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BREVES APONTAMENTOS ACERCA D0S CARLISTAS

 

Carlos Nougué

Óleo de Augusto Ferrer-Dalmau, 2005

 

Cristo consola o combatente carlista requeté.

"Para Deus não há heróis anônimos"



     Ao seu modo tão próprio, dizia Chesterton ao perguntar-se sobre quem não levaria para uma ilha deserta: “Um pacifista.” Pois não são pacifistas os carlistas espanhóis, cujo movimento monarquista tem história multissecular, atravessa as fronteiras peninsulares e ibéricas, e conta com representantes intelectuais tão ilustres como os dois Gambras, pai e filho, já morto o primeiro, vivo o segundo. O primeiro, o grande filósofo Rafael Gambra, era um exemplo perfeito daquele tipo de homem tão tradicional na Espanha e tão decantado no D. Quixote de Cervantes: o homem das armas e das letras ― sempre a serviço, por suas armas e sua pena, da verdadeira religião e do verdadeiro estado católico. Com efeito, foi Rafael Gambra combatente carlista na guerra civil espanhola da década de 1930, na qual a luta (e vitória) dos católicos contra os comunistas e republicanos foi chamada “santa” pelo Papa Pio XII, e na qual, como nas principais lutas internas da Espanha nos últimos séculos, estiveram os carlistas na linha de frente dos que marchavam sob a Cruz de Cristo.

     O programa político-econômico dos carlistas é irretocável de todos os ângulos, especialmente o da Realeza Social de Cristo, e profundamente tomista; e pode ser visto em diversos sites e blogs, entes os quais o do Círculo Cultural Antonio Molle Lazo. Lê-se de imediato neste blog: “Contra todos os partidos; Contra a plutocracia; Contra o despotismo democrático; Por uma Monarquia Popular; etc.” Vasculhem este e outros lugares seus na Internet, e terão a confirmação do que dizemos. Uma ilha de verdade e pureza num mundo que se putrefaz do liberalismo e suas seqüelas.

     Serão os carlistas, nos dias de hoje, uns novos Quixotes? Talvez. E eu mesmo não compartilho uma afirmação deles, a saber, que, contra todas as aparências, é certa a vitória final. Não é certa, e ao dizerem-no compartem os carlistas o erro de crer que a virtude teologal da Esperança se ordena infalivelmente às melhores coisas da terra, como a reconstrução da Cristandade; como sempre dizemos, ela se ordena própria e ultimamente às coisas dos Céus, e não raro esta ordenação implica a derrota ou o martírio na terra [1].

     Por outro lado, porém, estão os carlistas na mais católica das verdades, ao repetir, alto e bom som, que todo e qualquer regime político ou estará a serviço do Cristo, ou estará a serviço do demônio; que o estado católico ou é parte ou membro da Igreja, que é a própria Cidade de Deus, ou é vassalo do príncipe deste mundo. E não repeti-lo, mesmo num mundo tão apóstata quanto o atual, é contribuir com este mesmo e corrupto mundo.

Óleo de Augusto Ferrer-Dalmau - Legenda: Ninguém sabe o grande valor das mulheres de Espanha, que entregaram seus amores, por sua Pátria e por seu Deus...

     É imensa a minha admiração pelos carlistas, e em muitos aspectos. Outro exemplo? O da arte, e especialmente a pintura. Sim, porque é carlista o maior pintor da atualidade (e um dos maiores de todos os tempos): Augusto Ferrer-Dalmau.

     Realista, Ferrer-Dalmau sobressai especialmente nas pinturas em que retrata os carlistas em combate, às quais imprime a força épico-católica de um Cantar de mio Cid (e do filme El Cid), por exemplo. Visitem o site sobre sua obra, neste endereço. O que verão falará por si. Mas façam especialmente o seguinte, no mesmo site: após entrarem, cliquem em “Ecuestre-Militar”; depois, no alto à direita, em “Película”; e admirem uma arte verdadeira, católica, viril, e atual. Arte carlista.

Óleo de Augusto Ferrer-Dalmau retrata carga de cavalaria
Óleo de Augusto Ferrer-Dalmau retrata carga de cavalaria das tropas carlista

     Para concluir estes breves apontamentos, como não falar do que acaba de acontecer ao ex-presidente uruguaio Juan María Bordaberry, monarquista, carlista, católico tradicionalista? Ele, cujo governo não foi responsável pela morte de nem um opositor político sequer, acaba de ser condenado, com mais de 80 anos, a décadas de cadeia, numa vingança infame do infame governo do ex-guerrilheiro tupamaro José Mujica, eleito democraticamente para a presidência do Uruguai. As razões? O ter, na década de 1970, dissolvido as Câmaras parlamentares para tirar o país do caos liberal-comunista e o ter entregado o poder aos militares, cuja maioria, maçônica, depois o traiu. Bordaberry já estava preso, sob as mesmas acusações, mas em prisão domiciliar por problemas de saúde. Agora, o novo “julgamento” (cujas aspas decorrem de sua iniqüidade) agravou-lhe enormemente a pena. Não sintamos uma lástima sentimentalóide, ao modo moderno, pela sorte que lhe cabe, até porque, respondendo a uma senhora que lhe dizia: “Vou rezar para que não seja condenado”, disse ele: “Reze antes para que eu suporte como um verdadeiro católico a prisão”. Tem a fibra do mártir, tem a fibra do carlista. Mas não nos calemos: devemos a este grande homem e a Cristo o denunciar a ignomínia que se comete contra ele ― e contra Ele.

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     Fonte: publicado no blog Contra Impugnantes.

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    [1] Nota do Editor de Sacralidade, sobre a certeza da vitória, é apresentada a seguir.

 

A certeza da vitória e a reconstrução da Cristandade

 

André F. Falleiro Garcia

 

     O perfil do guerreiro cristão abrange um conjunto de virtudes e dons naturais e sobrenaturais, propensões, estados de espírito e modos de ser, inclusive a destreza militar. Destaca-se nele a certeza da vitória da causa católica, como expressão emblemática de seu universo espiritual e comportamental, marcado pela prática das virtudes cristãs, notadamente da Esperança, Confiança, Fortaleza e Amor de Deus.

     A arte da guerra sabe muito bem o quanto é importante a esperança da vitória para o bom sucesso nos combates. Ademais, até a História militar e religiosa brasileira registra fatos extraordinários, nos quais a intervenção celeste nos acontecimentos deu a vitória aos que, mesmo em menor número e com menos recursos materiais, combateram com Fé e extraordinária coragem.

     A restauração da Civilização Cristã será feita com espírito de Cruzada, de Cavalaria, ou não promoverá — em sua totalidade e integridade — a autêntica Contra-Revolução. Não é possível conservar o gume desse espírito combativo sem avivar a certeza da vitória. Deus vult, Deus o quer! Sim, Deus, Senhor da História, quer ser vencedor e sabe que o será. Também quer atender à prece "...venha a nós o vosso reino", e à invocação que a Igreja repete sem cessar na Ladainha do Espírito Santo: "Enviai o vosso espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra".

     É preciso que a convicção da vitória esteja  solidamente estabelecida na alma do guerreiro que enfrenta o inimigo, sobretudo na guerra psicológica revolucionária em curso, em que há grande empenho em desanimar e inutilizar os que resistem na cidadela católica.

     Para ser um bom combatente na guerra psicológica é necessário possuir espírito altamente contemplativo: a contemplação é a fixação amorosa da atenção sobre  determinado ponto ou determinada verdade de ordem natural ou sobrenatural, como por exemplo, a restauração da Ordem cristã na sociedade brasileira. É a contemplação dessas verdades que dá a coragem para viver e prosseguir na defesa intransigente dos elevados ideais. É preciso haver uma visão clara das coisas sumas, amadas  com destemor e com ênfase, na ventania e no frescor da aquiescência interior, para que de fato surja o heroísmo. Sobre as convicções e os ideais que povoam o firmamento interior do guerreiro sacral soprarão os ventos da epopéia que o estimularão para as maiores ousadias da história.

     O contra-revolucionário católico possui um castelo de certezas interior, ele todo é um edifício de lógica e coerência, de senso metafísico, de amor de Deus. A certeza da vitória é uma das convicções-mestras dessa lógica interior e um dos supremos objetos da atenção dos guerreiros contemplativos que se empenham na Cruzada do Século XXI.

     Em sua forma mais singela, a certeza da vitória resulta do processo psicológico de formação das certezas, devidamente fundadas em intuições e considerações razoáveis, que se estabelecem e consolidam no espírito. Sua modalidade mais robusta surge quando sobre o edifício das convicções pousa a graça sobrenatural, ampliando as potencialidades da inteligência e da vontade humana. Às considerações políticas, históricas e sociológicas, somam-se então razões da Filosofia da História e da Teologia da História, num encadeamento de raciocínios e de reflexões que causam desconcerto a muitos que com mérito lutam pela mesma causa conquanto por equívoco consideram-na destinada ao fracasso.

     Mas toda essa construção de pensamento pode se verticalizar ainda mais: mediante certa conaturalidade no relacionamento da alma com Deus, começa a entender melhor as divinas razões e passa desse modo a inteligir não mais com seu próprio entendimento, mas com o divino entendimento. A conaturalidade com Deus lhe proporciona lucidez extraordinária para perceber que um dia Ele vencerá. Pois Deus, Senhor da História, pode ser vencedor, quer ser vencedor e sabe que vencerá. Através do mecanismo sobrenaturalizado da conaturalidade, a alma participa desse conhecimento e, com essa certeza assim adquirida, passa a esperar a vitória, cujo sabor previamente já degusta.

     Neste elevado patamar, a certeza da vitória é um ato a um tempo natural e sobrenatural da inteligência e da vontade — como convicção pinacular e objeto supremo de contemplação —, que operam não mais de um modo humano, mas propriamente divino, sob regime especial de graças místicas e dons, que intensificam no espírito do guerreiro sacral a disposição de dedicar-se por inteiro, e o predispõem para o heroísmo, inserindo-o na atmosfera de vitalidade, proeza e santidade da Cavalaria e das Cruzadas. Desse modo, os espíritos ilustrados de divina certeza e animados pela antevisão pulcra e amorosa da divina vitória ficam  impregnados da ufania e do élan de uma nova Cavalaria marial, que lhes faz saborearem com antecipação o serem vencedores.    

     Mas Deus é transcendente em relação à Criação e não imanente. De fora da Criação, intervém no curso das coisas, servindo-se dos homens e dos anjos para realizar os seus desígnios. Tal é a envergadura do combate, que os esforços humanos são insuficientes. Para a reconstrução da Cristandade em nosso tempo, é preciso que a Jerusalém Celeste desça para a Terra, com São Miguel Arcanjo à frente chefiando as milícias celestes, orientando a destruição dos aparatos da Babilônia moderna. Batalha apocalíptica, sem dúvida, na qual os potentados terrenos se tornam pigmeus. Batalha também profética. O missionário francês São Luís Maria Grignion de Montfort foi o pregoeiro da restauração da Civilização Cristã e da instauração do Reino de Maria, conforme apresentou no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, em O Segredo de Maria, e na Oração Abrasada.

     Os leitores de Sacralidade que queiram de algum modo se engajar nesse combate, além dos recursos sobrenaturais proporcionados pela Santa Igreja — como a assistência à Santa Missa, a recitação do santo rosário etc. — poderão empregar uma oração, para uso privado, composta por Plinio Corrêa de Oliveira. A referida oração, que a seguir apresentamos, está impregnada dessa inspiração profética montfortiana e da certeza da vitória do Imaculado Coração de Maria sobre a Revolução gnóstica e igualitária.

     Vinde, Senhora, que é chegado o tempo!

     Considerai o pecado de Revolução que enche a terra, encharca os subconscientes, deforma as consciências de tal maneira que se pode dizer que quase mais ninguém vos é inteiramente fiel. Ponde em nós uma recusa inflexível desse estado de abominação universal. Fazei cessar as concessões, em virtude das quais essa abominação penetrou em nossas almas.

Vinde para quebrar, arrancar, destruir, queimar. Vinde para que, de toda essa ignomínia, não reste pedra sobre pedra.

Vinde! Pelo mistério do Segredo de Maria, triunfai em minha alma e nas dos que escolhestes para serem executores de vossa cólera e pedras vivas de vosso Reino. Desdobrai sobre nós a irradiação das virtudes excelsas que recebeis da plenitude do próprio Deus.

Fazei de nós escravos e guerreiros de vosso Reino.

Cor Sapientiale et Immaculatum Mariae, opus tuum fac.

      

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