para o bom cumprimento do corpo social”. In: COSTA, Marcos Roberto N. e DE BONI, Luis A. (orgs.). A Ética Medieval face aos desafios da contemporaneidade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004, p. 487-502. Disponível na Internet.

    [5] O filósofo catalão Ramon Llull (1232-1316) oferece um considerável número de exempla em que apresenta estórias de nobres empobrecidos e camponeses ricos, como, por exemplo, o cap. 73 do Livro das Maravilhas (1288-1289), em que um camponês rico casa-se com uma mulher de linhagem nobre. Ver COSTA, Ricardo da. “A noção de pecado e os sete pecados capitais no Livro das Maravilhas (1288-1289) de Ramon Llull”. In: FILHO, Ruy de Oliveira Andrade (org.). Relações de poder, educação e cultura na Antigüidade e Idade Média. Estudos em Homenagem ao Professor Daniel Valle Ribeiro - I CIEAM - VII CEAM. Santana de Parnaíba, SP: Editora Solis, 2005, p. 425-432. Disponível na Internet.

    [6] BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 419.

    [7] BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal, op. cit., p. 303.

    [8] Embora, na prática, isso não impedisse os casamentos das mulheres (particularmente as viúvas) com homens fora do grupo nobiliárquico (as chamadas nuptiae impares).

    [9] Para o tema, ver COUTINHO, Priscila Lauret e COSTA, Ricardo da. “Entre a Pintura e a Poesia: o nascimento do Amor e a elevação da Condição Feminina na Idade Média”. In: em GUGLIELMI, Nilda (dir.). Apuntes sobre familia, matrimonio y sexualidad en la Edad Media. Colección Fuentes y Estudios Medievales 12. Mar del Plata: GIEM (Grupo de Investigaciones y Estudios Medievales), Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMdP), diciembre de 2003, p. 4-28. Disponível na Internet.

    [10] LUIS VILLACAÑAS, José. Jaume I el Conquistador. Madrid: Espasa-Calpe, 2004, p. 19.

    [11] Para a literatura medieval, o sempre clássico CURTIUS, Ernst Robert. Literatura Européia e Idade Média Latina. São Paulo: Editora HUCITEC/EDUSP, 1996, mas também COHEN, Gustave. La Vida Literaria en La Edad Media. México: Fondo de Cultura Económica, 1997.

    [12] “Não temos na língua portuguesa um equivalente exato para este termo; mas a palavra virtude, na sua acepção não atenuada pelo uso puramente moral, e como expressão do mais alto ideal cavaleiresco unido a uma conduta cortês e distinta e ao heroísmo guerreiro, talvez pudesse exprimir o sentido da palavra grega.” – JAEGER, Werner. Paidéia. A Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 18.

    [13] “...numa raça orgulhosa de cavaleiros, a mulher pode ser mãe de uma geração ilustre. Ela é a mantenedora e guardiã dos mais altos costumes e tradições.” – JAEGER, Werner. Paidéia, op. cit., p. 33.

    [14] BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na época de Filipe II. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995, vol. I, p. 25-26.

    [15] JAEGER, Werner. Paidéia, op. cit., p. 11.

    [16] Jean Lauand já advertira: “Quem contempla o panorama educacional brasileiro percebe imediatamente que o ostrogodo é uma realidade atual, atualíssima. Tal como no século VI, o perigo que enfrentamos é o do simples desaparecimento da cultura grego-romana que plasmou o Ocidente. Quem lê e compreende a fundo, hoje, Platão, Aristóteles, Virgílio, Cícero, Agostinho, Tomás de Aquino, Dante?” – LAUAND, Jean. Cultura e Educação na Idade Média. Textos do século V ao XIII. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 3.

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   Artigo publicado na Revista

 

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